O assim chamado ‘problema do cálculo econômico sob o socialismo’ é uma das coisas que mais se fala no debate, dos internautas entusiastas da economia, ultimamente acerca do socialismo. Apesar de antigo, ele ainda age como um fantasma na cabeça dos liberais, que veem nele a refutação cabal e o motivo para o qual o socialismo supostamente estaria destinado ao fracasso.

O economista austríaco Ludwig Von Mises escreveu um artigo em 1920, onde negava categoricamente a possibilidade de se utilizar o cálculo econômico racional em um sistema econômico socialista. Mises afirmava que um sistema onde os meios de produção estivesses estatizados, não se poderia fixar os preços, principalmente os dos bens de capital . Seu argumento principal era de que sem mercado, não há formação de preços, e sem formação de preços, não pode haver cálculo econômico, ou seja, se o governo é quem determina os preços, o cálculo econômico não é real e nem eficiente. Pois uma vez sem os preços livres, que servem como sinalizadores de mercado, se tornaria impossível para os planejadores econômicos alocarem eficientemente os recursos e saberem o que produzir, como, pra quem e em que quantidade, em outra palavras, impossibilitando uma racional alocação de recursos escassos, provocando uma escassez generalizada.

E o principal problema é que  seria plenamente e definitivamente impossível para o socialismo fazer o cálculo econômico, pois Mises argumentava que o mecanismo de formação de preços só era possível mediante as relações de trocas de bens produzidos sob a base de um regime de propriedade privada e livre-mercado.

Podemos admitir que, em seu período inicial, um regime socialista poderia, até certo ponto, depender das condições da etapa anterior do capitalismo. Mas o que será feito mais tarde, quando as condições mudarem mais e mais? De que adianta saber os preços de 1900 para um diretor, em 1949? E o que pode usar o diretor, em 1989, a partir do conhecimento dos preços de 1949?

Assim, as palavras de Mises eram destruidoras para os entusiastas do socialismo, principalmente na URSS. Simbolizava que toda a sua batalha e aspiração eram não só em vão, como um grande fracasso no final das contas. Porém, é hora de analisarmos isso mais de perto. Seria mesmo tudo isso verdade, ainda mais seguindo os rumos que tomamos hoje?

Bem, antes de começar é preciso ressaltar algumas coisas que passam despercebidas no discurso de Mises. Em primeiro lugar, mesmo assumindo que o problema de Mises não pode ser superado, ele não provou a impossibilidade do socialismo. Na verdade, é possível afirmar que todo esse problema é apenas uma proposta de debate sobre como funcionaria a sociedade socialista. O problema neste caso é que Mises jamais imaginou a possibilidade de organizações políticas sociais alternativas ao Estado em uma sociedade comunal. Mises foi categórico em afirmar que o problema não era centrado em si na falta de mercado, mas em primeira instância, no fato dos meios de produção estarem estatizados. Bem, é verdade que o pressuposto do socialismo é de que os meios de produção devem ser coletivizados, e não privatizados. Mas estatizar é apenas uma das formas de isso acontecer.

 Há uma série de alternativas. Desde cooperativas, comunas, coletivizações como as dos ‘kolkhozes’, e etc. Cada uma segue por características diferentes, mas no final das contas, são todos sistemas socialistas. Mises chega a explicar na página 36 de seu pequeno livro (‘O Problema do Cálculo Econômico Sob o Socialismo‘) que o socialismo sindicalista (ou seja caso sindicatos sejam os donos dos meios de produção) não é afetado pelo problema do cálculo econômico. No entanto, ele argumenta que isso não seria ‘socialismo de verdade’, mas sim ‘capitalismo trabalhista’. Poderíamos muito facilmente contra-argumentar essa afirmação de Mises, mas como nosso foco não é a questão do socialismo sindicalista, prosseguiremos.

Mises também não leva em conta sistemas que não precisam utilizar da moeda em si, ou ignora sistemas (ou sistemas análogos) como o Distributismo de G.K Chesterton (muito embora este não seja de fato um sistema socialista, mas que burla o que Mises diz).

Estabelecemos então que Mises não provou a impossibilidade do socialismo, no sentido geral da palavra. Há outro problema em Mises: ele tem uma dificuldade em entender historicamente o processo de formação do valor de troca, o que o fazia atrelar necessariamente a troca e a “moderna divisão do trabalho” à propriedade privada [cap. 1, ‘Liberalismo, segunda a tradição clássica‘] dos meios de produção ao capitalismo, como se apenas neste fosse possível trocas, nesse sistema econômico.

No máximo, o que podemos afirmar assumindo esse problema, é a impossibilidade de um tipo de socialismo específico – o da planificação econômica ou planificação central, que por sinal, nunca foi implicado por Marx diretamente.

É importante ressaltar que Mises pelo menos admite a impossibilidade de um sistema perfeito de livre concorrência. Em ‘Uma Crítica ao Intervencionismo‘ ele deixa claro que o mais interessante para o ponto de vista liberal dele não é um sistema tutelado pelo Estado para garantir a livre-concorrência, mas sim a defesa da propriedade privada de pelo menos a maior parte dos meios de produção. É curioso que ele promove uma argumentação ambígua em relação ao jus-naturalismo. Em ‘As Seis Lições‘, Mises deixa claro que não há liberdade na natureza, porém em outros livros ele insiste na defesa do papel coercitivo do Estado para proteger o tripé de direitos (propriedade-vida-liberdade) que outros liberais (ou libertários) consideram naturais. Essa contradição é estranha, mas não a única no trabalho de Mises.

