Há alguns dias, foi publicado um artigo-critica para nós por um hayekiano em um blog. Nós divulgamos o post com antecedência aqui na página, para que todos pudessem ler a crítica. Agora, chegou a hora da resposta.

Link da critica em questão: https://devaneiosliberais.wordpress.com/2017/01/27/contra-a-cpl-parte-1-as-teorias-de-valor/

O texto foi preciso apenas com a teoria marxista do valor-trabalho em stricto senso, ou seja, com a proposição conceitual que a define. Contudo, houveram muitas imprecisões com relação aos condicionantes e às determinações do que faz o valor-trabalho ser o que a sua proposição conceitual diz que ele é, que iremos demonstrar a seguir.

Em especial, também ficamos felizes que o autor do texto não tenha caído na falácia da microeconomia de que existem duas curvas dadas em si mesmas – a da oferta e a da demanda – que determinam os preços sem determinar uma a outra e que depois os preços determinam de volta cada uma das duas curvas, ao mesmo tempo que considera o valor subjetivo. Caso tivesse feitos teríamos de demonstrar a implicação lógica, escondida nessa retórica, de que se o valor das coisas é subjetivo, então a curva de oferta também seria determinada pela demanda, entrando em contradição com a existência da oferta e demanda separadas em si mesmas para determinarem o preço nas suas intersecções.

O próprio texto já desembaraçou o emaranhado sofístico da microeconomia sobre a cadeia de determinações dos preços ao atribuir logo diretamente à demanda a causa primeira – mais determinante e estrutural – de todos os demais momentos do processo de formação dos preços. O autor foi honesto e direto a respeito do fato de que, para a microeconomia, a demanda determina a oferta e a relação consequente entre estas (após a demanda ter determinado a oferta) determina os preços.
Bem, como ele nos poupou o trabalho de ter que esmiuçar a implicação lógica escondida na teoria de formação dos preços da microeconomia, podemos ir direto para o apontamento dos problemas dessa inversão da cadeia de determinações do processo de formação dos preços.

O primeiro problema está no fato de que, se a demanda determina a oferta, pois ela se caracteriza como mais ou menos preferências subjetivas dos agentes econômicos (porque o valor é subjetivo) – no caso os produtores privados de algo – por certos processos de produção e trabalho do que outros para ofertar aquilo com que esperam lucrar no mercado, e assim, de acordo com a demanda do que a capacidade produtiva do processo de produção e trabalho escolhido pelo produtor oferta, os preços são formados, ao mesmo tempo eles, os preços, também determinam a demanda desse algo ofertado, então chegamos ao ponto de que o preço determina o preço? Temos aqui uma tautologia?

Segundo, por mais que no texto esteja escrito que não faria confusão entre valor e preço, o único problema que de fato foi colocado – a afirmação de que o valor daquilo que ele chama de “técnicas produtivas” também é subjetivo – contém justamente uma confusão entre valor e preço.

Aliás, essa confusão ficou visível até mesmo no exemplo dele citando Adam Smith. O trecho retirado do texto abaixo mostra, por exemplo, que ele estava explicando ‘preço’, enquanto Adam Smith fala de valor. Faço questão de demarcar isso no trecho retirado abaixo:

