Artigo traduzido deste: https://www.google.com.br/amp/s/anti-imperialism.org/2013/05/26/an-obituary-to-rothbards-critique-of-marxs-economics-part-1/amp/

A critica de Rothbard se encontra no livro  “Classical Economics, An Austrian Perspective of Economic Thought, Volume 2”, onde ele se dedica a desqualificar o pensamento marxista em um capítulo especial.

As citações em itálico e negrito são as citações de Rothbard no livro.


Ele começa dizendo:

“[Marx] criou um verdadeiro tecido de falácias. Cada ponto da sua teoria é errado e falacioso. O sistema marxista está em frangalhos e ruínas absolutos; O “argumento” da teoria marxista “explodiu” muito antes de seu “arrebentar” predito do sistema capitalista. Longe de ser uma estrutura de leis “científicas”, além disso, a estrutura foi construída como gelatina, e reforçada em desesperadamente com o objetivo messiânico, fanático e enlouquecido de destruição da divisão do trabalho e, na verdade, da própria individualidade do homem, para a criação apocalíptica de uma alegada e inevitável ordem mundial coletivista, uma variante ateísta de uma venerável heresia cristã “. – Murray Rothbard

De acordo com Rothbard:

“Marx insere seu erro crucial já no início de seu sistema. O fato de duas commodities poderem ser trocadas uma pela outra em certa proporção, não significa que elas sejam, portanto, ‘iguais’ em valor e possam ser ‘representadas por uma equação’. Como aprendemos desde Buridan e os escolásticos, duas coisas apenas podem ser trocadas umas pelas outras, porque são desiguais em valor para os dois participantes na troca”.

O que já se entende disso, é que Rothbard não leu Marx. Marx diz no capítulo dois de “O Capital” que:

“Todas as mercadorias são não-valores de uso para os seus possuidores e valores de uso para os seus não-possuidores. Sob todos os aspectos, portanto, elas têm de mudar de mãos”

Evidentemente, Rothbard tem tanto desprezo por seus leitores que ele assume que eles não leram os dois primeiros capítulos de O Capital. E, claro, tão desprezo por seus leitores que ele não os leu ele mesmo. Além disso, os primeiros capítulos de O Capital são a análise de Marx da mercadoria, ou a forma social básica em que os produtos do trabalho se manifestam em um modo de produção capitalista, e não do ato de troca em si, como sugere Rothbard.

Marx estabelece que a mercadoria tem um duplo aspecto: tem um aspecto natural, o valor de uso, e um aspecto social, seu valor. Este valor não pode ser visto enquanto observamos a mercadoria de forma isolada, temos de forçar esta mercadoria numa relação de troca com outra mercadoria para que o valor nela contida se manifeste. A forma de manifestação do valor é o seu valor de troca. Quando Marx diz que uma determinada mercadoria se troca em diferentes proporções com outras mercadorias e, portanto, tem a mercadoria dada mais de um valor de troca, ele define explicitamente o valor de troca como a quantidade da outra mercadoria que está sendo trocada com a nossa. Quando o valor se manifesta como valor de troca, entende-se como o valor de uso da outra mercadoria que estamos adquirindo. Por exemplo, se trocarmos 20 jardas de linho por um casaco, temos esta equação:

20 jardas de linho = 1 oz de ouro

O valor da primeira mercadoria (linho) é expresso como um valor relativo, valor em relação a alguma outra coisa. Esta é a forma relativa de valor. O ouro, em vez disso, é a nossa forma equivalente de valor, uma vez que é um equivalente do primeiro.

Podemos adicionar mais relacionamentos com a oz de ouro, como:

1 casaco = 1 oz de ouro
10 lbs. De chá = 1 oz de ouro
40 lbs. De café = 1 oz de ouro
1 quarto de milho = 1 oz de ouro
(pra quem não sabe o que é a unidade quarto: https://pt.wikipedia.org/wiki/Quarto_(massa)

A oz de ouro agora se torna um equivalente geral, servindo como uma expressão de valor para todas as outras commodities. Por meio do costume social, a oz de ouro pode agora ser entendida conceitualmente como a mercadoria monetária predominante para nosso exemplo. Quando dizemos que 1 casaco, 10 lbs. De chá, 40 lbs café e 1 quarto de milho são iguais (valem) 1 oz de ouro, segue-se logicamente que 1 casaco = 10 lbs de chá = 40 lbs de café = 1 quarto de milho. A afirmação de Rothbard gira em torno do axioma sobre o que permite que a troca aconteça, mas independentemente da qualidade individual, a troca é um jogo de soma zero no momento em que paramos de olhar para a parte utilitária somente, e começamos a olhar o dinheiro e valor.

Na verdade, os dois participantes na troca veem uma desigualdade na satisfação que suas respectivas commodities podem dar a eles, no entanto, Marx não está preocupado com isso, ele não está investigando o que permite que as commodities possam ser trocadas no mercado, ele está analisando a própria mercadoria em seus vários aspectos. O que torna o trabalho vivo criador de valor é a produção capitalista de mercadorias, na qual a relação material entre as mercadorias representa uma relação entre os seus proprietários. Esses proprietários de mercadorias ocupam papéis de produção específicos e aparecem no mercado como produtores independentes que realizam trabalhos privados. Esses trabalhos são, na maioria dos casos, trabalhos sociais porque, produzindo para troca, eles satisfazem necessidades sociais. Os trabalhos sociais atuam assim como mediadores entre produtores independentes em uma sociedade atomizada. O trabalho humano, como meio através do qual os produtores independentes estão conectados, é o vínculo social que une a sociedade.