O outro problema no argumento de Mises, é implicar que o cálculo e a alocação racional de recursos escassos dentro do capitalismo é eficiente, coisa que qualquer um que tenha a mínima noção da realidade percebe que não. O cálculo econômico e alocação racional dos recursos no capitalismo é deficiente. O problema do cálculo econômico é na realidade, um problema existente dentro do sistema capitalista. Alguns liberais podem argumentar no entanto, que isso ocorre por conta da ‘intervenção do Estado’ ou coisas do tipo, ignorando certas coisas como o fato de que isso ocorre também em países que adotam também um ‘livre-mercado’ ou são por assim dizer, ‘mais capitalistas’.

Feitas essas ressalvas, irei dissertar acerca desse problema no que concerne a planificação econômica.

A possibilidade do cálculo econômico sem um genuíno mercado havia sido mostrada pelo economista italiano Enrico Barone em 1908. Barone referiu-se a um sistema de equilíbrio geral dizendo que, se o sistema de equações pudesse ser resolvido, os equilíbrios parciais entre produtores e consumidores poderiam ser estabelecidos ex ante, em “Ii zninisterio della produzione nello stato collettivista”, Giornale degli Economisti e Revista di Statistica, vol 37 (1908)”, porém foi dado como ineficiente ou algo quase impossível por ele na época.

Quando o debate acerca do problema do cálculo econômico começou, Mises recebeu uma resposta do economista polonês Oskar Lange. Oskar Lange era considerado um grande economista socialista, tendo conseguido impressionar até mesmo o líder soviético Joseph Stalin, que lhe ofereceu um cargo no futuro gabinete polonês. Ele apresenta sua ideia, para refutar o problema de Mises, em “On the Economic Theory of Socialism”.

No modelo de Lange, a economia tem um mercado para bens de consumo. A esfera da produção é organizada em empresas e filiais, e há um Comitê de Planejamento Central. Exige-se que os chefes das empresas estabeleçam planos de produção exatamente da mesma maneira que empreendedores privados fariam — uma maneira que minimize os custos e faça com que o custo marginal seja igual ao preço. O Comitê de Planejamento Central determina a taxa de investimento, o volume e a estrutura dos bens públicos, e os preços de todos os insumos. A taxa de investimento é estabelecida igualando-se a demanda à oferta de bens de capital. O Comitê aumenta os preços quando a demanda não é satisfeita e os diminui quando a oferta é muito grande.

Esse modelo tem também duas vantagens. Primeiro, a renda poderia ser mais igualmente distribuída. Uma vez que não há renda de capital, as pessoas seriam pagas de acordo com seu trabalho. (Algumas pessoas receberiam uma renda adicional, que seria um tipo de “aluguel” por suas habilidades específicas). Segundo, o socialismo permitiria um melhor planejamento para investimentos de longo prazo. O investimento não seria guiado por flutuações de curto prazo nas opiniões sobre as oportunidades futuras e, por isso, haveria menos desperdício e mais racionalidade, já o livre mercado de fato , embora possa fornecer sinais adequados quanto às decisões de produção no curto prazo, não pode fornecer sinais de longo prazo em relação ao investimento. É preciso ressaltar também que Oskar Lange, mesmo sendo um socialista, não utilizou da Teoria do Valor-Trabalho no seu trabalho. Lange utilizou e justificou isso através da terminologia neoclássica, a Teoria da Utilidade Marginal (ou Valor Subjetivo) como base, o mesmo argumento base que é usado pela Escola Austríaca, a economia marginalista em si.

 Para ler sobre a tese e o modo de funcionamento do cálculo segundo Oskar Lange com mais detalhes:

http://www.congressoabphe.uff.br/index.php/anais/category/20-18-historia-do-pensamento-economico-leituras-de-economia-politica?download=81:economia-politica-da-transicao-ao-socialismo-a-contribuicao-de-oskar-lange

Porém, as ideias de Lange foram questionadas pelo economista da Escola Austríaca, Friedrich A. Hayek, em “Socialist Calculation: the Competitive Solution” e em “The Use of Knowledge in Society“. Hayek argumentou que Lange havia cometido erros. Hayek argumentou com o que é chamado de ‘dispersão do conhecimento na sociedade’. Para Hayek, a falha do socialismo está no fato de que o conhecimento — em particular, “o conhecimento das circunstâncias específicas de cada momento e de cada lugar” — existe apenas de forma amplamente dispersa, dentro da mente de vários indivíduos distintos.  Por conseguinte, na prática, é impossível juntar e processar todo o conhecimento existente e colocá-lo dentro da mente de um único planejador central socialista. Para Hayek, essa era a falha fatal no argumento de Lange.

Eu estou preparando para o futuro, um artigo inteiro para explicar as várias falhas fatais do argumento de Hayek acerca da ‘dispersão do conhecimento’, e as falhas também de suas  implicações. Por hora, eu gostaria de focar nas implicações do foco da crítica de Mises.

Eu pessoalmente tenho várias críticas ao modelo de Lange, em especial a sua preferência pelo uso da terminologia neoclássica. As alternativas par o socialismo que quero expor aqui são, digamos assim, não só mais práticas como também mais contempláveis na teoria, e coerentes com a terminologia marxista.

Antes de prosseguir, eu gostaria de quebrar um mito que corre pelos ‘debates da internet’: a de que o modelo de Lange teria falhado na prática. Curioso, é que o modelo de Lange nunca sequer foi colocado na prática em nenhum sistema socialista, nem mesmo na sua terra natal, a Polônia. Depois da Segunda Guerra Mundial, o “Soviet-Type” foi implantado, o que impossibilitou o modelo Lange de ser testado na prática. Algumas semelhanças ou paralelos podem ser traçados com o ‘New Economic Mechanism‘ ou o “comunismo Goulash’ da Hungria durante o Kadar, mas mesmo esse não foi um modelo Lange ‘puro’, com várias diferenças também.