“A teoria de valor-trabalho é a versão mais popular de um conjunto de teorias de que os preços são determinados pelas condições das técnicas produtivas, sendo que algumas das alternativas são teorias de quantidade de energia (no sentido usado na física) e etc. Tais teorias defendem que são as condições técnicas, i.e, as relações “físicas” entre os fatores produtivos, que determinam o >>>>>preço<<<<>>>>preço<<<<< de X será 2 vezes maior que o de Y.   Essa elaboração inicial pode ser encontrada em Adam Smith: “Se, em uma nação de caçadores […] matar um castor geralmente custa o dobro de trabalho de matar um cervo, é natural que um castor deva ser trocado por ou ter o >>>>>valor<<<<< de dois cervos” – Adam Smith, The Wealth of Nations, p. 47 (Edição da Random House Moder Library, 1937)” Continuando… Essa confusão entre valor e preço persistiu no texto porque o autor desconhece totalmente o conteúdo do Livro III de O Capital. Marx explica perfeitamente que os bens irreprodutíveis, que não são produto do trabalho humano mensurável pela abstração do seu dispêndio de energia, músculos e nervos, como são os recursos próprios da natureza não humana, ou como são as obras de arte auráticas, por exemplo, não tem valor e sim preço.   Portanto, se os recursos naturais diminuem e a capacidade produtiva fica comprometida, aumentando a média do tempo socialmente necessário de trabalho para se produzir o que se produz com esses recursos naturais, porque a quantidade de trabalho humano abstrato contido na forma social (trabalho concreto) de apropriação desses recursos para transformá-los na mercadoria a ser ofertada aumentou, isso não impede de que, além do valor, os preços desses recursos também tenham aumentado para além do que aumentou o valor.   Isso acontece justamente porque esses recursos ficaram mais escassos para a quantidade de dinheiro que o valor criado pela produção de trabalho humano vivo colocou em circulação em toda economia, o que alterou a relação de demanda e oferta desses recursos, diminuindo à última em detrimento da primeira até que o fornecimento desses recursos voltem ao normal, ou até que uma alternativa à necessidade de seu uso produtivo apareça.   Portanto, há tanto o acréscimo de valor do maior trabalho necessário para a apropriação do recurso quanto o aumento do preço desses recursos que em si não tem valor (porque não são produtos do trabalho humano) por terem ficado mais escassos. Uma coisa não exclui a outra. O padrão de valor do trabalho de apropriação e transformação dos recursos aumentou, exigindo um preço mínimo maior para pagar seu próprio custo de existência, e o preço dos recursos em si aumentaram, ambos os fenômenos por causa do aumento objetivo da escassez.   Sendo assim, o aumento da utilidade marginal é a consequência e não a causa dessa situação. Nesse caso, reiteramos, o que faltou ao nosso bom amigo foi ler o Livro III de O Capital. Nele Marx tem seções inteiras para falar do preço de coisas irreprodutíveis, como o dinheiro (não o papel moeda e nem a sua reprodução artificial pela especulação financeira, que é tratada justamente como artificial nessa obra, apesar de funcional ao capital) e as terras.   O que não é reprodutível não tem trabalho humano abstrato que possa ser mensurado por qualquer expressão socialmente convencionada (como o tempo), portanto, não tem valor. E se for algo que pode ser privatizado para ser trocado no circuito mercantil, então é uma mercadoria que só tem preço.   Quando a produção e circulação em questão é a de mercadorias que são produto do trabalho humano concreto que pode ser abstraído em uma quantidade de dispêndio de atividade humana indiferenciada mensurável em uma expressão social, esse trabalho se comporta, na sua média socialmente necessária sob certas condições dadas historicamente, como um padrão interno do nicho de mercado dessas mercadorias para determinar o mínimo preço necessário que elas precisam ter para pagar seus custos de produção e o quanto de margem de lucro podem ter para concorrer no mercado. Só que, quando se trata de mercadorias que não são produto do trabalho humano, o padrão de valor para a determinação do seu preço está fora do seu nicho. Ele se encontra disperso em toda a sociedade, na quantidade de valor que a economia de produção dá daquilo que é feito pelo trabalho humano mensurável cria, a partir da sua expressão monetária de quanto dinheiro essa produção colocou em circulação em toda a economia.   Portanto, as mercadorias irreprodutíveis, porque não são produto do trabalho humano, tem preços maiores quanto mais valor os setores de produção do trabalho humano criam e vice e versa, pois quanto mais valor criado, mais dinheiro ou expectativa de dinheiro em circulação e assim mais expectativa de demanda por essas mercadorias que não tem valor, mas tem preço.   