Há alguns dias atrás, um camarada me pediu para editar uma resposta para uma crítica feita a teoria marxista. Eu acatei o pedido e estou respondendo agora. O link da crítica está abaixo, feita por um liberal chamado , aparentemente entusiasta da Escola Austríaca e da Escola de Chicago.

Irei pular a introdução quanto ao que é pertinente a história e introdução das duas teorias, e ir diretamente aos pontos que importam para a resposta. Colocarei as falas dele em as aspas e em itálico, e colocarei minha resposta após um ‘R:’ .

Link da crítica: http://www.geldbrasil.com.br/wp/artigo-4/

“(…) Marx fará a distinção dos valores de USO e valores de TROCA; esses conceitos são bastante importantes para entender as críticas feitas mais tarde dos economistas neoclássicos sobre o marxismo.
Partindo dessas premissas, o valor de uso é o que Marx chamará de tempo socialmente necessário para produzir a mercadoria, por exemplo: temos um computador e ele leva cerca de duas horas de trabalho para ser produzido, enquanto uma impressora leva cerca de uma hora de trabalho para ser produzido. Isso significa que duas impressoras equivalem a um computador. Já no que tange o valor de troca, Marx incide na ideia de que aquele bem tem utilidade, ou seja, se podemos utilizar o computador, se podemos usar a impressora, Marx não desdenha completamente a utilidade, mas a torna como princípio fundante o trabalho e posteriormente a utilidade.

Marx sobre o trabalho:
‘‘Só a quantidade de trabalho socialmente necessário ou o tempo de trabalho socialmente necessário para produzir um valor de uso é que determina o seu valor. A mercadoria isolada vale aqui como exemplo médio da sua espécie. Mercadorias contendo igual quantidade de trabalho, ou que podem ser produzidas no mesmo tempo de trabalho, têm por isso o mesmo valor. O valor de uma mercadoria relaciona-se com o valor de outra mercadoria, da mesma forma que o tempo de trabalho necessário para a produção de uma delas se relaciona com o tempo de trabalho necessário para a produção da outra. Como valores, todas as mercadorias são apenas medidas de tempo de trabalho cristalizado.’’ “

R: Já vemos o primeiro erro crasso aqui. Este é dos grandes. Aliás, eu nunca tinha visto tanta confusão de termos em apenas alguns parágrafos. Vamos lá:

Valor de uso não é tempo socialmente necessário para produzir a mercadoria. Isso incorre de um erro de interpretação do trecho de Marx acima. Marx diz que o tempo socialmente necessário para se produzir uma mercadoria com utilidade (isto é, algo com valor de uso) irá determinar o seu valor, que será medido através de sua magnitude do valor.

Ele não disse que o tempo socialmente necessário é o valor de uso em si, mas sim que o pressuposto do valor de uso a.k.a uma mercadoria que tenha uma utilidade (afinal, algo só é mercadoria se serve para algo) é produzido através do trabalho dispêndio em delimitado tempo socialmente necessário para isso Ou seja, esse trabalho dentro desse tempo delimitado, é o que gerará uma mercadoria, algo útil. E por sua vez, para servir para troca, ela terá uma propriedade chamada de ‘valor’ – que é o que prescreve algo pronto para troca, e pode ser medido pela magnitude.

A utilidade, para Marx, é uma propriedade. É uma relação social, objetiva ao homem-objeto. Ela não pode ser ‘medida’ por algo, tal qual o tempo socialmente necessário para a produção, mas sim atingida. Do contrário, implicaria em dizer que quanto mais tempo algo tiver, mais utilidade ele tem. Talvez isso faça sentido para a utilidade marginal, mas na teoria de Marx não é possível ‘medir’ utilidade de algo. Cada mercadoria tem a sua própria utilidade, ou seja, satisfaz necessidades e desejos.

O tempo socialmente necessário para se produzir a mercadoria é a forma de se medir a magnitude do ‘valor’, não o ‘valor de uso’. Ou seja, dispêndio médio do tempo de trabalho abstrato é a ‘medida’ do valor, não o valor em si. O valor em si é uma propriedade social das mercadorias que lhes possibilita serem trocadas. A magnitude dele, é como ele será medido, ou seja, através do tempo.

Quando medimos a riqueza, estamos medindo, de fato, a quantidade de trabalho que foi necessária para criá-la.Claro, todo o mundo não produz a mesma quantidade num determinado período de tempo. Se eu tentasse, por exemplo, fazer uma mesa, levar-me-ia cinco ou seis vezes mais tempo do que um carpinteiro. Mas ninguém são da cabeça iria me pagar cinco ou seis vezes o preço de uma feita polo carpinteiro. Avaliará-se o seu valor dependendo da quantidade de trabalho fornecido polo carpinteiro e não por mim.

Suponhamos que leva uma hora o carpinteiro para fazer a mesa, o valor da mesa será considerado como o equivalente a uma hora de trabalho. Este será o tempo de trabalho socialmente necessário para fazer a mesa, considerado o nível médio de tecnologia e habilidade na sociedade.

Por essa razão, Marx insistia em que a magnitude do valor de algo não era simplesmente o tempo que levou um indivíduo para fazê-la, mas o tempo que levaria um indivíduo para trabalhar dentro do nível médio de tecnologia e habilidade — ele chamou esse nível médio de trabalho necessário “o tempo de trabalho socialmente necessário”, que esse texto acima confunde. Este ponto é crucial porque sob o capitalismo os avanços tecnológicos estão ocorrendo constantemente, o que significa que leva cada vez menos tempo produzir.

Por exemplo, quando os rádios eram feitos com válvulas térmicas, eles eram muito caros, porque havia grande quantidade de trabalho na fabricação das válvulas, para conectá-las, etc. Em seguida o transistor foi inventado, e este podia ser fabricado e montado em menos tempo. De repente, os trabalhadores das fábricas de rádio que ainda utilizavam válvulas, descobriram que o preço do que eles produziam tinha desabado, pois a magnitude do valor dos rádios já não era mais determinado polo tempo de trabalho necessário para fabricar com válvulas, mas polo tempo necessário para fabricá-los com transistores.

Ou seja, a confusão do autor desse texto está na crença de que o tempo socialmente necessário citado acima, mede o valor de uso. Já explicamos que ele mede a magnitude do valor (só valor, sem o ‘de uso’).

Mas o que seria o valor de uso? O valor de uso é basicamente a utilidade objetiva e socialmente necessária para aquele tempo e lugar. Tênis para calçar, camisa para vestir e etc. São todos valores de uso. O valor de uso é uma propriedade, isto é, ele não é medido – não se mede a utilidade de coisas diferentes. Nesse caso, é necessário que se explique isso a partir de algo universal a todas as mercadorias – o trabalho.

O valor de uso é um pressuposto para algo ser mercadoria. Afinal de contas, você só compra algo no mercado pois esse algo tem uma utilidade. Mas não é ele que delimita os termos ou o que acontece na troca. Ele é apenas um pressuposto para a troca pela mercadoria acontecer, pois satisfaz uma necessidade do estômago ou da fantasia. A utilidade a.k.a valor de uso, é o que motiva a troca.

Para ter valor de uso enquanto mercadoria, é necessário também que tenha uma utilidade socialmente necessária em X tempo ou X lugar. Em outras palavras, é preciso que essa mercadoria seja útil na sociedade ali. Marx pode dizer o que é útil ou o que não é em determinado lugar ou tempo, através do materialismo histórico e do materialismo dialético (por isso é importante trabalhar com a teoria marxista inteira, e não fragmentada).

Um casaco na Jamaica, graças às condições objetivas daquela época e lugar, não tem valor de uso naquela sociedade, por exemplo, por mais que tenha trabalho. Por isso se diz que o valor de uso deve ser algo que satisfaz necessidades tanto do estômago quanto da fantasia em determinadas condições objetiva sociais de cada época ou lugar – deve ser algo que satisfaça a necessidade, não dos produtores, mas sim daquela sociedade.

Em seguida, o autor incorre em mais confusões ainda. Ele diz descrever ‘valor de uso’ e o ‘tempo socialmente necessário’ no exemplo da impressora e computador, mas na verdade o que descreve é o ‘valor de troca’ – isto é, o cambiante de mercadorias diferentes.

Exemplo:

20 varas de linho = 1 casaco

O valor de troca de 20 varas de linho, em comparação com a mercadoria casaco, é 1 casaco

40 varas de linho = 2 casacos

60 varas de linho = 3 casacos

E por aí vai.

O preço é o valor de troca quando a mercadoria que está na posição de equivalente é o dinheiro, podendo este flutuar constantemente, como explicamos antes.

Exemplo: dinheiro é reais

1 casaco = 100 reais
Aqui o preço de 1 casaco é 100 reais

Quantum forma relativa = quantum forma equivalente

OBS: Mas esse preço não é o preço que se usa no mercado. O preço em Marx se chama preço de produção que é (1+i)*preço de custo, onde i é a taxa média de lucro e preço de custo é o adiantamento de capital constante + capital variável.
O preço efetivamente trovado no mercado gravita em torno do preço de produção a partir das estruturas da oferta e da demanda em cada mercado, o tal “estômago do mercado” que tanto fala o Marx.

O que vemos no trecho anterior é uma confusão absurda do autor com os termos – algo que com toda certeza condena o entendimento do resto do texto, tal como demonstrarei. Ele confundiu tempo socialmente necessário com valor de uso, e valor de uso com valor de troca.

“A definição da teoria do valor de utilidade pode ser apresentada como o valor de um bem econômico. É derivado da sua utilidade combinado com sua escassez. Mas não é a utilidade objetiva que importa; nesse caso, é utilidade SUBJETIVA. Portanto, valorar um bem econômico depende de cada indivíduo, é simples de entender: um livro de matemática tem um grande valor para um economista, mas tem zero ou quase nada para um dentista”

R: É de se perguntar onde uma suposta ‘utilidade subjetiva’ iria contradizer a teoria do valor-trabalho, haja vista que Marx é categórico em afirmar que valor de uso é tudo aquilo que satisfaz uma necessidade ‘do estômago ou da mente’.