Podemos tentar demonstrar isso citando um experimento de pensamento do marxista Ernest Mandel:

“Imagine por um momento uma sociedade em que o trabalho humano vivo tenha desaparecido por completo, isto é, uma sociedade em que toda a produção tenha sido 100% automatizada. Naturalmente, enquanto permanecemos no atual estágio intermediário, no qual algum trabalho já é totalmente automatizado (ou seja, um estágio em que não empregam nenhum trabalhador) e isso existe ao lado de outra situação em que o trabalho humano ainda é utilizado, não há nenhum problema teórico em especial, uma vez que se trata apenas da transferência de mais-valia de uma empresa para outra. É uma ilustração da lei de equalização da taxa de lucro, que será explorada mais tarde. Mas vamos imaginar que este desenvolvimento foi empurrado para o seu extremo e o trabalho humano foi completamente eliminado de todas as formas de produção e serviços. O valor pode continuar a existir sob estas condições? Pode haver uma sociedade onde ninguém tem uma renda, mas as commodities continuam a ter um valor e a ser vendido? Obviamente, tal situação seria absurda. Uma enorme massa de produtos seria produzida sem que essa produção gerasse renda, já que nenhum ser humano estaria envolvido nessa produção. Mas com certeza alguém iria querer “vender” esses produtos, para os quais não havia mais compradores! É óbvio que a distribuição de produtos em tal sociedade deixaria de ser efetuada sob a forma de uma venda de commodities e, de fato, a venda se tornaria ainda mais absurda por causa da abundância produzida pela automação geral. Exprimida de outra maneira, uma sociedade na qual o trabalho humano seria totalmente eliminado da produção, no sentido mais geral do termo, com serviços incluídos, seria uma sociedade na qual o valor de troca também havia sido eliminado. Isso prova a validade da teoria, pois no momento em que o trabalho humano desaparece da produção, o valor também desaparece com ele. “- Ernest Mandel, ‘Introdução à teoria econômica marxista’.

O fato de Rothbard ignorar completamente a metodologia de Marx e se limitar a uma justaposição de sua própria teoria com a de Marx mostra que sua crítica da economia marxista não é imanente, nem lida com o próprio método de Marx. O argumento marxista é simplesmente não abordado e outro quadro externo de pensamento é proposto.Essa diferença torna não só a critica inútil, como mostra que Rothbard não consegue entender o pensamento marxista. Não só isso como, mesmo considerando o pensamento de Rothbard, ele ainda está errado na própria ótica, como demonstrado anteriormente.

A partir dessa posição, Rothbard prossegue:

“Como fundir uma miríade de qualidades e habilidades diferentes do trabalho em uma ‘hora de trabalho “homogênea e abstrata” ‘? Aqui, retomando uma sugestão de Ricardo, Marx insere os conceitos de ‘médio’ e ‘normal’. Tudo é uma média. Mas como é essa média obtida? É feito por ‘pesos’, pois com maior qualidade, o trabalho excepcionalmente produtivo ‘pesa mais forte’ em unidades de tempo de trabalho do que em quantidade de tempo de trabalho de um trabalhador não qualificado. Mas quem decide os pesos?” (*)

(*) Exemplo de onde Marx utilizou o termo ‘peso’:

( “Observamos anteriormente que não importa ao processo de criação da mais valia que o trabalho de que se apossa o capitalista seja trabalho simples, trabalho social médio, ou trabalho mais complexo, de peso específico superior” – https://www.marxists.org/portugues/marx/1867/ocapital-v1/vol1cap07.htm ) – Marx

 

O que podemos concluir da citação anterior de Rothbard, é que ele mais uma vez fracassa na compreensão do conceito de trabalho simples e complexo de Marx. Especificamente, ele está errado quando apresenta trabalho complexo como trabalho “excepcionalmente produtivo”, confundindo complexidade com intensidade. Quando Marx fala de trabalho complexo, ele não se interessa pela produtividade. Para ele, o trabalho complexo é o nível de qualificação média exigido para o emprego numa determinada forma de trabalho, que se distingue da qualificação individual do produtor único no contexto de uma mesma profissão.

Por exemplo, enquanto o trabalho do médico exige, em média, um alto nível de qualificação, diferentes médicos apresentam diferentes graus de experiência, formação e habilidade. Eles diferem uns dos outros em termos de destreza ou habilidade de seu trabalho.
Como deve ser óbvio, o produto de um trabalho complexo não é apenas o resultado do trabalho direto que é gasto diretamente em sua produção, mas também do trabalho necessário para a formação do trabalhador na profissão dada. O último trabalho, também entra no valor do produto, e o torna mais caro. A sociedade paga pelo produto do trabalho qualificado, um equivalente ao valor que os trabalhos qualificados teriam criado se tivessem sido consumidos diretamente na sua forma simples, e não na formação de uma força de trabalho qualificada. O trabalho despendido na formação dos produtores de uma dada profissão entra no valor do produto de trabalho complexo, e o valor médio do produto de uma hora de trabalho em profissões onde a formação exige gastos de mão-de-obra por numerosos concorrentes será maior do que o valor médio de uma hora de trabalho em profissões em que estas dificuldades não existam. Esta circunstância aumenta o valor do produto do trabalho altamente complexo.