Prosseguindo no texto, os adeptos da teoria liberal austríaca continuam fugindo de responder de onde vem a demanda. Chegamos ao cúmulo de ler nesse texto que é a inventividade subjetiva do produtor que o leva à sua escolha das melhores técnicas para se produzir algo. De acordo com o texto, é o indivíduo que inventa de sua própria cabeça as técnicas de menor utilidade marginal do que aquilo que com essas técnicas é produzido. Gostaríamos de saber, sinceramente, de onde eles tiraram essa conclusão da subjetividade como determinante do valor só com o pressuposto da utilidade marginal decrescente? Os indivíduos são tábulas rasas que vivem num universo próprio de cada um, sem relação com ninguém e nem com o legado natural e histórico dos indivíduos que vieram antes? Essas distorções idealistas da realidade em abstrações, que só existem na mente humana, vem da falta de conhecimento sobre o materialismo histórico dialético.   Para entender como é a realidade da única forma que ela pode existir – portanto, como realidade concreta -, que é uma totalidade estruturada em sínteses de múltiplas determinações e sobredeterminações hierarquizadas entre si (um complexo de complexos), é necessário aliar a concepção materialista da história e o método da Economia Política. Aliás, a acusação do texto sobre uma idealização do irreal com o pressuposto das situações de equilíbrio entre valor e preço feito por Marx é fruto de outro desconhecimento, o do método da Economia Política.   Vamos tratar agora, primeiro, da concepção materialista da história, em seguida, do método da Economia Política. Sobre a concepção materialista e dialética da história:   Como a realidade concreta é uma totalidade estruturada, tudo que existe nela adveio de uma forma anterior que ela tinha e que estava dada. Portanto, sempre há uma forma dada da realidade que contém as condições de determinação das possibilidades de existência das formas que se sucederam da realidade posteriormente. Não há nada que passe a existir do nada, tudo veio a existir do que já era existente, o que faz a realidade ser ontológica. Desse modo, a existência humana se dá pela ação coletiva dos indivíduos sobre a natureza para transformá-la teleologicamente (ou seja, uma ação que é pensada como um projeto de meio para se obter um fim já pré-concebido na mente) – conforme as possibilidades das condições dadas, tanto da natureza quanto da forma vigente de sociabilidade – e assim transformar a si mesmos, como parte dessa própria natureza. E ao transformar a natureza e consequentemente a si mesmos (ao pôr em prática a ação), as condições que determinam as possibilidades do que fazer e por conseguinte como existir também se transformam em outras condições, que por sua vez irão determinar outras possibilidades do que e como fazer e assim das formas de existência resultantes de tal processo. Por isso, não há uma inventividade subjetiva de cada indivíduo que é um produtor privado por um tipo de força produtiva, meio de produção, processo de produção e trabalho do que outro.   O que há é que os tipos de força produtiva, meios de produção, processo de produção e trabalho que são utilizados pelos produtores privados são possibilidades que foram legadas pelas condições naturais e sociais dadas no momento histórico em questão. Não há uma criação individual, apenas subjetivações das formas possíveis que as relações sociais com a natureza no decorrer da história nos legaram. Portanto, trata-se de algo totalmente objetivo (ontológico) em última instância.   Agora, sobre o método da Economia Política:   Sendo a realidade concreta uma totalidade, como poderíamos a apreender e saber o que de fato ela é, já que em última instância todas as coisas existentes se determinam mutuamente? Além do axioma de que a realidade concreta só pode existir como totalidade, há os axiomas derivados desse primeiro axioma de que, primeiro, a realidade é finita (pois não pode existir qualquer coisas indiscriminadamente nela em nenhum momento), e, segundo, de que as múltiplas determinações que constituem a síntese do que é essa realidade não a determinam, cada uma, exatamente do mesmo modo. Há determinações que são mais estruturais – determinam mais e por isso precedem outras determinações mais do que são determinadas e precedidas – e há determinações que são mais contingenciais – determinam menos e por isso são precedidas mais por outras determinações do que as determinam e as precedem. Ora, para ser possível saber o que é a realidade é necessário apreendê-la em sua totalidade, pois qualquer recorte arbitrário a distorce (por mais que nenhum recorte arbitrário consiga escapar dos limites de possibilidades postos pelas condições historicamente dadas, não podendo ser assim totalmente subjetivo), uma vez que negligenciaria possíveis determinações sem as quais o que está sendo estudado não poderia ser o que é.   