Se valorar um bem econômico fosse algo que vem de cada indivíduo, todo mundo pagaria o que quiser pelo que querem possuir. Isso não faz sentido. Não importa se quem compra o livro de matemática é um dentista ou um economista – ambos pagarão pelo mesmo preço na loja para obtê-lo.

No entanto, é de se perguntar se o autor do texto está fazendo uma referência à demanda por uma mercadoria, e que isso poderia significar valorização subjetiva das coisas. Ou seja, do que atrai as pessoas para a compra ou o que as leva a escolher mercadorias de menor ou maior valor.

Bem, Marx não tratou da determinação do valor de uso pelas preferências de consumo sobre certas opções de oferta de um tipo de mercadoria na concorrência de um nicho, ele estudou a concorrência apenas pelo valor de troca, a partir de quem consegue vender mais barato porque é mais produtivo.

Porém, um autor marxista que ainda está vivo, e é uma referência das ciências sociais contemporâneas, o alemão Wolfgang Fritz Haug, tem uma tese que explica como os consumidores são levados a preferirem uma opção da concorrência do que outras por causa da especificidade do valor de uso dessa opção. Essa explicação se dá pelo que o autor chama de “função estética da mercadoria”.

Trata-se do que o valor de uso tem na sua aparência que atrai a sociedade para desejá-lo, tendo um gostinho de como seria o consumo sem consumir efetivamente para que se tenha a vontade irresistível de consumir, como uma pele que seduz a sociedade. Essa função estética do valor de uso é o design, a embalagem, a publicidade e propaganda, a promoção de vendas, o merchandising, as relações públicas, o mass media e a Indústria Cultural em geral, a inovação estética (que é a criação de novas identidades para a mesma mercadoria com a aparência de um novo modelo que efetivamente pouco muda do anterior para levar a obsolescência programada da durabilidade técnica da mercadoria para a saciedade do desejo do consumidor pela mesma peça de uma mercadoria, o fazendo querer recomprá-la antes da que já tem ficar inutilizada porque foi persuadido pela existência de um “modelo novo” que o seu não serve mais) etc.

E apenas reforçando, mesmo isso não é quantificado no valor. Uma coisa é fazer uma opção ser mais preferida pelos consumidores do que outra, outra coisa é quantificar o quanto cobrar por essa maior preferência. A quantificação que define o preço continua tendo como referência o valor que é trabalho, que define o mínimo possível que deve ser cobrado para não ter prejuízo, mas quanto maior for a demanda em relação à oferta ou em relação à concorrência, seja porque é uma empresa mais produtiva que produz mais em menos tempo que a média da sociedade no seu nicho de mercado, e por isso pode vender com preço mais barato e maior margem de lucro; seja porque o seu valor de uso tem especificidades efetivas ou apenas aparentes que são mais preferíveis.

A computação gráfica é uma área que exige certos recursos técnicos mínimos dos produtos de informática utilizados para esse tipo de trabalho que são mais avançados que os utilizados por usuários comuns. E com relação à essa necessidade de tal atividade profissional, que como toda outra necessidade é objetiva, algumas marcas de computadores, periféricos e insumos de informática são tecnicamente melhores que outros para satisfazê-la.
Suponhamos que o Mac da Apple seja o melhor computador para fazer esse tipo de trabalho. Esse tipo de julgamento é plenamente possível de ser feito, pois apenas estou identificando o que melhor satisfaz uma necessidade, ou seja, o que objetivamente é melhor para sanar uma necessidade específica que também só pode ser objetiva. No entanto, não é possível quantificar quantas vezes um Mac da Apple é melhor que todas as outras opções de computador do mercado mesmo eu sabendo que ele é de fato o melhor para o que preciso. Portanto, tanto o preço do computador da Apple quanto dos demais concorrentes é definido a partir do padrão de valor que cada um tem, que é a quantidade de trabalho expressa no tempo necessário de sua produção em relação à média de todos os concorrentes desse nicho na sociedade, quanto a diferença entre a demanda e a oferta de cada um, o que pode ser tanto determinado pela diferença de produtividade entre os concorrentes, permitindo que uns vendam mais barato que outros mesmo tendo ainda mais lucro ou porque tem especificidades na sua utilidade social (valor de uso) mais quistas. Então, é a capacidade social de produção que define a oferta, que por sua vez determina tanto a demanda quanto o preço, e por fim se determinam entre si e sobredeterminam (determinam de volta) a oferta e a produção, posteriormente a determinação que receberam delas. Então o preço não indica a demanda. Ele pode determiná-la ao passo que pode ser determinado por ela. Quando a preferência por uma opção de mercadoria da concorrência de um nicho se dá porque ela é mais barata, é o preço que determina a demanda, quando é uma preferência pelos atributos e benefícios da mercadoria, é a demanda que determina o preço. E nos dois casos, por detrás do preço determinando a demanda, ou da demanda determinando o preço, é a produção e sua oferta que determina tudo em última instância.

“Desse conceito então surge outro, que é o conceito de utilidade marginal que o professor da UERJ, Ubiratan Iorio define como: ‘‘a satisfação proporcionada pela última unidade de um dado bem, em um dado momento do tempo.’’ O exemplo apresentado em questão pelo próprio professor Ubiratan é: ‘‘se você oferecer, às três horas da tarde, uma bandeja cheia de copos com água para alguém que está morrendo de sede, essa pessoa vai dar ao primeiro copo um valor maior do que ao segundo, a este um valor maior do que ao terceiro, a este um valor maior do que ao quarto e assim sucessivamente. Supondo que essa pessoa beba, às três horas da tarde, seis copos seguidos e rejeite o sétimo, podemos dizer que o valor do sétimo copo, às três da tarde, era zero. Mas se perguntarmos à mesma pessoa, cinco horas depois, diante da mesma bandeja, se ela quer beber água e ela responder afirmativamente, então o valor daquele sétimo copo (que agora será o primeiro) já será positivo e maior do que o valor do oitavo (que, agora, passa a ser o segundo), o valor do oitavo será maior do que o do nono (que, agora, será o terceiro) e assim sucessivamente.’’Portanto, a lei da utilidade marginal é decrescente, pois quando aumentamos as unidades do bem, o valor de cada unidade vai progressivamente decrescendo”

R: Poder-se-ia se perguntar também o motivo de algo ser ‘subjetivo’ se absolutamente todos os exemplos dela são justamente das condições mais objetivas possíveis: necessidades fisiológicas. Mas passemos á próxima questão.

Um dos principais críticos da utilidade marginal foi o economista norte-americano de origem norueguesa Thorstein Veblen, que falava sobre o consumo conspícuo, que seria aquele consumo hedonista excessivo, para ostentar perante seus próximos, onde a escala de satisfação não era decrescente. É como um colecionador de carros esportivos, estilo Ferrari, Maclaren, Jaguar, Maserati, etc.

Não estou nem falando das marcas, estou falando de carros esportivos como mercadoria. Muitos dos seus proprietários não diminuem suas saciedades na medida que suas compras aumentam. Ele compra um carro esportivo, dois, três, e nunca saciam a sua vontade.

A mesma coisa você pode aplicar para aquelas mulheres que adoram calçados e são viciadas em consumi-los (todo mundo já conheceu alguma mulher assim). Na medida que ela consome calçados, dependendo do seu nível de renda e patrimônio, ela não tem sua vontade esmorecida. Pelo contrário, ela quer cada vez mais e mais, sua escala de demanda é crescente. Porém, poderíamos relevar esse ponto e dizer que se trata de uma exceção a regra.

Porém, outro problema seria a ausência de explicação da origem da demanda e da explicação dos fatores que levam a uma determinada demanda. A utilidade marginal não leva em conta, por exemplo, porque um país X consome mais batatas que um país Y em nível per capita (por pessoa). Ou seja, a escala da utilidade marginal surge do nada, de um vazio. Ela não explica fatores culturais e socioeconômicos para surgimento de alguma demanda, pois na Índia por exemplo a população não consome bovino por uma questão cultural. Isso reforça a ideia de Marx que valor é mesmo o trabalho, e não uma demanda inexplicável e sem origem.

Marx pode facilmente identificar esses fatores culturais e socioeconômicos através do seu método do materialismo histórico e materialismo dialético. Não existe lógica de dedução a propri de axiomas apartada das condições materiais, seja da natureza ou da sociedade, de um determinado tempo histórico que são minimamente necessárias para a sua existência. Ou seja, não existe subjetividade que não seja subsumida à objetividade da totalidade estruturada em sínteses de múltiplas determinações, advindo desta totalidade as condições necessárias a todas às possibilidades de subjetividades existentes. Além disso, toda possibilidade de subjetividade, que como possibilidade historicamente determinada pelas condições das experiências de relações sociais com a natureza é sempre objetiva, ao ser manifestada, se objetiva como ação. Portanto, toda subjetividade é subjetivação OBJETIVADA possível sob as condições existentes em determinado contexto histórico, social e natural.

Desse modo, toda demanda é resultado das possibilidades de oferta existentes nas condições dadas de produção ou daquilo que essa mesma produção gera de experiência que cria novas necessidades e desejos possíveis de serem satisfeitos pelo desenvolvimento produtivo possível. Isso significa que é sempre a capacidade social e natural historicamente determinada da produção, de como os seres humanos podem se relacionar para transformar as formas da natureza e de si mesmos, que determina as necessidades e desejos das pessoas, portanto, a sua demanda, por mais subjetiva que ela possa parecer.

Outro erro da utilidade marginal é também não explicar nada relacionado a custos de produção, contradizendo em diversos exemplos a utilidade marginal na sua forma decrescente.

Então por exemplo, se o preço da mão de obra e o preço da energia aumentam na produção de determinada mercadoria, seu valor aumenta, independente da escala de consumo (crescente ou decrescente). Há mercadorias que aumentam o valor sem necessariamente terem seus consumos aumentados. E mesmo se tivessem, ainda assim estariam contradizendo a utilidade marginal, já que esta determina uma universalização geral no decréscimo de consumo (ou seja, quanto mais consumo, mais cai a utilidade marginal e consequentemente o seu valor).