Rothbard continua:

“O lucro, para Marx, é derivado apenas da exploração do trabalho; É a mais-valia sobre os salários necessários para a subsistência do trabalho. Os lucros, por outro lado, não têm nada a ver com a quantidade de capital investido; Pois o capital é apenas a matéria morta, a mão-de-obra armazenada ou congelada e, portanto, não pode mais ser “explorada” para proporcionar lucros correntes “.

Na verdade, a massa total de lucro é derivada da exploração de mão-de-obra, mas não é o único determinante do lucro de uma empresa individual. Capital constante também é, bem como estratégia de mercado, status de monopólio e outros fatores. Ou seja, enquanto os lucros são o resultado da exploração, o montante específico de lucro adquirido através de qualquer atividade comercial é determinado por muitos outros fatores.

Rothbard passa então a um outro argumento:

“O que determina o salário, o montante que ‘de má vontade os operários concedem à classe capitalista’? Aqui Malthus e a lei de ferro dos salários fazem a sua aparência vital na obra de Marx, determinando os salários em todos os momentos aos meios de subsistência. […] Deve-se enfatizar que a chamada Lei de Bronze dos Salários (originalmente de Lassalle) é crucial para todo o sistema de Marx.”

 

Rothbard está atacando um espantalho, e dos grandes. Atribuir intencionalmente Marx com as idéias de Lasalle (que foi atacado justamente por essa razão), prova o nível ridículo de argumentação. A verdade é que Marx e Engels se opunham fortemente à lei de bronze de salários de Lasalle, eles eram totalmente contra.

Marx em “Crítica do Programa de Gotha”, diz:


“Da ‘lei de bronze dos salários’, como se sabe, nada pertence a Lassalle, a não ser a expressão «de bronze», que ele foi buscar às «leis eternas, às grandes leis de bronze» de Goethe. A expressão de bronze é a senha pela qual os crentes ortodoxos se reconhecem. Mas se eu admitir a lei com o selo de Lassalle e, por conseguinte, na acepção em que ele a toma, é preciso que admita igualmente o seu fundamento. E que fundamento! Como o mostrava Lange, pouco após a morte de Lassalle, é a teoria malthusiana() da população (pregada pelo próprio Lange). Mas se esta teoria é correcta, eu não posse abolir a lei, mesmo que suprima cem vezes o salariato, porque nesse caso a lei não rege só o sistema do salariato, mas todo e qualquer sistema social. É precisamente com base nisto que os economistas, desde há cinquenta anos e mais, têm demonstrado que o socialismo não pode suprimir a miséria, determinada pela natureza das coisas, mas apenas generalizá-la, espalhá-la simultaneamente por toda a superfície da sociedade!

Mas o principal não é isso. Abstraindo completamente da falsa versão lassalliana desta lei, o recuo verdadeiramente revoltante consiste no seguinte:

Desde a morte de Lassalle que o nosso Partido se abriu à perspectiva científica segundo a qual o salário do trabalho não é o que parece ser, a saber, o valor (ou o preço) do trabalho, mas tão-somente uma forma disfarçada do valor (ou do preço) da força do trabalho. Assim, duma vez por todas, estava posta de parte a velha concepção burguesa do salário, bem como todas as críticas até então dirigidas contra ela, e estava claramente estabelecido que o operário assalariado só é autorizado a trabalhar para assegurar a sua própria existência, por outras palavras, a existir, conquanto trabalhe gratuitamente em certo tempo para os capitalistas (e, por conseguinte, para os que, com estes últimos, vivem de mais-valia); que todo o sistema de produção capitalista visa prolongar este trabalho gratuito pela extensão do dia de trabalho ou pelo desenvolvimento da produtividade, quer dizer, por uma maior tensão da força de trabalho, etc.; que o sistema de trabalho assalariado é, por consequência, um sistema de escravidão e, a falar verdade, uma escravidão tanto mais dura quanto mais se desenvolvem as forças sociais produtivas do trabalho, seja qual for o salário, bom ou mau, que o operário recebe. E agora que esta perspectiva penetra cada vez mais no nosso Partido, volta-se aos dogmas de Lassalle, quando se deveria saber que Lassalle ignorava o que é o salário e que, na peugada dos economistas burgueses, tomava a aparência pela própria coisa.”

E agora, Engels sobre o assunto, de uma carta a August Bebel:

 

” (…) Em terceiro lugar, a nossa gente deixou que lhe impusessem a «lei de bronze do salário» lassalliana,baseada numa concepção económica inteiramente caduca, a saber: que o trabalhador não recebe, em média, mais do que um salário mínimo e isto porque, segundo a teoria malthusiana da população, há sempre trabalhadores de sobra (era esta a argumentação de Lassalle). Ora bem: Marx demonstrou, minuciosamente, em O CAPITAL, que as leis que regulam os salários são muito complexas, que tão depressa predomina um factor como outro, segundo as circunstâncias; que, portanto, esta lei não é, de modo algum, de bronze, mas, pelo contrário, muito elástica, e que o problema não pode ser resolvido assim, em duas palavras, como pensava Lassalle. A fundamentação que Maltus dá da lei de Ricardo (falseando este último), tal como pode ver-se, por exemplo, citada noutro folheto de Lassalle, no «Manual do trabalhador», página 5, foi refutada exaustivamente por Marx, no capítulo sobre «a acumulação do Capital». Assim, pois, ao adoptar a «lei de bronze» de Lassalle, pronunciaram-se a favor dum princípio falso e duma demonstração falaciosa”.