Além disso, tem de se considerar como estão encaixadas e relacionadas entre si nela cada parte constituinte, a hierarquia da estrutura de determinação. Para isso, a única forma possível é o método da Economia Política, no qual se faz dois grandes procedimentos: a investigação histórica e a exposição categorial. A investigação histórica é a apreensão da realidade pela coleta de dados do único ponto de partida possível para o contato sensível do investigador sobre o que está sendo investigado, que é a síntese mais recente de múltiplas determinações, o presente em que o investigador se encontra. Assim, a investigação histórica é um procedimento que vai do presente ao passado.   Já a exposição categorial é a organização dos fenômenos nos dados coletados na devida ordem hierárquica estrutural de determinação que eles existem na natureza. Portanto, do que foi coletado pela investigação histórica, tem que ser deduzido aquilo que for mais geral e simples, aquilo que mais se encontra recorrente e saliente, o mais determinante e que por isso é o minimamente necessário para o que está sendo investigado seja como é. Daí, ele tem de si abstraído de todo o resto de onde veio para ser representado sozinho por uma categoria própria, que é abstrata, com menos determinações por serem justamente as mais gerais e simples.     Posteriormente, começa a operação lógica de retornar dessa categoria mais abstrata do que é o mais simples e geral para as suas variações possíveis na concretude que foi primeiramente abstraída, se revestindo assim do que é mais específico e complexo, aquilo que é representado por categoria mais concretas, com mais determinações, colocando essas categorias para se determinarem conceitualmente entre si e assim gerar a sua representação em um “concreto de pensamento”, um reflexo da realidade na mente. Isso quer dizer que a exposição categorial é o caminho inverso da investigação histórica, ela vai do passado ao presente, pois é o sentido das condições mais determinantes do que determinadas para as menos determinantes e mais determinadas, embora o que é menos determinante também determina o que é mais determinante.   Ora, a exposição categorial é o retorno do ponto de chegada para o ponto de partida da investigação histórica, o retorno do investigador para o ponto da história de que ele partiu. Porém, como a história não para a investigação ser feita, o movimento dos procedimentos do método são perpétuos para acompanhar o próprio movimento da realidade, conhecendo a totalidade que cada vez mais se altera e se acrescenta do passado no presente.   E é justamente por isso que Marx fez abstrações de pressupostos que não eram concretamente reais, pois necessitava supor as condições em que é sensivelmente apreensível as determinações mais simples e gerais que são minimamente necessárias para a realidade ser como é. Ou seja, Marx fez no texto de O Capital uma exposição categorial do que vai do mais simples e geral – o mais abstrato – para o mais complexo e específico – o mais concreto – para saber exatamente quais são as posições de determinação de cada uma das partes constituintes da totalidade do real. Ele fez uma investigação histórica ds décadas dos dados que pôde coletar no seu contexto histórico – a Europa Ocidental da metade do século XIX, em especial a Inglaterra – e deduziu o que era necessário a esses dados para eles serem da forma que se apresentavam. Por exemplo, foram pesquisados os mercados internacionais e nacionais de comércio entre as empresas de variados portes, os Estados e as populações, mas estes mercados pressupõe a produção e todos os seus fatores, que por sua vez pressupõe o dinheiro e o trabalho, e que por fim pressupõe a mercadoria – propriedade privada, oriunda ou não do trabalho humano que tem como destino a troca – que é a unidade mais elementar do modo de produção capitalista, a sua célula, pois é a forma que cada vez mais tudo assume no tipo de sociabilidade desse sistema.   É disso que Marx pôde descobrir a existência do fetichismo da mercadoria, a inversão da realidade que se mostra pelo mais abstrato – a mercadoria – como se fosse o mais concreto, portanto, a coisificação das relações sociais (no caso, o velamento do trabalho) como propriedades objetivas naturais qualitativas e socialmente úteis (valor de uso).   Outras imprecisões do texto em questão, podem ser notadas a seguir:   “Geralmente o debate é associado a um conceito fortemente sequestrado por motivos ideológicos e cuja resolução reside, em ultima instância, fora da ciência econômica — mais precisamente na ética. Tal conceito é a mais-valia.”   