Outro problema também é que há como medir a utilidade. A utilidade de uma coisa é diferente da utilidade de outra coisa. As utilidades são qualitativamente diferentes. É justamente por isso que Marx não mede isso, haja vista que a utilidade, valor de uso, é apenas pressuposto para a troca acontecer, não o que se mede na troca. Até Adam Smith já sabia disso. E isso é justamente um ponto fraco do marginalismo, e por isso eles recorrem ao preço.

Mas o preço é a expressão de duas coisas (valor [trabalho humano abstrato – dispêndio de atividade humana indiferenciada, ou seja, dispêndio de energia, nervos e músculos humanos – socialmente necessário para a produção] e valor de troca por uma comparação com uma terceira (a mercadoria que socialmente foi convencionada como equivalente geral, o dinheiro, que durante muito tempo foi o ouro). Não se podem comparar coisas qualitativamente diferentes como a utilidade das coisas, mesmo que com recurso a sua utilidade marginal.
Ou seja, não é capaz de encontrar uma medida uniforme de valor para coisas intrinsecamente diferentes como a utilidade das coisas. Como mensurar a diferença entre a utilidade marginal de uma faca e de uma cerveja? O que há, em comum, entre uma coisa e outra? Eles pressupõem que se compare pelo valor monetário. Mas como se chegou à diferença exata entre o preço de uma coisa e outra? Se como o próprio Murray Rothbard afirma que o valor subjetivo das avaliações da utilidade marginal é uma categoria ordinal e não cardinal, isto é, que é possível apenas saber o que satisfaz mais e o que satisfaz menos, mas não o quanto mais ou o quanto menos se satisfaz, como no mercado são tão bem estabelecidas as diferenças de preços entre as opções de mercadoria? E como se chegou à moeda pela teoria da utilidade marginal? Se é uma mercadoria como outra qualquer, como Marx pressupôs, utilizada como equivalente geral (no começo, o ouro e a prata), como mensurar sua utilidade marginal em comparação com a utilidade marginal das outras mercadorias? O problema só foi transferido para uma etapa anterior. É um erro de petição de princípio.

Outros problema para fixação de um valor de equilíbrio é que não existe esse conhecimento perfeito dos consumidores para saberem o preço de todas as coisas para compararem e escolherem o mais barato para forçarem os preços a um equilíbrio. Os marginalistas têm de partir do princípio que os consumidores são hiper-racionais, que são oniscientes, e super-humanos, capazes de saberem todos os preços/produtos e calcularem.

Além disso, o Capitalismo é monopolista, não segue o pressuposto de um livre-mercado.
Sendo caridoso com os marginalistas, vamos fingir que este problema não existe. Temos as mercadorias, suas utilidades marginais magicamente determinadas por uma medida comum, e seus preços individuais, que segundo eles, irão convergir para um ponto ótimo pela oferta e procura, certo?

Só que o Teorema de Sonnenschein-Mantel-Debreu, utilizando os mesmos pressupostos irreais dos marginalistas, demonstra que não existe um único equilíbrio ou ponto de convergência possível. Então, mesmo que esquecêssemos o problema da petição de princípio da medida comum das utilidades marginais das mercadorias, do ser humano hiper-racional e onisciente, e assumíssemos um ambiente de pretenso livre mercado, ainda teríamos o problema que, mesmo por esses pressupostos, os preços não convergem para um ponto único de equilíbrio nas irreais condições do inexistente livre mercado. Logo, a Teoria vai por água abaixo.

Há uma tautologia no marginalismo também. Como diz Bukharin em sua crítica ao austríaco Böhm-Bawerk, uma “caracterização sociológica” como essa da teoria de Bohm-Bawerk “não nos livra da responsabilidade de travar uma guerra contra ela mesmo no campo de uma crítica puramente lógica” (Preface to the Russian Edition).

Por isso, vamos supor que os marginalistas estivessem certos, ou seja, que o valor fosse uma relação entre os preços e as avaliações subjetivas dos consumidores, e não a produtividade do trabalho, como diziam Smith e Marx. Mesmo assim, estariam numa enrascada. Por quê?
Por exemplo – um exemplo do próprio Böhm-Bawerk – uma dona de casa fazendo as compras do mês:

Se, com a mesma quantia de dinheiro, nós pudermos comprar uma dúzia de bananas, ou meio quilo de feijão e três maçãs, ou meio quilo de feijão e duas garrafas de água sanitária, ou… etc., cada pessoa comprará aquelas mercadorias que tiverem a maior utilidade segundo suas avaliações individuais. Mas essas avaliações individuais pressupõem tanto os preços das mercadorias que vamos comprar no mercado quanto a quantia inicial de dinheiro com que vamos lá. Tanto os preços das mercadorias quanto a quantia de dinheiro inicial são “dadas”, ou seja, as duas coisas já estão pré-estabelecidas antes mesmo de irmos ao mercado, e é “somente dentro desses limites que uma certa avaliação baseada na utilidade pode ser praticada” (Idem).
Ora, o próprio Böhm-Bawerk (cit. Bukharin, C. 1-1 Objectivism and Subjectivism in Political Economy)diz que é um pecado capital de método ignorar, presumir, tomar por certo ou como “dado” aquilo que se deve explicar. Mas as avaliações individuais dos compradores dependem dos preços!
Segundo a teoria de Böhm-Bawerk, o valor é a relação entre os preços e as avaliações individuais dos consumidores. Mas, se as avaliações individuais dependem dos preços, será que, no final das contas, o valor é a relação entre os preços e os preços? Será que o padrão determinante dos preços é a relação entre preço e preço?
A teoria do valor é a teoria do padrão determinante dos preços. Ao tentar nos convencer que o valor depende da utilidade, e não do trabalho, a teoria do valor de Böhm-Bawerk se transforma num círculo vicioso e tautológico: os preços dependem das avaliações individuais dos consumidores, mas as avaliações dos consumidores também dependem dos preços. Consequentemente, o próprio Böhm-Bawerk e o seu viajante no deserto cometem um pecado capital de método: tomam como dado aquilo que se deve explicar, ou seja, o próprio preço. Afinal de contas, de onde vem os preços?

Por fim, há uma impossibilidade filosófica e etimológica também, tal como o camarada Vinicius Bessi já dissertou aqui:http://www.motorideologico.com/…/Refutando-a-teoria-do-valo…

Eu poderia introduzir ainda, a crítica esmagadora de Sraffa (que nem marxista era) ao valor marginal, que foi usada por muitos durante a Controvérsia de Cambridge, e que acabou com Samuelson (um dos marginalistas) tendo que admitir que o marginalismo estava errado, e que todos eles deveriam virar ‘Sraffianos’, além de que a Universidade teve de ignorar o resultado da controvérsia para continuar existindo. Porém, acho que posso me resumir apenas ao que foi dissertado anteriormente.

“Essa é também a saída para compreender a resposta do paradoxo do valor.Novamente vamos recorrer a um exemplo;‘‘Ao compreendermos a lei da utilidade marginal, conseguimos resolver o “paradoxo do valor”: o pão é mais útil do que o perfume fino, mas, como o número de unidades de pão é maior do que o de perfumes finos, o valor do pão, determinado por essa combinação de utilidade e escassez subjetivas, é menor do que o do perfume. A comparação relevante não é, portanto, entre a utilidade de todos os pães e de todos os frascos de perfume, mas entre as utilidades de um pão e de um frasco”

R: Escassez tão somente implica em dizer que algo dá mais trabalho para ser achado. Isso não é um paradoxo para Marx, é justamente uma confirmação. Não só da mais trabalho, como o próprio perfume tem um trabalho maior para ser sintetizado e feito artificialmente, enquanto o pão qualquer padeiro pode facilmente fazer com a massa.Há uma padaria em cada esquina, mas não uma indústria de perfumes.

“A teoria do valor-trabalho atualmente está em desuso, apenas os economistas marxistas aceitam a como válida, pois é a base de fundamentação de toda teoria de Marx. Todavia, invalidar a teoria do valor trabalho é, por conseguinte, refutar e anular toda a tese de mais-valia, luta de classes e exploração (burguesia x proletariado)”

R: Isso não é verdade. A teoria do valor-trabalho ainda é aceita em muitos ramos econômicos sem ser os marxistas, cito aqui por exemplo os neo-ricardianos \ sraffianos.

E também, há como você ser um socialista, e aceitar a utilidade marginal. Oskar Lange e Karl Polayni foram alguns deles por exemplo, onde trabalharam e justificaram toda a sua resposta ao problema do cálculo econômico, com o marginalismo . John Roemer também rejeita a teoria do valor-trabalho sendo um marxista, tal como pode ser checado em ‘A General Theory of Exploitation and Class’.

O próprio Friedrich Engels relata no prefácio de O Capital III, que é totalmente possível construir um socialismo com base na ‘economia vulgar’ (marginalismo), e que isso já até estaria em andamento na Inglaterra, como pode ser visto abaixo:

engels

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É questionável também, o status pelo qual o marginalismo começou a se tornar o ‘mainstream’ da economia. A começar pelo fato de que, tal como demonstrou Roman Rosdolsky em “Gênese e Estrutura de O Capital’, todas as críticas, em especial as de Böhm-Bawerk (que contém um capítulo só para ele), são espantalhos ou frutos de mal-entendimento da teoria de Marx.

Por quais meios foram necessários serem adotados para reprimir as conclusões de Marx? Sabemos que, por exemplo, o próprio Marx foi muito perseguido em lugares (e até governos) diferentes, um claro sinal óbvio de que a burguesia dominante da época o via como uma constante ameaça.

Porém, já há circunstâncias ou evidências (embora nenhuma cabal) de que o marginalismo, até pela suas falhas gigantes como demonstradas acima, só se tornou ‘mainstream’ por conveniências externas, e não exatamente por estar mais certo. Vemos por exemplo, por dois fatores:

1 – A própria revolução marginalista foi financiada pesadamente por grande parte da burguesia europeia, que ofereciam exorbitantes prêmios para quem ‘inventasse’ outra forma de medir o valor, porque utilizando a escola clássica era impossível uma resposta a Marx (tanto que a primeira resposta decente utilizando a TVT foi feita também pelo Sraffa, já nos anos 60). Essa e outras questões podem ser checadas no ‘Marx, Marginalism and Modern Sociology” de Simon Clarke.