Rothbard continua:

“Para Marx, o valor e o preço de todo bem é determinado pelo seu custo, isto é, pela quantidade de horas de trabalho incorporadas em sua produção. Marx acreditava que, no mercado, os capitalistas pagavam aos trabalhadores o “valor da sua força de trabalho”, pelo que não se referia (evidentemente) à sua produtividade ou produtividade marginal, mas ao “custo” de produzir e manter o trabalho, o custo ou a quantidade de horas de trabalho necessárias para produzir os meios de subsistência dos trabalhadores”

Vamos ser claros: para Marx, apenas o valor é determinado pela despesa de mão-de-obra (um sentido melhor seria labor expenditure, do inglês, do qual Marx já puxa para explicar o trabalho abstrato depois).

Em vez disso, o preço depende de muitos fatores, e tem a finalidade de redistribuir o valor para ‘recompensar’ os capitalistas mais produtivos, permitindo que eles vendam bens sob o tempo de trabalho socialmente necessário, obtendo o valor dos capitalistas de baixa produtividade que produzem acima do tempo de trabalho socialmente necessário mas são forçados a vender no tempo de trabalho socialmente necessário. Esta é a apropriação de valor em troca, que podemos chamar de “super lucro”. Uma empresa não está literalmente roubando valor de outras empresas, em vez disso, mais valor vai para a primeira empresa (mais do que ela realmente criou), enquanto menos vai para seus rivais.

Na realidade, o valor da força de trabalho é determinado pelo valor das necessidades necessárias para produzir, desenvolver, manter e perpetuar a força de trabalho, com algumas características peculiares que distinguem o valor da força de trabalho, dos valores de todas as outras mercadorias. De acordo com Marx, as características peculiares que distinguem a força de trabalho de todas as outras mercadorias estão relacionadas com a presença de um “elemento histórico ou social” na primeira:

“O valor da força de trabalho é formado por dois elementos – um, meramente físico, o outro, histórico ou social. O seu limite último é determinado pelo elemento físico, o mesmo é dizer: para se manter e reproduzir, para perpetuar a sua existência física, a classe operária tem de receber os meios de subsistência absolutamente indispensáveis para viver e se multiplicar. O valor destes meios de subsistência indispensáveis forma, por conseguinte, o limite último do valor do trabalho”- Karl Marx, “O Capital”

“Como resultado do elemento histórico ou social no valor da força de trabalho, esse valor ‘está determinado por um padrão de vida tradicional de cada país. Não é mera vida física, mas é a satisfação de certas necessidades que brotam das condições sociais nas quais as pessoas são colocadas e criadas. […] O elemento histórico ou social que entra no valor do trabalho pode ser expandido ou contraído, ou completamente extinguido, de modo que nada permanece senão o limite físico”- Karl Marx, “O Capital”

O valor da força de trabalho é determinado, como no caso de qualquer outra mercadoria, pelo tempo de trabalho necessário para a produção e consequentemente também a reprodução deste artigo especial (…) Em outras palavras, o valor da força de trabalho é o valor dos meios de subsistência necessários para a manutenção do trabalhador “- Karl Marx,” O Capital “

No entanto, os desejos naturais de um trabalhador, como alimentos, roupas, combustível e moradia, variam de acordo com as condições climáticas e outras condições físicas de seu país. Por outro lado, o número e a extensão de seus supostos desejos necessários, assim como os modos de de satisfazê-las, são elas próprias o produto do desenvolvimento histórico e dependem, portanto, em grande parte, do grau de civilização de um país, mais particularmente das condições sob as quais e, consequentemente, dos hábitos e grau de conforto em que a classe dos trabalhadores livres está sendo formada. Em contraposição, portanto, ao caso de outras mercadorias, se entra na determinação do valor da força de trabalho um elemento histórico e moral “- Karl Marx,” O Capital”

“Mas o desenvolvimento histórico desses ‘desejos necessários’ continua, de modo que, juntamente com eles, o valor da força de trabalho também aumenta. Novas invenções surgem – como o refrigerador, o carro, a televisão – e se desenvolvem, de luxos para os ricos em primeira instância, e depois em itens que os trabalhadores vêm a considerar como necessários, depois (…) Há um aumento no preço do trabalho como consequência da acumulação de capital. Mas assim como a melhoria de vestuário, alimentação, tratamento e um pecúlio maior não suprimem a relação de dependência e a exploração do escravo, tampouco suprimem as do assalariado. O aumento do preço do trabalho, que decorre da acumulação do capital, significa apenas que, na realidade, o tamanho e o peso dos grilhões de ouro que o trabalhador forjou para si mesmo permitem torná-las menos constringentes.- Karl Marx, “O Capital”