A mais-valia (ou mais-valor) não é um argumento ético a priori, é uma constatação científica baseada na teoria do valor-trabalho. Depois, num segundo momento, pode-se falar na ética da apropriação da mais-valia, mas isso é irrelevante pra uma análise científica.   A tentativa, porém, de justifica-la moralmente, não faz sentido lógico; o proletário arrisca sua vida, integridade física e sobrevivência.   O maior risco que o capitalista tem (na hipótese mais extrema), é justamente falir e virar proletário.   Essa asserção é o mesmo viés da ideia do austríaco Böhm-Bawerk sobre a mais-valia, que foi em especial, incansavelmente refutada por nós aqui neste post: https://m.facebook.com/CPLBrasil/photos/a.111019786038479.1073741828.110806902726434/193338694473254/?type=3&source=54&ref=page_internal   “embora isso, mesmo na teoria de valor-trabalho, perde validez se assumirmos que todos que assumem um sacrifício para atingir um fim têm direito aos seus frutos, e o ato de investir entra facilmente nessa categoria.”   Aceitar que quaisquer pessoas que assumem um sacrifício para atingir um fim têm direito aos seus frutos não é aceitar que uma minoria ociosa — que tem pouca importância enquanto não-possuidor dos meios de produção, ao contrário do trabalhador — tenha direito à maior parte dos frutos, enquanto o trabalhador tenha a menor parte. Isso não é, de novo, se basear em ética pra sustentar a mais-valia por uma questão “ideológica”, é simplesmente verificar que se se investe em um negócio, é claro que deve-se ter o fruto do mesmo, mas de forma proporcional ao seu investimento.   “se o valor “existe” e não entra no processo casual para determinar os preços, logo, qual é a necessidade desse conceito?” A necessidade de compreender o valor é entender o processo de formação do elemento fundamental do modo de produção capitalista, um elemento específico: a mercadoria. Entender o preço é estudar uma forma de manifestação do valor quando a mercadoria é um equivalente geral — na cadeia, geralmente, o cigarro faz o papel de equivalente geral, de dinheiro, etc. Portanto, cabe aqui não só estudar o valor como essência do preço, mas entender que o valor é a essência da mercadoria, o que as torna trocáveis entre si — que, quando as mercadorias são postas no mercado, expressa-se o valor de troca de uma mercadoria no valor de uso de outra; é a forma mais simples de troca.   “Muitos dos que falam de teoria do valor, contrapondo normalmente a subjetivista com a de valor-trabalho, tem pouca ideia de qual o papel dessa teoria na ciência econômica. Geralmente o debate é associado a um conceito fortemente sequestrado por motivos ideológicos e cuja resolução reside, em ultima instância, fora da ciência econômica — mais precisamente na ética. Tal conceito é a mais-valia. ”   Interessante que quando se fale em “preferência temporal”, na ação em que o capitalista deixa de gastar no presente, ele realiza um juízo de valor, para investigar em algo que dê lucro para ele no futuro, aí que a análise se encontra no campo da ética. Ou seja, o que o texto acusa os marxistas de o fazerem, é na verdade, praticado unicamente pela Escola Austríaca.   “Também, a ideia de que podemos reduzir todos os fatores a trabalho, mesmo com a ética lockeana, falha, pois os fatores terra são normalmente irreproduzíveis, i.e, a falha não é pelo fato de que nos fatores terra nunca se foi colocado trabalho para apropriá-los, mas sim que, por ser um bem de oferta fixa, seu preço não tem nenhuma relação com custo de trabalho e ainda assim entra nos custos das empresas.”   Além do que explicamos sobre os irreproduzíveis acima, há um erro infantil, pois Marx considera a terra também como fonte de riqueza, junto com o trabalho, mas apenas o trabalho é fonte de valor, nesse caso há uma distinção entre Valor e riqueza.   Também há um erro no artigo que aborda o “custo do trabalho”, que simplesmente não existe, pois o trabalho em si não tem valor, mas sim a força de trabalho, e o texto afirma que a teoria do valor-trabalho calcula esse valor por meio da “lei férrea dos salários”.   Esse último deve ser um dos erros mais fatais do texto, pois ele está atribuindo uma ideia que não era defendida por Marx. Marx não era adepto da lei férrea dos salários, pelo contrário – o marxismo foi quem a refutou. A Lei de Ferro dos Salários é criticada por Marx e Engels ao se criticar a Lei de Bronze dos Salários de Ferdinand Lassalle, pois as duas seguem pelo mesmo raciocínio. Marx chega a dar a entender que Lassalle cometeu apenas um plágio mesmo.   