Outro mito também é o que foi espalhado por Gary North. Gary North em um artigo afirmou que na época de Mises, apenas Oskar Lange teve a coragem de responder o argumento do problema do cálculo econômico de Von Mises. Creio que toda essa literatura de 1920-1930 (ou seja, estou limitando ainda mais em determinada época e em literatura) passou despercebida pelo senhor North:

Cohn, Arthur Wolfgang. 1920. “Kann das Geld abgeschaft werden?” (“Can Money be Abolished?”), Dissert., University of Jena.

Polanyi K. 1922. “Sozialistische Rechnungslegung,” Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik 49.2: 377–420.

Kautsky, Karl. 1922. Die proletarische Revolution und ihr Programm. Dietz, Stuttgart and Berlin.

Leichter, O. 1923. Die Wirtschaftsrechnung in der socialistische Gesellschaft. Verlag der Wiener Volksbuchhandlung, Vienna.

Polanyi, K. 1924. “Die funktionelle Theorie der Gesellschaft und das Problem der sozialistischen Rechnungslegung,” Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik 52: 218–228.

Neurath, Otto. 1925. Wirtschaftsplan und Naturalrechnung. Laub, Berlin.

Taylor, F. M. 1929. “The Guidance of Production in a Socialist State,” American Economic Review 19 (March): 1–8.

Roper, W. C. 1929. The Problem of Pricing in a Socialist State. Harvard University Press, Cambridge, Mass.

Dickinson, H. D. 1933. “Price Formation in a Socialist Community,” Economic Journal 43 (June): 237–250.

Dickinson, H. D. 1939. Economics of Socialism. Oxford University Press, Oxford.

Lerner, A. 1937. “Statics and Dynamics in Socialist Economics,” Economic Journal 47: 251–270.

Lerner, A. 1938. “Theory and Practice in Socialist Economics,” Review of Economic Studies 6 (October): 71–75.

Inclusive, essa questão repercutiu bastante há um tempo, com algumas críticas abordando essa mentira de Gary North.

Prosseguindo com o artigo, agora irei expor a resposta. Irei apresentar primeiro um pressuposto que deve ser levado em conta nessa história por ter dado a base para a resposta e ter exposto as primeiras falhas da crítica de Von Mises.

Bem, como mostrou o gênio da computação Alan Turing, em 1936, qualquer cálculo extensivo por seres humanos depende de auxiliares artificiais – memórias, papiros, tabuletas de argila, ardósias, etc. Com a existência de tais auxiliares na memória, o cálculo algorítmico torna-se possível, e neste ponto a diferença entre o que pode ser calculado por um humano usando papel e lápis ou um computador digital desce apenas para questões de velocidade.

Nos anos 20 e início da década de 30, quando Mises avançou seus argumentos, não se conheciam tais técnicas algorítmicas. O duro golpe em Mises veio em 1939, quando o matemático soviético Leonid V Kantorovich criou um método que mais tarde veio a ser conhecido como programação linear ou otimização linear, para o qual ele foi mais tarde premiado com o Prêmio Nobel. Isso demonstrou matematicamente que era possível calcular eficientemente a alocação de recursos em uma economia de comando, ou seja, a prova teórica matemática e indiscutível da possibilidade do cálculo econômico sob o socialismo.

Isso foi de grande valia, e debilitou fortemente o argumento de Mises, que alegava uma impossibilidade absoluta mesmo na teoria. Kantorovitch e a otimização linear porém, em si, não refutou o problema de Mises, pois por mais que a possibilidade de um cálculo e alocação racional de recursos fosse teoricamente comprovada, o desenvolvimento a partir dela para que fosse feito isso ainda seria inviável com a tecnologia da época. A importância de Kantorovitch se encontra em ter debilitado o argumento de Mises.

Para quem quiser ler mais sobre sua tese, detalhes, implicações e como isso afeta o problema de Mises, recomendo ler aqui:

http://www.dcs.gla.ac.uk/publications/PAPERS/8707/standalonearticle.pdf

Aqui está um link com um software básico disso:

http://www.sfecon.com/2_Theory/23_Stability/232_GPE/GPEPage.html

Mises estava claramente errado sobre a impossibilidade teórica do cálculo econômico, algo que apenas os liberais ainda não reconhecem. É intelectualmente desonesto afirmar o contrário, pois isso aqui é pura matemática. Foi o método Kantorovitch, que ainda que não tenha o refutado, debilitou seriamente seu argumento teórico.

 Ademais, ao contrario do que é espalhado, Mises nunca previu o colapso da URSS. Mesmo pelo motivo de que o colapso se deu por conflitos políticos que geraram instabilidades econômicas, não instabilidades econômicas decorrentes do tal “cálculo econômico”. Como já demonstram vários estudos, o colapso foi primordialmente político , não econômico. Esse estudo aqui mostra um pouco mais dessa questão:

http://www.ifch.unicamp.br/criticamarxista/arquivos_biblioteca/comentario2016_08_03_15_11_14.pdf

Mises nunca chegou a de fato prever nada, pois acreditava que o sistema se mantinha estável com a cópia e utilização de preços mundiais. Porém, estudos aprofundados já mostraram que ele estava errado, a URSS tinha outros métodos alternativos (embora não tão viáveis) para conseguir preços, sem copia-los.

Tais métodos são ainda mais dissertados em um capitulo só para isso no Manual de Economia Política da Academia de Ciências da URSS:

https://www.marxists.org/portugues/tematica/livros/manual/30.htm

O que importa, no entanto, é mostrar que ele acreditava que, por mais que houvesse a dificuldade, enquanto a maior parte do mundo ainda fosse capitalista, o socialismo ainda poderia se manter relativamente estável copiando preços gerados pelo mercado internacional, em outras palavras: ele não acreditava em um colapso repentino da URSS, não enquanto o mercado capitalista fosse mundial.