2 – O comportamento da academia perante a crítica esmagadora de Sraffa. Mesmo alguns marginalistas assumindo a derrota, e os poucos que não assumiram oficialmente também não apresentaram objeções, a academia simplesmente começou a boicotar o departamento de economia de Cambridge (a europeia). Isso é estranho, pois o próprio expoente dos marginalistas (Samuelson) assumiu a derrota, como vemos abaixo do Elgar Companion to Marxist Economics:

‘The attack by sraffians on neoclassical theory was so powerfull that even the doeyen of neoclassical economics, Paul Samuelson, felt compelled to
enunciate famously the verdict that “We are all Sraffians now”‘ 

https://l.facebook.com/l.php?u=https%3A%2F%2Fbooks.google.dk%2Fbooks%3Fid%3Dxe0VQArHt8sC%26pg%3DPA253%26lpg%3DPA253%26dq%3Dwe%2520are%2520all%2520sraffians%2520now%26source%3Dbl%26ots%3D_dNl855jdy%26sig%3D5CzXTriBWDx_T44kb7kJw_lNbgI%26hl%3Dda%26sa%3DX%26ved%3D0ahUKEwjvhvTQrc_RAhXBXiwKHbrFBIIQ6AEIGTAA%23v%3Donepage%26q%3Dwe%2520are%2520all%2520sraffians%2520now%26f%3Dfalse&h=ATNvFtWwzsT5Ysak934H9t6rXwmQz4vMbTYx8pmIuDdgL4KpRbFwz9machEFZwH24ooj7Vh15X72SgSXhEEONvKK7jzNbP-_aoDuWZZRor_Fg8vsWcsjZyt3xefV8B7WyrFfEgk

Tais evidências nos levam a questionar o motivo do status. É perfeitamente possível. A teoria do valor-trabalho expunha um ponto vital da burguesia: a mais-valia, simplificadamente, a ideia de que os capitalistas ficam cada vez mais ricos porque enriquecem às custas não do próprio trabalho, mas sim do trabalho dos outros. Por isso, a burguesia, depois de ter construído “um mundo à sua própria imagem”, se empenha em tentar refutar, em negar a descoberta científica da teoria do valor-trabalho tanto quanto o diabo se empenha em fugir da cruz. As teorias de Böhm-Bawerk, por exemplo, surgem nessa tentativa.

Afinal, se o valor das mercadorias depende do trabalho, o lucro do patrão também. Por isso, a burguesia precisa negar a descoberta científica da teoria do valor-trabalho. Mas, se a única coisa comum a toda mercadoria é ser produto do trabalho, como medir e comparar quantitativamente as mercadorias sem se expor ao golpe fatal da mais-valia? Ora, segundo Marx, a mercadoria “pode ser considerada sob um duplo ponto de vista”, o da utilidade e a do esforço necessário à sua produção. “Então, façamos da utilidade algo possível de medir e comparar”, responderam os marginalistas.

Tudo isso reflete justamente uma frase muito conhecida, de Marx:

karl-marx
‘As ideias dominantes de uma época sempre foram as ideias da classe dominante’
Outro fator interessante desse trecho do texto do qual estou criticando, é que ele nos dá a entender que se ‘refutada’ a teoria do valor-trabalho, também se refuta a mais-valia, a luta de classes, e a exploração entre elas. É verdade que tais descobertas são feitas usando a teoria do valor-trabalho, mas não necessariamente dependem diretamente desta.
Como iremos ver nos trechos posteriores (há um somente para isso), a Escola Austríaca (Böhm-Bawerk) não nega a mais-valia, mas sim o seu caráter de exploração, utilizando-se de um argumento ético (e supostamente) lógico, não uma refutação material ou econômica. Em outras palavras, os austríacos não negam que há ‘mais-valia’, não negam o fato de que o proletário não ganhe o equivalente ao que ele produz; o que eles tentam fazer, é justificar isso. Acontece que, ao se admitir a primeira questão (o fato material de que o proletário não ganha o equivalente ao que ele produz), já se admite a mais-valia, e por consequência, não a refuta.
 Isso acontece pois a mais-valia (ou mais-valor) não é um argumento ético a priori, é uma constatação científica baseada em fatos materiais. Depois, num segundo momento, pode-se falar na ética da apropriação da mais-valia, mas isso é irrelevante pra uma análise científica. Toda a análise de Marx é materialista, e portanto, independe de qualquer justificação ou caráter ético (seja ele eficiente para rebater a conclusão de que ‘seria exploração’, ou não). 
Por último, a Luta de Classes é outra constatação socio-política ou histórico-materialista. Ela não depende diretamente da teoria do valor-trabalho, mas sim do método de estudo da Economia Política, que explicarei abaixo:

Sendo a realidade concreta uma totalidade, como poderíamos a apreender e saber o que de fato ela é, já que em última instância todas as coisas existentes se determinam mutuamente?

Além do axioma de que a realidade concreta só pode existir como totalidade, há os axiomas derivados desse primeiro axioma de que, primeiro, a realidade é finita (pois não pode existir qualquer coisas indiscriminadamente nela em nenhum momento), e, segundo, de que as múltiplas determinações que constituem a síntese do que é essa realidade não a determinam, cada uma, exatamente do mesmo modo. Há determinações que são mais estruturais – determinam mais e por isso precedem outras determinações mais do que são determinadas e precedidas – e há determinações que são mais contingenciais – determinam menos e por isso são precedidas mais por outras determinações do que as determinam e as precedem. Ora, para ser possível saber o que é a realidade é necessário apreendê-la em sua totalidade, pois qualquer recorte arbitrário a distorce (por mais que nenhum recorte arbitrário consiga escapar dos limites de possibilidades postos pelas condições historicamente dadas, não podendo ser assim totalmente subjetivo), uma vez que negligenciaria possíveis determinações sem as quais o que está sendo estudado não poderia ser o que é.
Além disso, tem de se considerar como estão encaixadas e relacionadas entre si nela cada parte constituinte, a hierarquia da estrutura de determinação.
Para isso, a única forma possível é o método da Economia Política, no qual se faz dois grandes procedimentos: a investigação histórica e a exposição categorial.
A investigação histórica é a apreensão da realidade pela coleta de dados do único ponto de partida possível para o contato sensível do investigador sobre o que está sendo investigado, que é a síntese mais recente de múltiplas determinações, o presente em que o investigador se encontra. Assim, a investigação histórica é um procedimento que vai do presente ao passado.

Já a exposição categorial é a organização dos fenômenos nos dados coletados na devida ordem hierárquica estrutural de determinação que eles existem na natureza. Portanto, do que foi coletado pela investigação histórica, tem que ser deduzido aquilo que for mais geral e simples, aquilo que mais se encontra recorrente e saliente, o mais determinante e que por isso é o minimamente necessário para o que está sendo investigado seja como é. Daí, ele tem de si abstraído de todo o resto de onde veio para ser representado sozinho por uma categoria própria, que é abstrata, com menos determinações por serem justamente as mais gerais e simples.

Posteriormente, começa a operação lógica de retornar dessa categoria mais abstrata do que é o mais simples e geral para as suas variações possíveis na concretude que foi primeiramente abstraída, se revestindo assim do que é mais específico e complexo, aquilo que é representado por categoria mais concretas, com mais determinações, colocando essas categorias para se determinarem conceitualmente entre si e assim gerar a sua representação em um “concreto de pensamento”, um reflexo da realidade na mente.
Isso quer dizer que a exposição categorial é o caminho inverso da investigação histórica, ela vai do passado ao presente, pois é o sentido das condições mais determinantes do que determinadas para as menos determinantes e mais determinadas, embora o que é menos determinante também determina o que é mais determinante.
Ora, a exposição categorial é o retorno do ponto de chegada para o ponto de partida da investigação histórica, o retorno do investigador para o ponto da história de que ele partiu. Porém, como a história não para a investigação ser feita, o movimento dos procedimentos do método são perpétuos para acompanhar o próprio movimento da realidade, conhecendo a totalidade que cada vez mais se altera e se acrescenta do passado no presente.
E é justamente por isso que Marx fez abstrações de pressupostos que não eram concretamente reais, pois necessitava supor as condições em que é sensivelmente apreensível as determinações mais simples e gerais que são minimamente necessárias para a realidade ser como é. Ou seja, Marx fez no texto de O Capital uma exposição categorial do que vai do mais simples e geral – o mais abstrato – para o mais complexo e específico – o mais concreto – para saber exatamente quais são as posições de determinação de cada uma das partes constituintes da totalidade do real. Ele fez uma investigação histórica da décadas dos dados que pôde coletar no seu contexto histórico – a Europa Ocidental da metade do século XIX, em especial a Inglaterra – e deduziu o que era necessário a esses dados para eles serem da forma que se apresentavam.

Por exemplo, foram pesquisados os mercados internacionais e nacionais de comércio entre as empresas de variados portes, os Estados e as populações, mas estes mercados pressupõe a produção e todos os seus fatores, que por sua vez pressupõe o dinheiro e o trabalho, e que por fim pressupõe a mercadoria – propriedade privada, oriunda ou não do trabalho humano que tem como destino a troca – que é a unidade mais elementar do modo de produção capitalista, a sua célula, pois é a forma que cada vez mais tudo assume no tipo de sociabilidade desse sistema.

É disso que Marx pôde descobrir a existência do fetichismo da mercadoria, a inversão da realidade que se mostra pelo mais abstrato – a mercadoria – como se fosse o mais concreto, portanto, a coisificação das relações sociais (no caso, o velamento do trabalho) como propriedades objetivas naturais qualitativas e socialmente úteis (valor de uso).É disso também que ele tira as conclusões e consequências socio-políticas, como a luta de classes e a teoria da exploração. Por isso, vemos que é falsa a acusação do autor segundo a qual uma ‘refutação’ a teoria do valor-trabalho, refutaria outros segmentos, conceitos e explicações do marxismo.