“A participação do trabalhador nas mais elevadas, até mesmo satisfações culturais, a agitação por seus próprios interesses, subscrições de jornais, assistir a palestras, educar seus filhos, desenvolver seus gostos etc., sua única parte da civilização que o distingue do escravo é economicamente possível alargando a esfera de seus prazeres em épocas em que o negócio é bom” – Karl Marx, “Grundrisse “

“Uma das contradições da sociedade capitalista é que o capitalista tem interesse em manter baixos os rendimentos de seus próprios empregados para maximizar seus lucros, mas não em manter baixo o rendimento dos empregados de outros capitalistas, uma vez que estes são (para ele) apenas consumidores, parte de seu mercado. Ou seja, ele está interessado em ‘livrar o trabalhador de desejos piedosos’ […], mas apenas os seus próprios, porque eles se destacam como trabalhadores; Mas de modo algum o mundo remanescente dos trabalhadores, pois estes estão de encontro a ele como consumidores. Apesar de todos os discursos “piedosos”, ele procura meios para estimulá-los ao consumo, dar aos seus produtos novos encantos, inspirá-los com novas necessidades por vibrações constantes, etc” – Karl Marx, “Grundrisse”

Como observa Maurice Cornforth:

“Os grandes avanços tecnológicos que acompanham a acumulação de capital têm como resultado que todos os tipos de amenidades se tornam disponíveis em grande escala e, consequentemente, o seu consumo passa a fazer parte das exigências e expectativas materiais do trabalhador. Em outras palavras, com uma tecnologia avançada, o trabalhador passa a exigir, para sua manutenção, vários bens e serviços que seus antepassados fizeram” – Maurice Cornforth,” Marx e a Teoria da Absoluta Empobrecimento da Classe Operária Sob o Capitalismo “

Além disso, o sindicalismo, a aplicação do princípio do poder do monopólio à venda da força de trabalho, permite aos trabalhadores organizados vender a sua força de trabalho a uma taxa mais elevada do que poderiam em condições de livre concorrência entre trabalhadores.

Como Engels escreveu em maio de 1881:

“A lei dos salários (…) não estabelece uma linha intransponível. Não é inexorável dentro de certos limites. Há, em todos os tempos (exceto na grande depressão), para cada comércio, uma certa latitude dentro da qual a taxa de salários podem ser modificados pelos resultados da luta entre as duas partes em conflito – Friedrich Engels, “O sistema de salários”

Mais uma vez, Rothbard é ignorante sobre o que Marx realmente pensou, e está satisfeito em atacar um espantalho, confiante de que seus leitores não vão questionar suas palavras.

Rothbard então continua, e proclama:

“Há grandes problemas no modelo de Marx. Sua teoria implica que, uma vez que os lucros são apenas derivados da exploração do trabalho, as taxas de lucro são necessariamente mais baixas em conglomerados capitalizados pesados do que em indústrias de mão-de-obra intensiva. Mas todos, inclusive Marx, são forçados a reconhecer que, manifestamente, isso não é verdade no mercado. A tendência no mercado, como bem sabiam Smith e Ricardo, é que as taxas de lucro tendem para a igualdade em todas as indústrias. Mas como assim, se as taxas de lucro forem necessariamente e sistematicamente mais altas nas indústrias de mão-de-obra intensiva? “


Rothbard não quer ou não é capaz de compreender os conceitos básicos da teoria marxista, e, no entanto, deseja criticá-la. Mais uma vez: a mais-valia é redistribuída constantemente entre capitalistas de acordo com uma taxa média de lucro. Isso é extremamente simples, e é preciso ser absolutamente estranho aos conceitos econômicos de Marx para não entender e criticar o conceito de uma taxa média de lucro.

Como dito anteriormente, os preços redistribuem valor em trocas. Os preços de algumas mercadorias caem, outras sobem, os capitalistas ganham e perdem valor em trocas, com uma consequente equalização das taxas de lucro. Estes novos preços, os preços que redistribuem a mais-valia para formar uma taxa média de lucro, Marx chama “Preços de Produção“.

Para citar Engels:

“Na sociedade capitalista atual, cada capitalista industrial produz por sua própria conta aquilo que quiser, como quiser e na proporção que quiser. A quantidade socialmente exigida permanece para o industrial uma grandeza desconhecida e ele ignora a qualidade dos objetos procurados assim como sua quantidade. Aquilo que hoje não pode ser entregue com bastante rapidez, poderá ser oferecido amanhã além da procura.