Esse link também mostra uma fala dele de uma palestra, que comprova isso e desmente também a suposta previsão (nunca feita) por ele:

http://www.diarioliberdade.org/mundo/reportagens/58373-mises-previu-o-colapso-da-uni%C3%A3o-sovi%C3%A9tica.html

Sem mais delongas, passamos para os métodos que podem suprir esse problema. Para a surpresa de todos, há mais de uma forma para responder essa questão. Na verdade, ao meu ver, há 3. Eu sou pessoalmente, adepto da segunda forma.

1 – Método Polayni

2 – Método Cockshott-Cottrell (sou adepto)

3 – Tecnologia Aditiva

Vamos começar por Polayni. Polayni costuma ser invocado para fortalecer as críticas contra o laissez-faire, livre mercado. Mas esse artigo, Socialist Accounting, mostra sua pouca discutida visão sobre o socialismo. Além do mais, é uma resposta ao debate do cálculo econômico socialista.

A seguir alguns trechos do prefácio:


‘Polanyi apresentou um modelo de um socialismo futuro, um mundo no qual a economia está subordinada e incorporada à sociedade. “Socialist Accounting” contribuiu para o que hoje chamamos de debate de cálculo socialista. Polanyi construiu sua “teoria econômica socialista positiva” sobre o marginalismo austríaco, o austro-marxismo, o socialismo municipal vienense e “um sistema de socialismo funcional”. Polanyi procurou demonstrar que o cálculo econômico era de fato possível no socialismo e assim refutar o anti-socialismo marginalista de Mises.

A partir dessa crítica, ele derivou os dois objetivos principais do socialismo: produtividade máxima e justiça social. A máxima produtividade “se esforça para maximizar o número de bens com esforço mínimo de trabalho”.


Segundo Polanyi, uma vez que o capitalismo não pode atingir a máxima produtividade técnica, a propriedade privada dos meios de produção deve ser abolida (SA, página 391). Portanto, o socialismo não teria burguesia e, portanto, nenhuma classe. A justiça social consiste nas prioridades sociais determinadas democraticamente por todos os membros da sociedade. Essas prioridades sociais dizem principalmente respeito à distribuição de trabalho e bens, e à direção da produção de acordo com o maior valor de uso social, em oposição às preferências individuais dos consumidores. Estas decisões sobre a justiça social devem ser feitas com as necessidades de toda a sociedade em mente. Como o capitalismo não pode considerar a justiça social ou os objetivos comunitários, os meios de produção devem ser socializados para produzir bens com maior valor de uso social (SA, p.391), e possuídos pela sociedade e não necessariamente pelo Estado.

O socialismo precisava dar conta dos custos técnicos da produção, que ele chamava de “custos naturais”, e dos custos associados à justiça social, que ele chamava de “custos sociais”. Em seu modelo, a contabilidade no socialismo se concentra nos custos e fornece uma visão geral dos custos naturais e dos custos sociais, enquanto a contabilidade no capitalismo se concentra no lucro e “fornece uma visão geral da relação de cada elemento do capital com o lucro”.

Na sociedade socialista funcional de Polanyi haveria duas principais organizações econômicas, a comuna e a associação de produção, que negociariam preços e justiça social. A comuna é a comunidade política e proprietária dos meios de produção. As associações de produção incluem ” ‘cooperativa produtiva, guilda’, ‘fábrica autogestionada’ , ‘parceria empresarial’, ‘oficina social’, ‘empresa autônoma’ , sindicato produtivo, sindicato industrial ou associação de produtores, Um Grande Sindicato”

As associações de produtores têm o direito de utilizar os meios de produção. As Associações de produção podem unir e administrar ramos industriais democraticamente em nome da sociedade. Todas as associações de produção se reúnem em associações regionais e, em seguida, em um congresso mais amplo, no qual estão representadas toda a produção, serviços e trabalho de escritório. As associações de produção organizam custos naturais e custos de trabalho.

Para Polanyi, o cálculo socialista não ocorreria tanto no nível individual do consumidor ou do planejador central, mas sim democraticamente, no nível social. Polanyi entendeu o socialismo como a extensão radical da democracia à esfera econômica (Cangiani 2006, pp. 34, 39). O sistema de Polanyi tem mercados, dinheiro e preços. Neste artigo, ele afirma, “a oposição do socialismo ao capitalismo não é mais reduzida ao estereótipo de Economia sem mercado versus economia de mercado “(SA, p.378). Os mercados tem existido na história da humanidade. Polanyi argumentou que o socialismo não exige a erradicação dos mercados porque ainda requer mercados. O socialismo teria mercados em “mercadorias no próprio sentido do termo” (Polanyi, 1947, p.111), “assegurar a liberdade do consumidor, indicar o deslocamento da demanda, influenciar a renda dos produtores e servir como Um instrumento de contabilidade “([1944] 1957, p.225). Os mercados seriam assim um instrumento para o socialismo. No entanto, o socialismo deveria erradicar os mercados de mercadorias “fictícias” – terra, trabalho e capital – porque tais mercados criariam uma sociedade de mercado, uma sociedade dirigida pelos mercados. Assim, Polanyi opôs-se à sociedade de mercado – uma sociedade dirigida por mercados – e não aos mercados ou à troca (Sandbrook 2011, p.23).

Tal sistema teria preços fixos e preços negociados, ou seja, preços de “troca” negociados pelas associações de produção e pela comuna. Em contraste com os mercados de indivíduos isolados (Mises) negociando preços, o mercado de Polanyi tem grupos representando diferentes “sujeitos” com diferentes “motivos” negociando preços. Portanto, produtores e consumidores como instituições, e não como indivíduos, negociam preços. Polanyi demonstrou de forma bastante inovadora como os mercados poderiam ser incorporados, ou mesmo constituídos, de instituições democráticas controladas.

Marx havia assumido que aqueles que viviam dentro do socialismo desenvolveriam os modelos e as teorias do socialismo. Polanyi, de fato, viveu nas sociedades socialistas na Hungria e na Áustria, especialmente durante a Revolução Húngara do Aster, o Soviete húngaro e o socialismo municipal vienense. Polanyi (1934) argumentou: “Somente a classe operária pode levar a sociedade ao socialismo, porque é a parte da realidade social que faz com que o inevitável aconteça”.