Marx em “Crítica do Programa de Gotha”, diz: “Da «lei de bronze dos salários», como se sabe, nada pertence a Lassalle, a não ser a expressão «de bronze», que ele foi buscar às «leis eternas, às grandes leis de bronze» de Goethe. A expressão de bronze é a senha pela qual os crentes ortodoxos se reconhecem. Mas se eu admitir a lei com o selo de Lassalle e, por conseguinte, na acepção em que ele a toma, é preciso que admita igualmente o seu fundamento. E que fundamento! Como o mostrava Lange, pouco após a morte de Lassalle, é a teoria malthusiana da população (pregada pelo próprio Lange). Mas se esta teoria é correcta, eu não posse abolir a lei, mesmo que suprima cem vezes o salariato, porque nesse caso a lei não rege só o sistema do salariato, mas todo e qualquer sistema social. É precisamente com base nisto que os economistas, desde há cinquenta anos e mais, têm demonstrado que o socialismo não pode suprimir a miséria, determinada pela natureza das coisas, mas apenas generalizá-la, espalhá-la simultaneamente por toda a superfície da sociedade! Mas o principal não é isso. Abstraindo completamente da falsa versão lassalliana desta lei, o recuo verdadeiramente revoltante consiste no seguinte: Desde a morte de Lassalle que o nosso Partido se abriu à perspectiva científica segundo a qual o salário do trabalho não é o que parece ser, a saber, o valor (ou o preço) do trabalho, mas tão-somente uma forma disfarçada do valor (ou do preço) da força do trabalho. Assim, duma vez por todas, estava posta de parte a velha concepção burguesa do salário, bem como todas as críticas até então dirigidas contra ela, e estava claramente estabelecido que o operário assalariado só é autorizado a trabalhar para assegurar a sua própria existência, por outras palavras, a existir, conquanto trabalhe gratuitamente em certo tempo para os capitalistas (e, por conseguinte, para os que, com estes últimos, vivem de mais-valia); que todo o sistema de produção capitalista visa prolongar este trabalho gratuito pela extensão do dia de trabalho ou pelo desenvolvimento da produtividade, quer dizer, por uma maior tensão da força de trabalho, etc.; que o sistema de trabalho assalariado é, por consequência, um sistema de escravidão e, a falar verdade, uma escravidão tanto mais dura quanto mais se desenvolvem as forças sociais produtivas do trabalho, seja qual for o salário, bom ou mau, que o operário recebe. E agora que esta perspectiva penetra cada vez mais no nosso Partido, volta-se aos dogmas de Lassalle, quando se deveria saber que Lassalle ignorava o que é o salário e que, na peugada dos economistas burgueses, tomava a aparência pela própria coisa”. E agora, Engels sobre o assunto, de uma carta a August Bebel:   “Em terceiro lugar, a nossa gente deixou que lhe impusessem a «lei de bronze do salário» lassalliana,baseada numa concepção económica inteiramente caduca, a saber: que o trabalhador não recebe, em média, mais do que um salário mínimo e isto porque, segundo a teoria malthusiana da população, há sempre trabalhadores de sobra (era esta a argumentação de Lassalle). Ora bem: Marx demonstrou, minuciosamente, em O CAPITAL, que as leis que regulam os salários são muito complexas, que tão depressa predomina um factor como outro, segundo as circunstâncias; que, portanto, esta lei não é, de modo algum, de bronze, mas, pelo contrário, muito elástica, e que o problema não pode ser resolvido assim, em duas palavras, como pensava Lassalle. A fundamentação que Malthus dá da lei de Ricardo (falseando este último), tal como pode ver-se, por exemplo, citada noutro folheto de Lassalle, no «Manual do trabalhador», página 5, foi refutada exaustivamente por Marx, no capítulo sobre «a acumulação do Capital». Assim, pois, ao adoptar a «lei de bronze» de Lassalle, pronunciaram-se a favor dum princípio falso e duma demonstração falaciosa”.   Se ainda sobrar mais alguma dúvida de que o marxismo foi justamente quem refutou essa lei e o raciocínio dela, e não de que aceitou como esse texto dá a entender, sugiro que abram o Manual de Economia Politica da Academia de Ciências da URSS, na seção ‘Salário’, onde afirma categoricamente como o marxismo refuta a Lei de Ferro dos Salários. Destaco o trecho do capítulo abaixo: “Uma série de fatores contrapõe-se a tendência a baixa dos salários. A luta da classe operária em defesa dos seus interesses vitais tem a maior importância para o nível dos salários. A ação da tendência a baixa dos salários é tanto mais forte quanto mais débil for a resistência dos operários e vice-versa. >>>O marxismo refuta a chamada “lei de ferro do salário”<<<, segundo a qual o salário seria determinado pelo mínimo de meios de existência necessários apenas a sobrevivência do operário, e, em consequência, a luta da classe operária pela elevação dos salários careceria, supostamente, de perspectiva.
Link do manual: https://www.marxists.org/portugues/tematica/livros/manual/06.htm