Entretanto, a procura acaba sendo satisfeita, bem ou mal, e geralmente a produção é regulada de modo definitivo pelos objetos procurados. Como se efetua a conciliação desta contradição? Pela concorrência. E como chega ela a esta solução? Pela simples depreciação, até abaixo de seu valor de trabalho, das mercadorias que não podem ser utilizadas, pela sua qualidade ou pela sua quantidade, no estado presente das exigências da sociedade, e fazendo sentir aos produtores, desta maneira indireta, que eles têm na fábrica artigos que absolutamente não podem ser utilizados ou que fabricaram em quantidade que não pode ser utilizada, supérflua. Seguem-se duas coisas:


Em primeiro lugar, verifica-se que os desvios contínuos dos preços das mercadorias em relação aos valores das mercadorias são a condição necessária sem a qual o valor das mercadorias não poderá existir. Não é senão pelas flutuações da concorrência e, como consequência, dos preços das mercadorias, que a lei do valor se realiza na produção das mercadorias, e que a determinação do valor pelo tempo de trabalho socialmente necessário se torna uma realidade. Que a forma de representação do valor, que o preço tenha, como regra geral, um aspecto muito diferente daquele que manifesta, é uma sorte que ele partilha com a maior parte das relações sociais. O rei, às mais das vezes, se parece pouco com a monarquia que representa. Numa sociedade de produtores trocadores de mercadorias, querer determinar o valor pelo tempo de trabalho impedindo que a concorrência estabeleça esta determinação do valor na única forma pela qual ela pode se efetuar, influindo sobre os preços, é mostrar que, pelo menos neste terreno, se aceita o habitual desconhecimento utópico das leis econômicas.
Em segundo lugar, a concorrência, realizando a lei do valor da produção das mercadorias numa sociedade de produtores trocadores, estabelece por isso mesmo, e em certas condições, a única ordem e a única organização possíveis da produção social. Não é senão pela depreciação ou pela majoração dos preços dos produtos que os produtores de mercadorias isolados ficam sabendo à sua custa quais os produtos e qual quantidade de tais produtos que a sociedade necessita. Mas é precisamente este único regulador que a utopia de que Rodbertus partilha quer suprimir. E se perguntamos qual a garantia que temos de que não será produzida senão a quantidade necessária de cada produto, que não teremos falta nem de trigo nem de carne enquanto o açúcar de beterraba seja mais do que abundante e a aguardente de batata sobre, que as calças não venham a faltar para cobrir nossa nudez, ao mesmo tempo que os botões de calças se multipliquem aos milhares — Rodbertus, triunfante, mostra-nos o seu famoso cálculo, no qual se estabeleceu um certificado exato para cada libra de açúcar supérflua, para cada tonel de aguardente não comprada, para cada botão de calça inútil, cálculo que é “justo”, que “satisfaz todas as exigências e no qual a liquidação é exata”. E quem não acreditar nisso não tem outra coisa a fazer senão dirigir-se ao sr. X., empregado superior da Caixa da dívida pública da Pomerânia, que pode ser considerado como pessoa incapaz de cometer um erro nas suas contas, e que, tendo revisto o cálculo, achou que estava certo” – Friedrich Engels,” Prefácio à Primeira Edição Alemã da Miséria da Filosofia “


Depois de entender mal a origem e a função da equalização das taxas de lucro, Rothbard prossegue dizendo:


“O volume III foi submetido a uma demolição detalhada e completa, dois anos mais tarde, por Bohm-Bawerk em seu extenso ensaio de revisão “Karl Marx and The Close of his System”. Um século mais tarde, a refutação devastadora de Bohm-Bawerk do Volume III continua, e portanto, o sistema marxista permanece destruído. Bohm-Bawerk, também, coloca a grave contradição fatal e interna da teoria marxista de forma clara e rígida: Marx alegava que os bens eram trocados no mercado em proporção às quantidades de trabalho incorporadas neles (isto é, que seus valores são determinados pela quantidade de trabalho – horas necessárias para produzi-los), mas também admitiu que as taxas de lucro de todos os bens tendiam a ser iguais. E, no entanto, se a primeira cláusula for verdadeira, as taxas de lucro seriam sistematicamente mais baixas em proporção à intensidade do investimento de capital, e maiores em proporção à sua intensidade de trabalho de produção “.

A causa de todo o erro está na sentença de que “(…) Marx alegava que os bens eram trocados no mercado em proporção às quantidades de trabalho incorporadas neles (isto é, que seus valores são determinados pela quantidade de trabalho – horas necessárias para produzi-los)“.

O grande problema é que Rothbard impõe a Marx uma visão estranha a ele: para Marx, valor e preço não são os mesmos, eles sistematicamente divergem, como mostra a citação de Engels acima.

Mas Rothbard prossegue:


“A resposta dos apologistas marxistas foi a afirmação escandalosamente falsa de que Marx nunca quis que seus valores determinados pelo trabalho determinassem ou de alguma forma afetassem os preços de mercado”

O problema é que “O Capital” está estruturado em diferentes níveis de generalidade. Podemos distinguir três principais:

1. o primeiro está na ausência de equalização da taxa de lucro e com oferta e demanda em equilíbrio, logo, os preços são iguais;
2. com uma equalização da taxa de lucro perfeita, e com oferta e demanda em equilíbrio, temos preços iguais aos preços de produção;
3. então, quando a oferta e a procura flutuam em torno dos preços de produção, os preços de mercado nascem.

Marx não se contradiz, como Rothbard e Bohm-Bawerk erroneamente afirmam, mas ele está falando de graus diferentes de abstração. Tanto Rothbard como Bohm-Bawerk são incapazes de ver isso por causa de sua leitura superficial de O Capital, ou por sua total incapacidade de entender.


O resto do capítulo de Rothbard é dedicado a repetir a afirmação errada de que Marx declara que os valores e os preços sempre serão iguais. Depois disso, Rothbard continua a abordar as leis marxistas do movimento da sociedade capitalista.