Pessoalmente, eu não sou adepto do modelo de Polayni. Acredito que podemos fazer melhor com nosso nível de tecnologia atual. Além disso, me incomoda o fato de ele utilizar e justificar através da terminologia neoclássica e do valor subjetivo – tal como Oskar Lange.

Porém, dado as circunstâncias de demonstrar na prática como o socialismo pode fazer cálculo econômico, acredito que esse é um modelo viável para responder essa questão, embora tenha essas ressalvas.

O segundo modelo é o que eu sou adepto. É o Modelo Cockshott-Cottrell, feito por Paul Cockshott e Allin Cotrell, que eficientemente já resolveram a questão do cálculo econômico que na minha opinião é a mais interessante e completa: através da computação. Eles fazem isso no livro ‘Towards the New Socialism‘, onde debatem e mostram como um modelo socialista pode funcionar economicamente e politicamente com o que temos hoje. Eu, de todo coração, recomendo este livro para todos. É principalmente nesse livro também, onde eles mostram como é totalmente possível o cálculo econômico com o Modelo deles.

Eles também fazem isso no trabalho ‘Calculation, Complexity And Planning: The Socialist Calculation Debate Once Again‘ – onde trabalham direto com o texto do Mises, e mostram matematicamente e com esquemas e diagramas essa questão.

Há também o ‘Economic planning, computers and labor values‘, que mostram como é totalmente viável, com a tecnologia de hoje, uma economia planificada poder performar um cálculo econômico através dos ‘labor tokens’ citados anteriormente no começo do texto. Mostram como não é só viável, como é ainda melhor que o do mercado.

Para todos, eu também recomendo a leitura do livro ‘Arguments for Socialism‘, escrito pelo Paul Cockshott com o David Zachariah. Paul Cockshott foca mais nesse livro em questões políticas que o socialismo pode passar, além de algumas coisas tais como: acerca do Imperialismo, as impressões acerca da URSS, crítica a social-democracia, defesas para a Teoria do Valor-Trabalho (e provas empíricas), e há também um artigo separado para as críticas de Mises, que se chama “Against Mises”. Para mim, Paul Cockshott é um dos maiores nomes do marxismo na economia hoje. O interessante é que, na época do colapso soviético, ele mandou para o Kremlin sugestões de um novo modelo alternativo ás mudanças que Gorbachev estava fazendo na URSS – em especial, ele disse que aquilo iria destruir o país. Dito e feito. Infelizmente, o Kremlin não adotou suas sugestões, e como o próprio Cockshott define ‘Depois de efetivada a Perestroika, as coisas correram extremamente rápidas demais’.

O modelo deles basicamente argumenta que o cálculo do tempo de trabalho é defensável como um procedimento racional, quando complementado por algoritmos que permitem a escolha do consumidor orientar a alocação de recursos, e que tal cálculo é agora tecnicamente viável com o tipo de máquinas de computação atualmente disponíveis no Ocidente e com uma cuidadosa escolha de algoritmos eficientes. É um cálculo econômico feito com a ajuda de computadores principalmente.

O método é descrito,  de uma forma geral em inglês, assim:

1. In the first time period:
(a) They send to the planners a message listing their address, their technical input coefficients
and their current output stocks.
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(b) They receive instructions from the planners about how much of each of their output
is to be sent to each other firm.
(c) They send the goods with appropriate dispatch notes to their users.
(d) They receive goods inward, read the dispatch notes and calculate their new production
level.
(e) They commence production.
2. They then repeatedly perform the same sequence replacing step 1a with:
(a) They send to the planners a message giving their current output stocks.

The planning bureau performs the complementary procedure:
1. In the first period:
(a) They read the details of stocks and technical coefficients from all of the firms.
(b) They compute the equilibrium point e from technical coefficients and the final demand.
(c) They compute a turnpike path (Dorfman, Samuelson and Solow, 1958) from the
current output structure to the equilibrium output structure.
(d) They send out for firms to make deliveries consistent with moving along that path.
2. In the second and subsequent periods:
(a) They read messages giving the extent to which output targets have been met.
(b) They compute a turnpike path from the current output structure to the equilibrium
output structure.
(c) They send out for firms to make deliveries consistent with moving along that path.

Em detalhes, a proposta de solução ao problema do cálculo dos autores é baseada na teoria do valor-trabalho e combina a matriz insumo-produto de Leontieff com um mecanismo de  tâtonnement semelhante ao idealizado por Lange.

O valor ?i de uma unidade do bem i, medido em termos de quantidade de trabalho empregada em sua produção, é dado pela quantidade de trabalho diretamente empregada ?i acrescido do valor dos bens de capital usados na produção do bem. Esse valor é dado pelo valor ?j de cada insumo multiplicado pelo coeficiente técnico aij que diz quantas unidades do insumo j devem ser utilizadas na produção do bem i. O valor de um bem então é dado por:

?i = ?i + ai1?1+ai2 ?2 + … + ain?n

Essa formulação é acompanhada da reafirmação dos autores da crença marxista de que o trabalho de agentes diferentes pode ser reduzido a um denominador comum.

Tomando todos os i produtos na economia, temos uma matriz V (nx1) de seus valores, dados pelo vetor ? (nx1) de trabalho direto mais a matriz A (nxn) de coeficientes técnicos multiplicada pelo valor de cada bem, vistos agora como insumos:

V = ?+ AV

O vetor V, que representa a solução para os valores dos bens em termos de quantidade de trabalho, é então dado pela inversão da matriz (I-A)-1:

V = (I-A)-1?