 

Por último, faz-se necessário pontuar que a teoria do valor-trabalho pode ser empiricamente e cientificamente comprovada, enquanto a teoria do valor-subjetivo não (mesmo pelo motivo de que a Escola Austríaca trabalha com a dedução, e rejeita a ciência, pois eles trabalham pela praxeologia, que por sinal foi fortemente criticada pelo camarada Vínicius Dias de Souza aqui neste texto: https://www.motorideologico.com/single-post/2016/12/27/Uma-Cr%C3%ADtica-%C3%A0-Praxologia).
Nesse sentido da cientificidade da teoria do valor-trabalho, recomendo o texto abaixo de Ernest Mandel, muito bom para quem deseja aprender algo. No item 3 (a lei do valor) do capítulo 1, ele dá exemplos de como as sociedades antigas usavam o tempo de trabalho como referencia pras trocas. Já no item 7 (validade da teoria do valor trabalho) do mesmo capítulo, há 3 provas da teoria.
Além disso, gostaria que também desse uma olhada nesses tópicos para a exemplificação do que eu disse anteriormente, sobre a teoria do valor-trabalho:

1- Evidências Empíricas encontradas:

– Reino Unido: http://journals.sagepub.com/…/abs/10.1177/030981689505500105

– Espanha: https://weeklybolshevik.files.wordpress.com/…/diego-guerrer…

– Suécia: http://reality.gn.apc.org/econ/DZ_article1.pdf

– Capítulo escrito pelo Shaikh sobre a força das evidências empíricas que suportam a TVT:
http://link.springer.com/cha…/10.1007%2F978-1-349-26121-5_15

Encontrado no volume 2 do Marxian Economics a reaprisal:
http://libgen.io/book/index.php…

– Sobre a TVT em Monopoly Capitalism, do Paul Sweezy: https://www.marxists.org/archive/mandel/1967/03/ltv-mcap.htm

– Paul Cockshott, sobre o Valor Científico da TVT: http://users.wfu.edu/cottrell/eea97.pdff

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“Diante disso, não é difícil compreender porque existe tanta resistência dentro da esquerda em aceitar que essa teoria que não faz mais sentido e perdeu espaço sobretudo para teoria marginalista neoclássica. São basicamente quatro erros que podem ser apontados:1 – A teoria do valor-trabalho sustenta que as mercadorias têm valor apenas pelo trabalho que as produzem; no entanto, com essa ideia, elas negligenciam o caráter subjetivo que representa a valoração, além disso, por meio de um exemplo é facilmente observável a incompletude dessa visão míope do valor-trabalho: diamante x água; suponha que esteja no deserto do Saara com o sol escaldante sobre minha cabeça e necessite de água. Porém, ela existe em pequena quantidade, certamente o valor que eu vou dar para aquela água é extremamente elevado. No entanto, se neste mesmo deserto e nestas mesmas condições eu encontrar diamantes em vez de água, o valor que possivelmente eu darei para aqueles diamantes será nulo ou muito pouco. O inverso é verdadeiro, se eu estiver em uma cidade, como Curitiba, e encontrar uma pedra de diamante na rua XV, certamente darei um valor muito maior do que uma garrafa de água da Ouro Fino.

R: Para começar, a teoria do valor-trabalho em stricto sensu serve para o mercado capitalista. Ela funciona dentro do núcleo capitalista e seu mercado, e não para ser entendida de forma atomizada. Ainda mais com exemplos tão superficiais. Valor só existe numa sociedade que produz coisas para serem trocadas. As ideologias da classe dominante, a burguesia, se baseiam na universalização da condição do seu tipo de sociabilidade, como se fosse algo natural.

Mas não faz mal. Marx já preveu esses delírios, como o do exemplo acima, dos economistas vulgares (como ele se referia). Para essa falácia em especial, Marx já dissertava em O Capital I:

‘Uma coisa pode ser valor de uso sem ser valor. É esse o caso quando sua utilidade para o homem não é mediada pelo trabalho. Assim é o ar, a terra virgem, os campos naturais, a madeira bruta etc. Uma coisa pode ser útil e produto do trabalho humano sem ser mercadoria. Quem, por meio de seu produto, satisfaz sua própria necessidade, cria certamente valor de uso, mas não mercadoria. Para produzir mercadoria, ele tem de produzir não apenas valor de uso, mas valor de uso para outrem, valor de uso social.’

Poderíamos ainda trazer esse exemplo para o mundo capitalista, e não um deserto perdido (como se alguém longe da civilização querendo satisfazer necessidades fisiológicas, ou seja objetivas, fosse prova de que existe um valor subjetivo…). O que explicaria o fato de que a água, embora mais útil, tenha um valor menor que o diamante, que quase não serve pra nada nas sociedades capitalistas? É aqui que entra o método histórico-materialista de Marx.

Segundo os austríacos, o diamante tem mais valor porque é mais escasso do que a água, e ambos, em graus diferentes, são úteis.

Marx responde esse dilema, propondo que, por ser mais escasso, o diamante precisa de mais horas de trabalho para ser extraído. Ou seja, se, em uma hora, 10 trabalhadores extraem 100 mil litros d’água, e, no mesmo tempo, com a mesma quantidade de operários, extraem 1g de diamante, isso explicaria a diferença astronômica de preço entre as duas mercadorias.

Passando da escassez para utilidade, o que faz com que as pessoas deem mais valor ao diamante do que a água? A resposta é simples, as características intrínsecas do produto.

A demanda pelo diamante preenche todas as formas de valor descritas por Marx. Da pedra são feitas pulseira, brincos, colares, ou seja, os objetos feitos com o diamante têm valor-de-uso. Já a pedra pode ser vendida ou assumir até mesmo o papel de reserva de valor, portanto tem valor-de-troca.

Na sociedade do século XIX (quando Marx escreveu sua obra), estes itens se apresentavam como úteis através de festas, encontros burgueses e da aristocracia. Hoje, eles se apresentam através de vídeo-clips, revistas, filmes, séries e nos mesmos eventos da elite econômica, como festas milionárias da Dolce & Gabana. O diamante é ressaltado nas imagens de propaganda ou de festas chiques, pela sua forma, tanto que os tipos da pedra variam conforme o brilho.

Para atingir o valor intrínseco é preciso extrair o diamante – que, se for escasso, demandará mais força de trabalho -, lapida-lo, que necessitará de um joalheiro profissional, e passar por longos processos até transforma-lo em mercadoria, e até que o transporte seja feito para X cidade capitalsita.

Sem contar que para objetivar o valor do diamante foi preciso gastar dinheiro com propagandas, filmes, séries, revistas, eventos promocionais, jantares, festas e tudo mais. E isso tudo só é feito através do trabalho humano. Ou seja, para que o diamante tenha valor intrínseco, e que essas características tenham valor social, nos dois casos é preciso trabalho.

Em resumo, o diamante tem bem mais trabalho para ser feito e tornar-se uma mercadoria atrativa no mercado capitalista. Já a água não. E mesmo quando a água pode dar muito trabalho (exemplo: encanamentos e etc), isso só ocorrerá em casos específicos onde esse trabalho será demandado. Afinal de contas, você não paga a mesma coisa por uma água num dia quente, e pela água que você usa para tomar banho. Se duvida, sugiro que cheque sua conta da água.

Há ainda o fator oferta e demanda (o diamante é mais escasso que a água), que incide diretamente no preço do diamante e da água.
“2 – O fato de os clássicos considerarem a utilidade como algo ‘‘objetivo’’ também foi um problema, pois isso induziu ao paradoxo do valor já citado acima, que consistia no exemplo do pão x bebidas raras, embora o pão tivesse maior utilidade, as bebidas raras apresentavam um preço muito maior. Os clássicos apontavam que o pão custava menos pelo fato de ser apresentar um grande valor de uso e um baixo valor de troca, enquanto as bebidas raras apresentam um pequeno valor de uso, mas grande valor troca. No entanto, com a lei da utilidade marginal foi possível uma explicação simples e extremamente técnica que pôs fim ao paradoxo do valor”

R: Embora isso possa ser uma crítica pertinente aos outros clássicos, não procede quanto a Marx. Marx não separa as coisas assim – há diferenças na teoria dele, para a de Smith e Ricardo.

Como o próprio trecho fala: são bebidas ‘raras’, que vão ter mais demanda por serem escassas, o que aumenta o preço;  e é o ‘preço’ (o próprio trecho especificou) que é elevado, e não necessariamente o valor. O próprio mecanismo da oferta e da demanda incidindo no preço resolve essa questão. Não vejo aqui nenhuma refutação a teoria de Marx; poderia ser pertinente se ele ocupasse-se de medir as diferenças de utilidade, como os outros clássicos e como a teoria da utilidade marginal tenta fazer. A utilidade para Marx é apenas uma propriedade, não uma forma de medir algo.

Podemos dificultar mais ainda as coisas, e pensar por outra ótica:

Nesse caso, isso é uma necessidade de marketing específica de sociedades capitalistas, não diz respeito a valor de uso. Essa coisa nas bebidas raras, de “vinho bom” e “vinho de baixa procedência” é bastante relativa e difusa. Não se pode utilizar uma percepção marqueteira moderna para teoria do valor, chega a ser risível.

Também tem o fato de que é a mesma coisa de você analisar o valor do refrigerante. Quando você analisa valor, você avalia o produto (mercadoria) refrigerante, e não o produto “coca-cola” (que é uma marca especificamente) , se não você estará fazendo um estudo da marca (o tal “branding”, que é papel de estudo do publicitário), e não de valor da mercadoria (trabalho do teórico em economia).

Um fato interessante é de a “coca-cola” como exemplo. Quando introduziram a famigerada coca-cola pela primeira vez em comunas pequenas do Sul da Itália (região periférica do país), bem tradicionalistas, acostumadas com sucos de uva e vinhos de produções caseiras. Ao tomar a coca-cola, os italianos menos cosmopolitas (digamos assim) perguntaram se aquilo era alguma espécie de desinfetante e se não fazia mal ao homem. Acharam o sabor horrível, claro, pois não estavam acostumados e não tinham sofrido uma padronização de consumo imposta pela indústria e pelo marketing criador de necessidades básicas.