Assim, ele pergunta:


“Se a acumulação de capital necessariamente reduz os lucros, por que os capitalistas, que estão claramente motivados pela busca de lucros mais altos do que mais baixos, insistem em continuar a acumular? Por que eles persistem em cortar suas próprias gargantas?

então Rothbard afirma que:

“A resposta final de Marx a esse enigma é enganosamente simples: os capitalistas acumulam, apesar da queda imediata e futura de seus lucros porque, bem, eles têm um desejo irresistível e irracional, ou “instinto” para fazê-lo”

Rothbard então procede, taxando a alegação como não-científica. Mas Rothbard entende mal em que consiste esse instinto.

O instinto individual dos capitalistas é a maximização dos lucros. Os capitalistas não se reúnem para tomar decisões que beneficiem sua classe. As decisões que tomam são inteiramente deixadas a interesses conflitantes que lutam no mercado, criando uma rede anárquica de produção. Eles não tentam alcançar uma estabilidade de longo prazo para sua classe, eles tentam obter uma vantagem de mercado de curto prazo para si próprios individualmente. Então, vamos passar a análise para o único átomo da classe exploradora: o capitalista único. Nosso único capitalista luta com outros em uma corrida para lucros no mercado. Para vender mais do que seus rivais, ele será forçado a baixar seus preços em relação aos deles.

Consideremos: a taxa de lucro é o lucro total sobre o preço total dos insumos: lucro / insumos. Nós temos:

S: mais-valia (lucro, ou valor agregado pelo trabalho)
C: capital constante (máquinas, matérias-primas, etc.)
V: capital variável (salários)
S / (c + v): taxa de lucro (lucro / custo-preço)

Um aumento do investimento em “C” ou “V” deve corresponder a um aumento do valor excedentário para que a taxa de lucro aumente ou permaneça a mesma. Se “S” permanece o mesmo enquanto “C” ou “V” aumenta, então a taxa de lucro cairá.

Vamos aplicar isso a um exemplo:


Digamos que um capitalista chamado Ricardo, cuja força de trabalho produz sapatos, produz 20 pares por hora. Uma empresa média produz 50. Para obter a mesma quantidade de lucro que seus concorrentes, Ricardo teria que vender sapatos a um preço mais alto. Mas sabemos que isso é difícil no mercado, já que outros que podem produzir mais barato do que ele irão roubar seus possíveis consumidores. Ele será forçado a alcançar o chamado “tempo de trabalho socialmente necessário (*)”, ou então a sair do negócio. Se, em vez disso, nosso capitalista conseguisse fazer sua força de trabalho produzir 80 pares de sapatos, estaria produzindo sob o tempo de trabalho socialmente necessário. Isso o faria ser capaz de vender a menos do que o preço médio e poder obter certa vantagem sob seus rivais. Se outros sapatos valem 1/50 de uma hora de trabalho (o capitalista médio faz 50 sapatos a cada hora), esses sapatos do capitalista Ricardo valem 1/80 de uma hora, mas ele pode cobrar entre 1/80 – 1/51 e vencer os outros capitalistas, na concorrência.

(*): Pra quem não entende a questão do tempo de trabalho socialmente necessário, leiam aqui: https://www.marxists.org/…/harman/1979/marxismo/cap05.htm

Mas como nosso capitalista aumenta sua produtividade? Naturalmente, ele poderia fazer seus trabalhadores trabalharem mais, ou contratar mais trabalhadores, mas na realidade um investimento intensivo em máquinas é geralmente acompanhado por um aumento muito maior na produtividade do que um investimento extensivo em mais trabalhadores. Portanto, a tendência é que os capitalistas invistam em capital constante, o que faz com que a taxa de lucro diminua com o passar do tempo. Isso mostra que, para o capitalista único, uma quantidade aumentada de mercadorias se traduz em um aumento de lucros, enquanto para a classe capitalista se traduz em um menor tempo de trabalho socialmente necessário e menores taxas de lucro.

O instinto individual dos capitalistas é a maximização dos lucros. Os capitalistas não se reúnem para tomar decisões que beneficiem sua classe. As decisões que tomam são inteiramente deixadas a interesses conflitantes que lutam no mercado, criando uma rede anárquica de produção. Eles não tentam alcançar uma estabilidade de longo prazo para sua classe, eles tentam obter uma vantagem de mercado de curto prazo para si próprios individualmente. Então, vamos passar a análise para o único átomo da classe exploradora: o capitalista único. Nosso único capitalista luta com outros em uma corrida para lucros no mercado. Para vender mais do que seus rivais, ele será forçado a baixar seus preços em relação aos deles.

A taxa de lucro é o lucro total sobre o preço total dos insumos: lucro / insumos. Nós temos:

S: mais-valia (lucro, ou valor agregado pelo trabalho)
C: capital constante (máquinas, matérias-primas, etc.)
V: capital variável (salários)
S / (c + v): taxa de lucro (lucro / custo-preço)

Um aumento do investimento em “C” ou “V” deve corresponder a um aumento do valor excedentário para que a taxa de lucro aumente ou permaneça a mesma. Se “S” permanece o mesmo enquanto “C” ou “V” aumenta, então a taxa de lucro cairá.