Calculado o valor dos bens em termos de horas de trabalho, os consumidores, de posse de seus vales (algo que foi defendido por Marx também em ‘Critica ao Progama de Gotha’), cujo valor é equivalente ao número de horas trabalhadas por eles, demandam os bens que quiserem. No curto prazo, a autoridade responsável pelos preços efetua reajustes de preços de forma a obter um equilíbrio entre oferta e demanda. No próximo período, a produção daqueles bens cujo valor de equilíbrio esteja acima (abaixo) do valor do trabalho é aumentada (diminuída), até que a razão entre esses dois valores seja igual à unidade no longo prazo. Em cada período são então efetuados ajustes na matriz de coeficientes. Obtém-se assim um plano coerente para a economia.

Para ser suscinto, a base do argumento é a de que unidades produtivas enviam aos planejadores relatórios da sua capacidade produtiva, informando suas condições de produção e os estoques que acumularam no seu fluxo de produção. Os planejadores respondem dizendo o quanto cada unidade produtiva manda de seus estoques para as outras unidades e o quanto vai receber da produção delas. A partir disso os planejadores definem as metas de produção que a manterão em equilíbrio com a demanda. Para mais detalhes do funcionamento, eu recomendo a leitura do livro deles.

A Escola Austríaca respondeu eles de diversas formas.

A primeira, foi através do Horwitz, em ‘Money, Money Prices and the Socialist Calculation Debate’. Horwitz fez um argumento epistemológico. Horwitz emprega as observações de Lavoie sobre conhecimento tácito. O argumento de Horwitz basicamente é apenas uma reformulação da conclusão hayekiana de ‘The Sensory Order’, do próprio Hayek. Uma das principais conclusões do trabalho de Hayek afirma que a complexidade da mente impede que ela entenda o seu próprio funcionamento e que esta só pode entender completamente algo que tenha um grau de complexidade menor. Em vez de entender seus detalhes, a mente poderia apenas explicar os princípios de seu funcionamento e realizar previsões de padrão.

Para Horwitz, o limite ao conhecimento explícito dos agentes que pode ser derivado dessas idéias, mostra um defeito do modelo dos autores: não é possível transmitir conhecimento tácito que não existiria sem o processo competitivo.

Eu tenho um amigo que conseguiu entrar em contato com o Paul Cockshott por mim e enviou algumas perguntas (ele por sinal, é comunicável via facebook). Eu fiquei curioso quanto a um fato: tal como veremos a seguir, Cockshott respondeu austríacos diferentes, mas não editou nenhuma resposta formal e direta ao Horwitz, como fez com vários. Eu tinha uma desconfiança, mas queria confirmar. Quando recebi a resposta, consegui a confirmar.

Cockshott respondeu apenas que ‘nunca se incomodou em responder Horwitz, pois havia mais coisas para se ocupar e se preocupar do que com algo desse tipo, que já até foi respondido antes via implicação’. E o motivo para isso acontecer é bem simples: tal como dito anteriormente, a crítica de Horwitz é apenas uma reformulação do argumento de Hayek. É o fundamento da tese de Horwitz, por assim dizer, pois precisa presumir que a tese de Hayek esteja certa. A conclusão é basicamente a mesma. E Cockshott não precisaria se preocupar em responder ela – pois já o fez, na sua crítica a Hayek.

Cockshott, anteriormente, já havia provado que a tese de Hayek não é certa, acerca do conhecimento e informação. Não só isso, como provou que Hayek subestimou o repasse de informações numa economia planificada, ao mesmo tempo em que superestimou o mesmo processo numa economia capitalista. Também provou como, no final das contas, os preços realmente não funcionam dentro dos designios que Hayek dissertou.

Em seguida, outro que o criticou foi Robert Murphy em ‘Cantor’s diagonal argument: an extension to the socialist calculation debate’. O argumento de Murphy se baseia na Diagonalização de Cantor, a saber, uma prova matemática de que existem conjuntos infinitos que não podem ser mapeados em uma correspondência um-para-um ao conjunto infinito de números naturais. Em suma, Murphy argumenta criticando que a única forma de que se pudesse alocar os recursos numa economia socialista (que teve base em H.D Dickson), implicaria em dizer que os planejadores precisariam primeiro de uma ‘planilha com números infinitos’.

Cockshott mostrou facilmente, tanto teoricamente quanto praticamente, que isso é uma falácia. O argumento de Cantor não pode ser aplicado aos preços. Em primeiro lugar, os preços unitários são apenas representáveis para um número finito de lugares, já que sistemas monetários são baseados em quantidades inteiras de valores menores.
Murphy poderia argumentar que podemos querer negociar frações arbitrárias de preços, por exemplo, vendendo proporções arbitrárias de um quilo de queijo.

Isso seria no entanto, ignorar as limitações físicas para medir, que são o que garantem o fato de que só podemos distinguir quantidades discretas de coisas no nível microscópico. Cada fração é proporção de inteiros, e assim deve ser racional e, portanto, contável. Assim, qualquer tentativa aplicar diagonalização produzirá necessariamente um valor que tenha sido enumerado. Finalmente, o foco de Cockshott não é em preços per se, mas em preços de commodities. Como o número de diferentes mercadorias é necessariamente contável,
o número de preços necessariamente também deve ser.

Cockshott também mostra, em outra ocasião, que o argumento de Cantor não pode ser aplicado quando se trata de computação.

Depois dessa resposta, vem o caso do famoso Jesùs Huerta de Soto. Jesùs Huerta de Soto é um anarcocapitalista. É um dos maiores nomes, ainda vivos hoje, da Escola Austríaca. Em 2010, De Soto escreveu o livro ‘Socialismo, cálculo econômico e função empresarial’, onde ele aborda algumas respostas recentes ao problema do cálculo econômico. Porém, De Soto não aborda diretamente o Modelo Cockshott-Cotrell nesse livro, pelo menos não o cita.

Porém, ele tira uma conclusão a partir dos pontos de onde Cockshott e Cottrell se baseiam, em outras palavras, ele dá o ‘veredito’.