Coisa parecida também pode ser vista num documentário sobre a “Primavera de Praga”, na época da URSS de Nikita Kruschov. Em uma exposição de produtos norte-americanos em Moscou, as mulheres russas ao tomarem coca-cola diziam que a bebida cheirava a benzina, ou seja, uma nítida depreciação.

Vemos então que, sob duas óticas diferentes (bastando a primeira), esse exemplo é facilmente refutado.

3 – Como apresentado no início, um dos pontos defendidos pela teoria clássica de Smith e Ricardo foi a separação das classes sociais entre capitalistas, proprietários de terra e trabalhadores, bem como apresentar suas rendas respectivas: lucro, aluguéis e salários. Entretanto, os marginalistas modificaram a forma de analisar a sociedade, e englobaram os fatores de produção como determinantes, pois cada fator de produção contribui de acordo com escassez em que são empregados; em síntese, os fatores tendem a aumentar sua produtividade quanto menos abundantes em relação a outros. Os salários não são mais para subsistência como defendiam os clássicos, mas, agora são flexíveis, tanto para cima quanto para baixo, isso vai influenciar toda a teoria neoclássica e keynesiana contemporânea soterrando de vez a ideia marxista de exploração e mais-valia.

 

R: Isso em nada soterra a teoria marxista, pois em primeiro lugar, Marx engloba os fatores de produção também como fatores determinantes, sobretudo em vários cápitulos de ‘O Capital’.

Em segundo lugar, Marx não era adepto de que o salário seria fixamente como algo de subsistência, e de que ele não seria flexível, tal como Ricardo pregava com a sua ‘Lei dos Salários de Ferro’. Isso é algo inclusive encontrado em outros clássicos e contemporâneos de Marx, como Ferdinand Lassalle e sua teoria da ‘Lei dos Salários de Bronze’, e que Marx criticava.

Marx criticava isso nos outros clássicos. Ele era particularmente contra essa ideia de que os salários serviriam apenas para a subsistência (que implicaria numa pobreza absoluta e gradativa). Aliás, ele fez questão de ressaltar sobre como os salários podem ser flexíveis, tanto para cima quanto para baixo. Qualquer dúvida sobre isso, cheque a citação abaixo de Engels sobre o assunto, de uma carta a August Bebel

‘Em terceiro lugar, a nossa gente deixou que lhe impusessem a ‘lei de bronze do salário’ lassalliana, baseada numa concepção econômica inteiramente caduca, a saber: que o trabalhador não recebe, em média, mais do que um salário mínimo e isto porque, segundo a teoria malthusiana da população, há sempre trabalhadores de sobra (era esta a argumentação de Lassalle). Ora bem: Marx demonstrou, minuciosamente, em ‘O Capital’, que as leis que regulam os salários são muito complexas, que tão depressa predomina um fator como outro, segundo as circunstâncias; que, portanto, esta lei não é, de modo algum, de bronze, mas, pelo contrário, muito elástica, e que o problema não pode ser resolvido assim, em duas palavras, como pensava Lassalle. A fundamentação que Malthus dá da lei de Ricardo (falseando este último), tal como pode ver-se, por exemplo, citada noutro folheto de Lassalle, no ‘Manual do trabalhador’, página 5, foi refutada exaustivamente por Marx, no capítulo sobre ‘A acumulação do Capital’. Assim, pois, ao adotar a ‘lei de bronze’ de Lassalle, pronunciaram-se a favor dum princípio falso e duma demonstração falaciosa’.

Se alguém tiver mais alguma dúvida de que o marxismo foi justamente quem refutou isso, e não a ideia de que ele era adepto, sugiro que abram o Manual de Economia Politica da Academia de Ciências da URSS, na seção ‘Salário’:

‘ (…) O marxismo refuta a chamada “lei de ferro do salário”, segundo a qual o salário seria determinado pelo mínimo de meios de existência necessários apenas a sobrevivência do operário, e, em consequência, a luta da classe operária pela elevação dos salários careceria, supostamente, de perspectiva’

Link:
https://www.marxists.org/portugues/tematica/livros/manual/06.htm

Citações que contrariam a ideia da ‘pobreza permanente’ graças ao suposto pensamento (refutado anteriormente) de que o salário seria unicamente por subsistência:

‘Mas assim como a melhoria de vestuário, alimentação, tratamento e um pecúlio maior não suprimem a relação de dependência e a exploração do escravo, tampouco suprimem as do assalariado. O aumento do preço do trabalho, que decorre da acumulação do capital, significa apenas que, na realidade, o tamanho do peso dos grilhões de ouro que o trabalhador forjou para si mesmo permitem torná-las menos constringentes.’ – Karl Marx, “O Capital”

‘Se o dono da força de trabalho trabalha hoje, amanhã terá de repetir o mesmo processo nas mesmas condições de saúde e força. Portanto, seus meios de subsistência devem ser suficientes para mantê-lo em seu estado normal de indivíduo trabalhador. Suas necessidades naturais, tais como alimentos, roupas, combustível e habitação, variam de acordo com as condições climáticas e outras condições físicas de seu país. Por outro lado, o número e a extensão de suas chamadas necessidades vitais, assim como os modos de satisfazê-las, são elas próprias produto do desenvolvimento histórico e dependem, portanto, em grande parte, do grau de civilização de um país, mais particularmente das condições sob as quais e, consequentemente, nos hábitos e no grau de conforto em que se formou a classe dos trabalhadores livres. Em contradição, portanto, com o caso de outras mercadorias, entra na determinação do valor da força de trabalho um elemento histórico e moral. No entanto, em um dado país, em um determinado período, a quantidade média dos meios de subsistência necessários para o trabalhador é praticamente conhecida. ‘ – Karl Marx,” Das Kapital ‘

‘A participação do trabalhador nas mais elevadas, até mesmo satisfações culturais, a agitação por seus próprios interesses, subscrições de jornais, assistir a palestras, educar seus filhos, desenvolver seus gostos etc., sua única parte da civilização que o distingue do escravo é economicamente possível alargando a esfera de seus prazeres em épocas em que o negócio é bom. “- Karl Marx,” Grundrisse’

‘A intenção dos salários … não desenha uma linha dura e rápida. Não é inexorável dentro de certos limites. Há, em todos os tempos (exceto a grande depressão), para cada comércio uma certa latitude dentro da qual a taxa de salários pode ser modificada pelos resultados da luta entre as duas partes em conflito. Salários em todos os casos são fixados por um pechincha, e em um negócio que ele resiste mais tempo e melhor tem a maior chance de obter mais do que o seu devido. Se o trabalhador isolado tentar conduzir sua barganha com o capitalista, ele é facilmente derrotado e tem que se render à discrição, mas se todo um conjunto de operários formam uma organização poderosa, fazer entre si um fundo para permitir-lhes desafiar seus empregadores, se necessário , assim tornar-se capaz de tratar com esses empregadores como um poder, então, e só então, eles têm uma chance de obter mesmo que pequeno, e de acordo com a constituição econômica da sociedade atual, pode ser chamado um salário justo dia para um justo “Dia do trabalho”. “- Friedrich Engels,” O sistema de salários’

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4 – Neste ponto irei colocar integralmente as palavras do professor Ubiratan para facilitar o entendimento e evitar distorções: ‘‘a tradicional separação que os clássicos adotavam entre produção e distribuição, negligenciando o fato de que a natureza dos processos produtivos e distributivos se confunde; a não percepção de que a determinação das taxas de juros decorre essencialmente de um problema de escolha, em que os elementos tempo e incerteza têm peso muito relevante e, por fim, imprecisões no que se refere à definição do objetivo e do método da economia política.’’

R: Em peso, creio que minha explicação anterior acerca do método da economia política já deixou claro que não há um erro na questão da produção e da distribuição, ou a falta de noção de que estes se confundem. Por fim, ele não especifica que ‘imprecisões que se referem a definição do objetivo e método’ são essas, portanto, eu não tenho como trabalhar com algo que não foi explicado, e apenas citado ao léu. Caso o autor se sinta confortável para isso, faz-se necessário essa especificação.

No mais, tempo e incerteza são duas coisas que são sim muito levadas a serio no método marxista.

Especialmente em  ‘Maquinaria e Grande Indústria’, um capítulo histórico de ‘O Capital’, uma das justificativas que leva o capitalista a adiantar capital para modernizar sua fábrica e por consequência a produção (e o que consequentemente irá afetar as taxas de juro), substituindo o trabalho manual pelo trabalho do maquinário, tem a ver com um conjunto de fatores (competição por exemplo). Tudo isso tem a ver com tempo e incerteza. Cito um trecho para deixar isso claro: 

“Logo que se introduz maquinaria em qualquer ramo da produção, aparecem, passo a passo, novos métodos para reproduzi-la mais barato e aperfeiçoamentos que atingem não só partes ou dispositivos isolados, mas toda sua construção. Por isso, em seu primeiro período de vida, esse motivo especial para o alongamento da jornada de trabalho atua de modo mais agudo. As demais circunstâncias permanecendo as mesmas e com uma jornada de trabalho dada, a exploração do dobro do número de trabalhadores exige igualmente a duplicação da parte do capital constante despendida em maquinaria e construções, bem como a da despendida em matéria-prima, materiais auxiliares etc. Prolongando-se a jornada de trabalho, amplia-se a escala da produção, enquanto a parte do capital despendida em maquinaria e construções permanece a mesma. Por isso, não só cresce a mais-valia, mas diminuem as despesas necessárias à exploração da mesma. Na verdade isso também ocorre mais ou menos em todo e qualquer outro prolongamento da jornada de trabalho; aqui torna-se mais importante porque a parte do capital transformada em meio de trabalho é em geral mais importante.”

Ou seja, Marx considerou o tempo e incerteza sim, principalmente dentro do ambiente de concorrência e dentro da assim chamada mais-valia absoluta, onde o dono dos meios de produção aumenta a carga horário fazendo com que o trabalhador produza mais. Porém, percebendo o desgaste natural e intelectual do corpo do trabalhador o capitalista então recorre a mais-valia relativa onde não é mais o tempo da jornada de trabalho que é aumentado, e sim a intensificação do trabalho, ou seja é incluído mais tecnologia que faz com que faz com que o trabalhador produza mais em 8h o que ele só iria produzir em 12h. Um bom livro sobre isso é  “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”.