– V.B, R.V.L, M.V

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2 comentários em “Resposta ao ‘Devaneios Liberais’ Parte 1.1

  1. Você afirma que a escassez de recursos naturais aumenta o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de algo. Gostaria de saber o pq disso. E no final afirma que o salário não é necessariamente determinado pelas condições de sobrevivência do trabalhador, ou seja, não é apenas o trabalho necessário para que o trabalho sobreviva e possa trabalhar. Sendo isso verdade, quais são os grandes determinadores do salário segundo Marx ?

    No mais, seus textos são excelentes, ando lendo vários.

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    1. Com a escassez, a capacidade produtiva fica comprometida. A quantidade de trabalho humano abstrato contido na forma social (trabalho concreto) de apropriação desses recursos para transformá-los na mercadoria a ser ofertada aumentou. Com a escassez, vai ser necessário mais tempo, tecnologia e trabalho na procura e obtenção de matérias-primas e recursos, e consequentemente na produção de mercadorias derivadas destas, o que aumenta o tempo socialmente necessário para a produção.

      A determinação dos salários pela correlação de forças sociopolíticas entre as classes, como Marx e Sraffa mostraram. O elemento de luta de classes é parte fundamental no qual se calca a TVT, e na terminologia neo-ricardiana, é a luta pelo excedente; principalmente esta, pois Sraffa confirmou que a taxa de lucro é igual a taxa de lucro máxima vezes 1 menos os salarios. Basicamente se parte do excedentes for para o lucro o outro não pode ir por salarios e vice versa.