Como diz na notificação dos austríacos acerca do ‘status’ do debate, De Soto conclui que o cálculo em horas-trabalho (usado por Cockshott e Cotrell) é viável e praticável, porém o problema da dispersão do conhecimento na sociedade de Hayek persistiria.

O grande ‘porém‘ dessa crítica, é que De Soto não explicou o motivo pelo qual o problema de Hayek continuaria. Ele simplesmente afirmou, e não explicou o motivo ou defendeu o seu ponto de vista. Não há o que contra-argumentar nesse caso, a não ser lembrar (tal como dito anteriormente enquanto dissertavamos acerca de Murphy e Hayek acima) que Cockshott já refutou Hayek, tal como dissertado anteriormente.

Aliás, é irônico um anarcocapitalista advogar pelo problema de Hayek, sendo que um dos próprios ícones do anarcocapitalismo, Hans-Hermann Hoppe, já se encarregou de refutar o problema tal como mostramos anteriormente. Não tendo mais o que dissertar, haja vista que o senhor De Soto não defendeu seu ponto de vista, prosseguiremos.

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‘ (…) De Soto concludes that were calculation in labour time feasible, the problem of dispersed knowledge would still persist, but it is merely asserted and not adequately defended’. Tradução: ‘ (…) De Soto conclui que enquanto o cálculo feito em horas-trabalho é viável, o problema do conhecimento disperso ainda continuaria, mas isso foi apenas afirmado e não adequadamente defendido’.

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A última resposta de um austríaco foi a de Len Brewster. Em ‘Towards the New Socialism?‘, Brewster basicamente afirmou que:

– O Modelo Cockshott-Cottrell seria a posição mais coerente da esquerda contra os austríacos

– O Modelo Cockshott-Cotrell refutou a tese dos austríacos de que o cálculo econômico seria muito complicado para ser possível

– Que o modelo Cockshott-Cotrell, porém, não seria mais ‘socialismo’, pois emula um sistema do mercado.

– Ele argumenta também que os ‘valor-trabalho’ estariam “contaminados” por efeitos do mercado.

Cockshott o respondeu, nos últimos dois pontos , no documento ‘Notes for a Critique of Brewster‘, refutando sua tese, e mostrando como a definição e argumentação dele é definitivamente falaciosa. Ele em especial, diz que a crítica de Brewster é muito fraca.

O penúltimo ponto depende de uma definição irreal do que seria ‘socialismo de verdade’, uma definição que em primeira instância iria destruir toda a coerência do debate e das afirmações de Mises e Hayek. O último ponto vem de uma noção errada da teoria do valor para Marx. Na economia marxista, há diferentes conceitos dentro do valor, como o valor de uso e o valor de troca. Cockshott mostra como, fatalmente, Brewster não percebe isso em sua crítica, invalidando toda a sua crítica acerca do valor, haja vista que o Modelo Cotrell-Cockshott ainda continua a reproduzir essas distinções.

Também é importante ressaltar uma coisa interessante na crítica de Brewster, na qual ele acertou. Brewster não concorda com a crítica de Horwitz (o primeiro austríaco a criticar o modelo, e que mencionamos acima). Na página 10 de sua crítica, Brewster expõe nas notas de rodapé algumas refutações a crítica de Horwitz, a reformulação do argumento hayekiano baseado no conhecimento tácito, criticando basicamente seu subjetivismo extremo e a contradição existente em um ponto entre subjetividade e objetividade. Brewster conclui, portanto, que a crítica de Horwitz não é válida. Portanto, não há o que valide o argumento de Horwitz, visto que nem mesmo ele é consenso na própria Escola Austríaca.


Chegando ao fim da dissertação acerca do Modelo Cockshott-Cotrell, do qual sou adepto, fica ainda a pergunta: E se eles estiverem errados?

Bem, como visto anteriormente, este não é realmente o caso. No mais, abriremos essa possibilidade. Mesmo se Cotrell e Cockshott estiverem errados, ainda assim, o problema do cálculo econômico não é o fim definitivo do socialismo. Pelo contrário. A tecnologia da assim chamada ‘Quarta Revolução Industrial‘, ou ‘Tecnologia Aditiva’, torna cada dia mais possível. Isso é inevitável.

 Quando os meios de produção são heterogêneos, há a necessidade de um mecanismo (o sistema de preços faz isso) que informe o que produzir, racionalizando e equilibrando a oferta e demanda, evitando dessa forma escassez de bens necessários e excesso de oferta de produtos desnecessários. Exemplo: o Chile produz cobre, ocasionalmente ocorre um desastre natural, a produção cai, e o preço sobe. O que o sistema de preços informa aos demais produtores. Há um produto escasso que gera grande margem de lucro, fazendo-os se direcionarem a produção desse mineral, reequilibrando a oferta e demanda e impedindo uma escassez generalizada.

Entretanto, o que os liberais não se questionam, é o que aconteceria se os meios de produção fossem homogêneos (máquinas que produzem tudo) ou se o valor de troca se extinguisse com a automação total do trabalho? A homogeneidade dos meios de produção elimina a necessidade da relação de troca, a apropriação do produto se dá de forma direta. Se eu tenho uma impressora 3D ou nanofábrica que produz desde um tênis até um carro, sem necessidade de intervenção humana, o que acontece com os custos de produção das necessidades humanas em geral? É zerado, não existe preço sem trabalho socialmente despendido.