 

A Teoria da Exploração, de Eugen von Böhm-Bawerk:

Além desses importantes erros analíticos, o economista austríaco Eugen von Böhm-Bawerk também ajudou a apontar os erros da teoria do valor-trabalho, em sua obra “Teoria da Exploração Comunismo-Socialismo”. Böhm apresenta as falhas e incoerências do pensamento de Marx.
1 – A primeira crítica apresentada se refere à teoria do valor-trabalho, conforme exposto ao longo do artigo a ideia de que todo valor de um determinado produto é proveniente do trabalho que custou para ser produzido. No entanto, com os inúmeros exemplos apresentados, ficou evidentemente que essa teoria não faz o menor sentido na atualidade.

R: Não sei exatamente o que ficou provado com seus exemplos, haja vista que mostrei acima que são todos irreais e frutos de uma incompreensão da teoria do valor-trabalho de Marx. Em face disso, passarei adiante.

 
Outra crítica de bastante relevância é que a teoria do valor-trabalho ignora a ideia de TEMPO e RISCO, isto é, a ideia de valor presente e valor futuro. De acordo com Böhm, os marxistas ignoraram esses fatores, pois, como demonstra o autor, há uma diferença no bem de agora e daqui a 10 anos. O que os defensores de Marx pregam é que o trabalhador deveria receber o valor integral pelo produto; no entanto, por desconhecimento e certa ignorância, eles acabam esquecendo que esse mesmo produto apresenta diversos riscos, e que levam um determinado período de tempo para ser produzido, além de que o salário dos trabalhadores tem que refletir justamente o tempo de espera desta produção que acaba se tornando menor que o valor futuro do bem. Portanto, isso anula a teoria da mais-valia, já que evidencia que o valor pago ao trabalhador no período de agora é um adiantamento do lucro futuro, levando em conta o risco e a mudança temporal do valor daquele bem produzido. Vamos supor que a empresa A invista, no ano de 2014, 500 bilhões de reais em bens e serviços para um período de 20 anos, qual é a garantia de fato que daqui a 20 anos a empresa recuperará esse lucro? Nada, sem contar que os 500 bilhões de reais de hoje (2014) não vão ser o mesmo do futuro (2034), pois podem apresentar variações imprevisíveis em virtude do processo de mercado.

R: Essa é a chamada ‘preferência temporal’ de Böhm-Bawerk. Ela foi extensivamente criticada e mostrada como irreal por mim em um artigo, de vários pontos de vista diferentes, e de como nenhum chega sequer a afetar a teoria de Marx.

Deixo o link do artigo abaixo, para você ler separadamente, pois é muito extenso para por aqui nesse espaço:

Além disso,  é interessante a genialidade de Marx nos Grundrisse em sua critica a Bastiat, ao já adiantar que sabia que no futuro haveria pessoas que tentariam justificar a mais-valia segundo os ‘riscos capitalistas’:

‘Todos os economistas, tão logo discutem a relação existente entre capital e trabalho assalariado, entre lucro e salário, e demonstram ao trabalhador que ele não tem nenhum direito a participar das oportunidades do lucro, enfim, desejam tranquilizá-lo sobre seu papel subordinado perante o capitalista, sublinham que ele, em contraste com o capitalista, possui certa fixidez da renda mais ou menos independente das ‘grandes aventuras’ do capital. Exatamente como Dom Quixote consola Sancho Pança [com a ideia] de que, embora certamente leve todas as surras, ao menos não precisa ser valente’

3 – Existe outra grande incompletude da teoria do valor-trabalho, trata-se do trabalho qualificado, que o próprio Marx aponta como exceção. Isto é, o trabalho de um artista não pode ser mensurado no mesmo nível do trabalho médio comum. Exemplo: um artista como Picasso não tem o mesmo valor na produção de seus bens que o operário na fábrica da Renault de Curitiba. Portanto, os valores de troca dos bens de Picasso são muito maiores do que do operário da Renault.

R: Em primeiro lugar, Marx não aponta como uma ‘exceção’, mas sim como algo que não é o foco do seu trabalho, por ser algo tão raro que não faz diferença em sua teoria. É como eu querer dizer que o fato de existir pessoas com doenças psíquicas que não colocam fim na sua vontade de consumo, refutaria a teoria da utilidade marginal; o que obviamente, não é o suficiente. 

Bem, Marx explica e muito bem sobre casos assim. Para isso eu usarei um exemplo simples que já foi trabalhado em outro artigo por mim. A explicação desse caso também cabe no caso do quadro do Picasso que foi mencionado pelo autor do texto criticado, ou seja, de bens irreproduzíveis. Esse exemplo que usarei diz respeito a venda de ‘O Capital’ original vendido por milhões, o que alguns palpiteiros chegaram a dizer que ‘refutaria a própria teoria de Marx’.

http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2016/06/primeira-edicao-de-o-capital-de-karl-marx-e-leiloada-por-us-108-milhao.html

Essa edição original de O Capital que foi leiloada, de acordo com o próprio conteúdo da teoria do valor-trabalho que se encontra nela, não tem valor e sim preço.


No Livro I de O Capital, Marx explica a categoria “mercadoria” a partir das abstrações mais simples e gerais possíveis do capitalismo (tomando como dados a equivalência entre oferta e demanda ou o equilíbrio entre valor e preço, por exemplo). Nesse primeiro nível de abstração, que é provisório, e que de acordo com o próprio método da ‘Contribuição à Crítica da Economia Política‘ vai do mais geral e abstrato ao mais específico e concreto, do mais simples ao mais complexo, a mercadoria é todo produto do trabalho humano objetivado com propriedades naturais qualitativas e socialmente úteis para satisfazer necessidades e desejos humanos que tem como finalidade a sua comercialização.

Portanto, toda mercadoria teria valor de uso, valor e valor de troca no Livro I. Todavia, já no próprio Livro I, Marx pontua a existência de coisas que tem valor de uso, mas não tem valor e valor de troca (como a luz, o ar, as terras virgens, etc); e de coisas que tem valor de uso e são produto do trabalho humano, mas não tem valor e valor de troca porque não foram produzidas para ir ao mercado serem trocadas, e sim para satisfazer diretamente as próprias necessidades do seu produtor imediato.


Contudo, Marx evidencia que há valores de uso que não são produzidos pelo trabalho humano – portanto, não tem valor -, mas que mesmo assim são trocados no mercado, sendo então também caracterizados como mercadorias. O exemplo mais notável disso são as propriedades fundiárias (terras e terrenos), que não são produzidas pelo trabalho humano, são totalmente legadas pela natureza não humana, abstraindo o pouco trabalho de apropriação desses tipos de mercadoria. Então, Marx se pergunta: como podem ser comercializadas essas mercadorias se elas não tem nenhum padrão social objetivado nelas – mesmo que seja o padrão de uma relação social escondida pelo valor de uso através do fetichismo da mercadoria -, como o trabalho humano vivo abstrato socialmente necessário para sua produção, que outras mercadorias possuem?


A resposta de Marx no Livro III de O Capital é que essas mercadorias que não são produto do trabalho humano ou de um trabalho humano mensurável (por ter sido um trabalho ínfimo ou extremamente longo, de séculos, que o torna inapreensível) não tem valor e sim preço. Isso significa que, a categoria mercadoria não é mais somente o que é produto do trabalho humano para ir ao mercado ser trocada, mas também tudo que é privatizável, ou seja, que se possa privar o seu uso generalizado por qualquer um para trocá-la por outras coisas, principalmente por mercadorias que são produto do trabalho humano, e que assim tem valor (é dessa nova definição que vem a ideia de que Marx teria se inspirado em Rousseau).


Assim, as mercadorias que não são produtos do trabalho humano, ou de trabalho humano mensurável, tem seus preços definidos com base na expectativa de criação de valor na economia produtiva e sua realização nas taxas e massas de lucro, a partir da quantidade de dinheiro em circulação no mercado que se comporta como um parâmetro de demanda.Por exemplo: mesmo uma terra virgem antes de qualquer trabalho para poder consumir sua utilidade, ela é comercializada com referência na especulação do que nela pode ser produzido e trabalhado, ela tem valor da renda que gera com o trabalho que nela poderá se  empregar para produzir.


Com isso, podemos constatar que o que é demandado nesse bem leiloado não é o conteúdo da obra O Capital, porque esse é reprodutível, e sim o caráter único da sua primeira peça. É essa unidade original, e só ela, que é demandada, que como tal, como primeira peça, portanto, como símbolo ou relíquia, é irreproduzível, por isso é única, extremamente escassa, fazendo sua oferta como relíquia ser muito menor que a demanda, incidindo diretamente no seu preço, o deixando muito alto.


Todavia, para essa peça se tornar um símbolo tão demandado, um valor de uso tão ‘caro’ aos desejos da fantasia humana, ela precisou ser produzida como símbolo/relíquia pelas experiências que se sucederam à existência do seu conteúdo, à trajetória do seu autor e de todo o marxismo. Um processo de mais de 150 anos, mesmo que não necessariamente voluntário, para que a primeira unidade dessa obra ganhasse esse status no seu valor de uso como símbolo e relíquia. Assim é também para o caso do quadro de Picasso, mencionado pelo autor do texto.

E assim como obras de arte pré-moderna e moderna (excluindo a arte contemporânea), essa primeira edição é uma relíquia produzida como tal por um trabalho humano e social que é inapreensível para ser mensurado em abstrações de quantum de dispêndio de energia, músculos e nervos expressos num tempo socialmente necessário para sua produção. É uma coisa que, como diria Walter Benjamin, tem uma aura, uma trajetória que a torna única. Portanto, elas não tem valor, mas por serem privatizáveis elas podem ser precificadas com base na demanda que a quantidade de dinheiro em circulação na economia indica, tendo como base o quantum de valor está sendo realizado como lucro na economia de produção de mercadorias que é produto do trabalho humano para o mercado.