      Explicando melhor: o excedente produzido pelo trabalho é dividido entre salários ( w ) e lucro (r). Os capitalista divide o excedente para pagar os trabalhadores, porém nem tudo vai para eles. Todos os números aqui se dão por porcentagem, e o que acontece é o seguinte: O excedente é representado por uma linha em declive no meio, a linha horizontal ou eixo X, é o lucro do patrão, e a linha vertical ou eixo Y é o salário. Assim, enquanto mais você desce pela linha em declive (excedente), mais você ganha de lucro, e caso você chegue na linha X, implica em o trabalhador não ganhar nenhum salário e você chegar na taxa de lucro máxima. A taxa de lucro máxima é sempre 1 (pois está em porcentagem).
      Se do excedente 50% for para o salários teríamos
      r= 1(1-0,5)
      r=0,5
      Mas e se o patrão tomar todo o excedente para si? Ou seja, ter uma taxa de lucro máxima. Isso implica em r=R
      1=1(1-w)
      w=0
      Ou seja, em resumo há uma pichada de corda do lado dos salário e do lado do lucro. Isso é algo objetivo e da estrutura física da produção, ou seja, há uma pichada de corda aqui. Se ela vai render mais para um lado ou outro, o que vai determinar são fatores externos e políticos da luta pelo excedente.

      Portanto, o que define a questão dos salários dentro da TVT é justamente a luta pela apropriação do excedente, porém cujo o valor total (incluindo-se o excedente da produção que terá luta para ser apropriado; o ‘bolo inteiro’) já é calculado dentro dos pressupostos da teoria do valor-trabalho, através do cálculo do trabalho dispêndio na produção e a transformação depois e etc e etc, como já é de praxe da TVT.

      Já a utilidade marginal tem problemas muito sérios aqui pois ela depende da teoria da distribuição marginal, e a produtividade marginal não se iguala ao salário como mostraram os neo-ricardianos.

      O argumento-chave desta teoria é que a distribuição de renda numa economia (capitalista) está determinada pela produtividade marginal dos fatores da produção, capital e trabalho. Os fatores da produção percebem como remuneração o que corresponda a sua contribuição à produção social. Cada trabalhador recebe como remuneração sua contribuição marginal ao produto, como salário.

      Porém, Piero Sraffa, Joan Robinson e Pierangelo Garegnani demostraram que não havia maneira de medir o fator chamado capital de maneira independente da distribuição. Essa crítica demostrou que a teoria da produtividade dos fatores sofria de uma circularidade fundamental. Só é possível determinar a produtividade do capital conhecendo o preço dos bens de capital (porque isso é o que permite somar máquinas heterogêneas e edifícios de todo tipo), mas os preços não são independentes da distribuição de renda e, no caso do capital, o preço depende da taxa de lucro. Portanto, para conhecer a produtividade do capital é necessário conhecer a taxa de lucro, mas para isso é necessário conhecer: a própria produtividade do capital.

      Os seguidores da teoria da produtividade marginal compraram a briga obviamente, mas Paul Samuelson, aceitou a derrota em um célebre artigo publicado em 1966. Esse reconhecimento devia ter sido suficiente para abandonar o enfoque marginalista. Mas a contribuição ideológica que realiza essa teoria é chave e os ‘poderes estabelecidos’ resistem em perdê-la.

      Ou seja, distribuição da renda (salários) não é determinada da forma que a utilidade marginal precisa. A distribuição se define, como bem afirmou Sraffa há já 50 anos, depende de coisas como a força relativa das uniões de empresários e dos sindicatos dos trabalhadores, porém, essa luta pelo excedente (que em seu âmago é apenas uma manifestação da luta de classes marxista) tem primeiro o seu valor total definido com base na produção que é fácilmente explicada pela TVT, enquanto o fator político está abarcado tanto na teoria marxista e sraffiana que são os sistemas que comportam a TVT; enquanto isso, já se é comprovado que a pressuposição da utilidade marginal para isto, está errada. Procure sobre a ‘Controvérsia do Capital’ ou ‘Controvérsia de Cambridge’.

      Obrigado pelo elogio, camarada. Fico feliz que aprecie meu trabalho aqui, espero que volte, comente e compartilhe sempre! Abraços.

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