Sem trabalho, não há remuneração, impossibilitando o consumo, o lucro e a propriedade privada dos meios de produção. Portanto, o que garante o “sistema de preços” é a existência do trabalho e da heterogeneidade dos bens de capital. Mises errou em acreditar religiosamente que as forças produtivas não evoluíam, fruto de sua incapacidade no que tange o estudo da história econômica, algo que Marx foi pioneiro no desenvolvimento do materialismo-histórico e dialético. As forças produtivas mais avançadas de nossa época diz respeito a automação , principalmente unidades produtivas 95 % automatizadas, como as fábricas light out no Japão, no entanto ainda são bens-de-capital multi-específicos, e portanto necessita de intricamento entre elas, relação de interdependência, uma coordenação dos planos dos agentes individuais via sistema de preço para ajustar e alocar o capital de forma ótima, ou utilizar outro mecanismo, para então saber o que produzir, como produzir e para quem produzir, através da VARIAÇÃO DO ESTOQUE, tanto de insumos, como de produtos finais: o primeiro que entra e o ultimo que sai, o ultimo que entra e o primeiro que sai, e é muito conhecido em contabilidade de custos nas ciências econômicas.

O único problema, é dinamismo de distribuição dessa produção. A variação do estoque teria que se apresentar facilmente como o preço na esfera da circulação da mercadoria, e também iria gerar conluios para atender interesses mais rápidos de uma dada comunidade do que as demais. Esse é o problema de bens-de-capital multiespecificos, dispersos no espaço em unidades produtivas estanques.

Porém, a fabricação aditiva (impressora 3D) e a nanotecnologia molecular, que são as promessas em curso de uma Nova Revolução Industrial, solapa qualquer questão do cálculo econômico, justamente porque sendo meios-de-produção homogeneizados, portáteis, e se replicam, elas abolem a multiespecificidade dos bens-de-capital, e portanto da necessidade de intrincamento entre esses meios-de-produção na estrutura do capital em âmbito territorial, e portanto abole a necessidade de sistema de preços para sinalizar que meios-de-produção utilizar, se são todos homogêneos, produzem qualquer artefato humano através da produção digitalizada.

No caso da fabricação aditiva, só remanescem, a necessidade de distribuir a matéria-prima, que é uma tarefa fácil a medida que simplificou o problema, e se dá pela variação do estoque e reciclagem dos produtos. São essas que permitem a transição a outro modo-de-produção, e qualquer erro cometido na produção pode ser facilmente desfeito, e refazendo o produto por se tratar de meio-de-produção homogêneo.

Além disso que falei, há várias outras formas. Hoje já se está pacificado no entanto, que é possível estabelecer preços de referência – por exemplo, baseados em cotações internacionais – e usá-los para “construir” um sistema que emule o mercado.E à medida que avançarmos com o planeamento centralizado, muito provavelmente iremos utilizar variáveis muito mais relevantes, como energia despendida, consumo de recursos naturais, tempo previsto/esperado de duração do bem etc. O obstáculo, à época de Mises, era mais tecnológico. Mas hoje qualquer empresa é capaz de fazer isso com os softwares de gestão, como o SAP (pesquisem depois). Uma crítica mais básica, embora não completa, iria levar em conta que a monetização das necessidades como um tipo de guia de produção é recente, não tem 300 anos. No entanto, antes disso produzirmos e consumíamos. Mas é só uma observação.

P.S: Para o pessoal que não entendeu o que são bens-de-capital homogêneos, ou meios-de-produção homogêneos, vou dar um exemplo concreto: são meios-de-produção que podem produzir qualquer objeto ou produto para satisfazer as necessidade humanas. Isso é um impacto grotesco, porque é uma convergência adaptativa, converge máquinas multi-especificas em apenas um meio-de-produção. Para entender melhor: a divisão do trabalho existe em detrimento da propriedade individual, para ela existir, essa propriedade privada na esfera da produção, são dotadas de instrumentos de produção diversa. Por exemplo, para produzir um óculos, você usa um instrumento de produção, já para produzir um tênis, outro instrumento de produção, para produzir uma luneta outro instrumento de produção, de tal forma que se divide o trabalho, e portanto os produtos qualitativamente distintos, e são trocados pelos agentes sociais , e em decorrência dessa divisão do trabalho, é onde surge a moeda, e o seu valor em decorrência de outros produtos na esfera da circulação a principio é medido pelo tempo socialmente necessário a sua produção, mas não vamos adentrar nisso.

Agora imagine que você tem um meio-de-produção que produza, desde um óculos, uma luneta, um tênis, um skate na mesma máquina? Agora imagine que isso é automatizado, sem precisar de nossa mão-de-obra, e isso acarreta em impacto na divisão do trabalho, pois não há mais instrumento diverso, e trabalho dividido, não portanto sequer necessidade de troca de produtos qualitativamente distintos, tendo em vista que ele produz tudo, pois é meio de produção homogêneo e portanto, a apropriação da produção para o consumo imediato pode se dar pela apropriação direta, e por conseguinte esses meios-de-produção podem produzir outros iguais a ele. Pode parecer um sonho, mas já existe, o fato de abolir a troca monetária como explicado acima, abole a necessidade de sistema de preço. Pra quem quiser ver melhor essa questão:

 https://www.youtube.com/watch?v=HMMJnn_gHWw

 Quanto a questão da agricultura, é a mesma lógica que falei. Isso já está ate pronto hoje em dia, o que ia mudar alterar seria apenas a ideia para hortas comunitárias ou fragmentadas. Além disso já com a atual nanotecnologia molecular, que reorganiza átomos e moléculas, pode se produzir diretamente os alimentos.

Em outras palavras, o futuro é cada dia mais nosso.

           – Rian Lobato

P.S: Há links interessantes que dissertam acerca de algumas questões, que não achei pertinente para o texto.

‘Como o socialismo pode se organizar mesmo sem dinheiro’ >

http://mailstrom.blogspot.com.br/2006/11/how-socialism-can-organise-production.html?m=1

Esse é mais anarquista, mas vou botar aqui porque tem proposições aceitáveis e interessantes acerca de como os anarco-comunistas podem responder o Problema do Cálculo Econômico >

http://anarchism.pageabode.com/afaq/secI1.html#seci11

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