Outros autores da sociologia econômica e da sociologia da cultura, como Weber e Bourdieu, criaram teorias de mensuração do valor simbólico das coisas que não tem valor “econômico” (no sentido da materialidade do trabalho). Esses autores entendem que são as disputas por consagração dos bens de satisfação simbólica, por parte dos agentes sociais alocados nas posições da estrutura de atividades que tem uma autonomia relativa do todo social, como um microcosmo social (que Bourdieu chama de campo simbólico), que produzem o seu valor simbólico.


Isso se dá pelo fato da sociedade legitimar o juízo desses agentes fechados em si mesmos, na sua luta interna, para consagrar o que tem valor e o que não tem: o que está fora do campo; o que está dentro, mas é dominado; e o que está dentro, mas é dominante.
Então, é quanto mais autonomia cada campo de atividades simbólicas adquire perante a economia e a política, que seus agentes aumentam o valor simbólico dos bens que produzem, os fazendo ser cada vez mais impagáveis monetariamente, como o quadro da Monalisa ou do Picasso, por exemplo.

A teoria marxista exclui também como produtos do princípio do valor-trabalho os ‘‘bens raros’’ uma vez que não podem ser produzidos em massa, pois são extremamente escassos como matéria-prima ou na quantidade de bens produzidos. Exemplo, um vinho raríssimo de uma safra de 1980, produzido num determinado clima, em região específica com os elementos que só ele apresenta. No entanto, os marxistas tentam utilizar isso como exceção, mas ignoram que umas parcelas significativas dos bens econômicos são raras, é o caso de: livros, bebidas alcoólicas, moedas, obras de arte.

R: Já dissertei sobre isso um pouco acima, em outra questão, especificamente acerca (e eu mencionei) de ‘vinhos raros’.

Em resumo: escassez apenas infere que algo dá mais trabalho para ser encontrado ou feito, e que portanto, terá mais valor; portanto, isso só prova a teoria do Marx.

Em seguida a lei da oferta e da demanda irá agir no preço; por algo como um vinho desse tipo ser raro ou escasso, a oferta será menor que a demanda, aumentando o preço de forma assustadora.

Quanto ao que foi mencionado de obras de artes, livros e etc, já foi respondido exatamente na questão acima, onde o autor mencionou uma obra do Picasso e eu expliquei, juntamente com o próprio caso do ‘O Capital’ original que foi vendido por milhões . Portanto, prosseguiremos.

Assim como uma parte importante dos bens econômicos são frutos de trabalhos qualificados, exemplo construção de portos, aeroportos, ferrovias, rodovias, imóveis, automóveis, aeronaves, embarcações, alimentos. Em suma, basicamente todos os bens econômicos não são contemplados pela regra geral do valor-trabalho”

R: Ele deve estar falando sobre a diferença entre trabalho simples e complexo. E há uma confusão na forma que foi entendida essa diferença aí, uma confusão entre substância e grandeza de valor. Trabalho simples e trabalho complexo não tem uma substância diferente entre si, ou seja, não são qualitativamente coisas diferentes, e sim quantitativamente diferentes entre si implicando externamente numa diferença de qualidade.

Isso quer dizer que no trabalho complexo há trabalho simples subsumido, ou seja, o trabalho complexo é composto por quantidades de trabalho simples anteriores que o fizeram existir. Daí, a diferença entre um e outro está na grandeza de valor, que é a sua expressão no tempo socialmente necessário para a produção. Portanto, o que importa para o capitalista é qual o tempo total que sua unidade produtiva levou para produzir sua oferta de mercadorias e qual a sua relação com o tempo médio que todos os demais concorrentes do mesmo nicho de mercado levam para produzir o mesmo montante de oferta. Então a diferença do trabalho simples e do trabalho complexa fica borrada pelo tempo de duração do fluxo de produção como um todo.

Por isso, um exemplo da ferrovia (como foi citado) não tem cabimento nenhum. O empresário desse negócio simplesmente identifica qual o custo da produção total de sua oferta – porque ele não pode produzir separadas cada parte do trajeto possível de vender separadas nas viagens -, chegando no tempo de produção dessa sua oferta por fluxo e qual seu equivalente em dinheiro no nicho de mercado, conforme a média de tempo de todos os concorrentes, para saber qual é o preço que tem de vender essa oferta inteira. Daí ele pode distribuir esse preço total em frações por trajeto vendido separadamente conforme à demanda que se tem por cada trajeto. A mesma coisa é aplicada para o resto.

4 – Não é segredo para ninguém que existe uma grande parcela da população que é extremamente mal remunerada, mas isso não se deve pela maldade dos capitalistas, isso mostra que muitas vezes a remuneração do funcionário está abaixo do mínimo necessário para a pessoa ter uma vida minimamente digna, sendo inferior a própria lei do valor trabalho. Os casos mais comuns são de mão de obra escrava em países com Índia, China, Paquistão e Vietnã, a exploração da mão de obra infantil, mão de obra feminina (bordados, malharia, costura). Isto é, são produtos com um valor extremamente baixos que são inferiores ao número de horas trabalhadas pelos operários. Novamente mais um exemplo para endossar essa realidade é o caso de imigrantes bolivianos que vêm para São Paulo trabalhar nas malharias, ganhando cerca de R$ 1,50 por hora e trabalhando em média de 12 a 16 horas por dia, em condições sub-humanas. Posteriormente, esses produtos são vendidos abaixo dos preços do número de horas trabalhadas, mas, como a quantidade vendida é tão grande, isso acaba compensando o baixo valor.

R: Ele está querendo dizer que esses exemplos de atividades mal remuneradas são trabalho complexo (ou qualificado), por isso deveriam valer mais. Ele está negligenciando o fato que a substância do valor não é o quantum de trabalho que cada produção isolada, tomada em abstrato, objetiva nas suas mercadorias, e sim o trabalho socialmente necessário. Então, essas atividades citadas tem concorrentes que com forças produtivas mais avançadas produzem mais rápido. Portanto, essas atividades manuais estão muito abaixo da média social do tempo necessário de produção do tipo de coisa que produzem, e o valor está na média social do tempo necessário de produção e não no tempo de cada produtor isolado.

5 – Há um problema no que tange o valor de troca de um bem e seu custo de quantidade de trabalho, mas, devido aos mecanismos de demanda e oferta o valor de uso varia, portanto fica acima ou abaixo do trabalho impregnado naqueles bens, não há uma constância e uma fixação do valor de troca.

R: Confundiu tudo. Valor de uso diz respeito a uma utilidade social e objetiva, isso não varia com a oferta e a demanda, é uma propriedade fixa. Um tênis não deixa de servir para calçar, definitivamente a oferta e a demanda não tem nada a ver com isso.

Há uma constância no valor de troca sim, mesmo pelo fato de que ele não é medido pelo seu preço (delimitado pela oferta e demanda), mas sim pelo tempo socialmente necessário para a produção. Essa foi talvez a questão mais ‘nada a ver’ de todas.

6 – Erro metodológico, esse também merece destaque, Eugen Böhn destaca que Marx buscava uma característica comum do valor de troca, essa característica foi o trabalho. Essa busca pela característica comum é um grande erro metodológico como aponta o próprio autor:

‘‘Desde o começo, ele só coloca na peneira aquelas coisas trocáveis que têm a característica que ele finalmente deseja extrair como sendo a “característica em comum”, deixando de fora todas as outras que não a têm. Faz isso como alguém que, desejando ardentemente tirar da urna uma bola branca, por precaução coloca na urna apenas bolas brancas. Ele limita o campo da sua busca da substância do valor de troca às “mercadorias”. Esse conceito, sem ser cuidadosamente definido, é tomado como mais limitado do que o de “bens” e se limita a produtos de trabalho, em oposição a bens naturais. Consequentemente, fica óbvio que, se a troca realmente significa uma equiparação que pressupõe a existência de algo “comum da mesma grandeza”, esse “algo comum” deve ser procurado e encontrado em todas as espécies de bens trocáveis: não só nos produtos de trabalho, mas também nos dons da natureza, como terra, madeira no tronco, energia hidráulica, minas de carvão, pedreiras, jazidas de petróleo, águas minerais, minas de ouro etc”
Excluir, na busca do algo “comum” que há na base do valor de troca, aqueles bens trocáveis que não sejam bens de trabalho é, nessas circunstâncias, um pecado mortal metodológico. É como se um físico que quisesse pesquisar o motivo de todos os corpos terem uma característica comum, como o peso, por exemplo, selecionasse um só grupo de corpos, talvez o dos corpos transparentes, e, a seguir, cotejasse todas as características comuns aos corpos transparentes, terminando por demonstrar que nenhuma das características — a não ser a transparência — pode ser causa de peso, e proclamasse, por fim, que, portanto, a transparência tem de ser a causa do peso. Isso induz a crermos que Marx estava disposto a encontrar qualquer elemento que pudesse vir a ser uma identidade comum para satisfazer sua teoria.’’

R: Como já explicado algumas questões acima, ele não negligencia isso, tal como estabelece que a medida deva ser o preço – caso não agregue nenhum trabalho – baseado na especulação de renda ou trabalho produzido para isso, como no caso das terras virgens, por exemplo. Sugiro que leia mais sobre isso algumas questões acimas, na questão que você mencionou uma obra de Picasso, que já foram dissertadas logo no começo sobre as questões de objetos naturais. Isso é claro, abstraindo totalmente do fato de que para retirar carvão, petróleo e etc, exigirá trabalho.

Por último, só o trabalho gera valor porque ele gasta músculo e cérebro pra trabalhar.
O trabalho humano gera valor porque você transforma uma árvore numa canoa. Você de fato muda a natureza através de uma atividade pensada.

Um martelo só funciona se utilizado por um homem em uma atividade específica. Dê um martelo a uma máquina ou peça pra um homem construir uma casa somente com uma ferramenta. Não dá, trabalho não é uma atividade desinteressada, ele tem um motivo.

Para todos os efeitos vimos que, longe da conclusão do autor segundo a qual a teoria do valor-trabalho estaria soterrada com esses erros, vimos que eles basicamente apenas advém de uma má compreensão dos desígnios e do que ela realmente diz.

Espero ter ajudado na compreensão do leitor.

Rian Lobato

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