Vamos aplicar isso a um exemplo:
Digamos que um capitalista chamado Marciano, cuja força de trabalho produz sapatos, produz 20 pares por hora. Uma empresa média produz 50. Para obter a mesma quantidade de lucro que seus concorrentes, Marciano teria que vender sapatos a um preço mais alto. Mas sabemos que isso é difícil no mercado, já que outros que podem produzir mais barato do que ele irão roubar seus possíveis consumidores. Ele será forçado a alcançar o chamado “tempo de trabalho socialmente necessário (*)”, ou a sair do negócio. Se, em vez disso, nosso capitalista conseguisse fazer sua força de trabalho produzir 80 pares de sapatos, estaria produzindo sob o tempo de trabalho socialmente necessário. Isso o faria ser capaz de vender a menos do que o preço médio e poder obter certa vantagem sob seus rivais. Se outros sapatos valem 1/50 de uma hora de trabalho (o capitalista médio faz 50 sapatos a cada hora), esses sapatos do capitalista Marciano valem 1/80 de uma hora, mas ele pode cobrar entre 1/80 – 1/51 e vencer os outros capitalistas, na concorrência.

(*): Pra quem não entende a questão do tempo de trabalho socialmente necessário, leiam aqui: https://www.marxists.org/…/harman/1979/marxismo/cap05.htm

Mas como nosso capitalista aumenta sua produtividade? Naturalmente, ele poderia fazer seus trabalhadores trabalharem mais, ou contratar mais trabalhadores, mas na realidade um investimento intensivo em máquinas é geralmente acompanhado por um aumento muito maior na produtividade do que um investimento extensivo em mais trabalhadores. Portanto, a tendência é que os capitalistas invistam em capital constante, o que faz com que a taxa de lucro diminua com o passar do tempo. Isso mostra que, para o capitalista único, uma quantidade aumentada de mercadorias se traduz em um aumento de lucros, enquanto para a classe capitalista se traduz em um menor tempo de trabalho socialmente necessário e menores taxas de lucro.

Continuemos analisando as ideias de Rothbard:

“Para Marx, duas consequências derivaram necessariamente da suposta tendência à acumulação de capital e ao avanço da tecnologia. O primeiro é a ‘concentração de capital’, pela qual Marx entendia ser a tendência inexorável de cada empresa a crescer cada vez mais em tamanho, cada vez mais que a escala de produção se ampliasse. Certamente, há uma grande quantidade de expansão da escala nas empresas no mundo moderno. Por outro lado, a lei é apenas apodíctica. Por que não pode a acumulação de capital se refletir em um crescimento no número de empresas, em vez de apenas aumentar o tamanho de cada uma?”

Bem, sabemos que a taxa de lucro sob o capitalismo cai. Quanto menor a taxa de lucro e juros, maiores devem ser os capitais individuais para compensar seus proprietários pela a queda da taxa de lucro ou juros, através de um aumento na massa de lucro. Pequenos capitais e pequenas empresas tornam-se menos e menos viáveis, quanto mais a taxa de lucro e juros, cai. Isso permite que a acumulação de capital e sua concentração seja vertical na forma de grandes empresas, e não horizontal na forma de mais empresas.

Os investimentos exigidos pelas grandes empresas (e especialmente multinacionais) vão além do capital acumulado de qualquer indivíduo, e os bancos se tornam necessários para mobilizar o capital necessário para empresas produtivas. O capitalismo é, portanto, provido com um mecanismo de mobilização de crédito que mantém a quantidade de dinheiro inativo a um mínimo, e mobiliza os maiores montantes para fins produtivos.

A crescente massa de crédito leva a uma mudança na sua própria natureza, que vai da provisão de financiamento de curto prazo, ou de crédito circulante, a projetos de investimento de longo prazo, ou crédito de investimento, que fornece aos bancos maior interesse nas empresas com probabilidades a longo prazo. Isso, obviamente, acaba cortando lucros empresariais e aumenta a participação do capital financeiro na economia. Além disso, o papel dos bancos como mobilizadores de capital reforçam a tendência à crescente concentração e centralização do capital. Os bancos passam a dominar as empresas, aumentando sua participação na empresa produtiva através da aquisição de capital social (não é coincidência que as principais empresas da rede global de capital sejam bancos ou empresas de serviços financeiros, como Barclays, Capital Group Companies e FMR Corporation).


À medida que o capital se centraliza e os bancos aumentam a taxa de lucro de seus investimentos, patrocinando empresas maiores e monopolistas, a livre concorrência é frustrada. O que chamam de ‘corporativismo’ ou “não é o capitalismo de verdade”, é de fato a expressão mais pura das leis do movimento da sociedade capitalista e o produto da lógica desse modo de produção.

À medida que o capital financeiro é transferido de empresas competitivas para oligopólios multinacionais, a taxa de lucro é sistematicamente empurrada para grandes empresas e as três principais contradições do imperialismo global (que foram apontadas por Joseph Stalin), são levadas ao seu ponto mais alto sob as condições existentes de polarização social, onde o capital, concentrado nas mãos de poucas associações capitalistas gigantes, se manifesta em oposição direta ao resto do mundo, principalmente ao proletário mundial.

Mais tarde, Rothbard afirma:

“Embora muitos processos industriais cresçam aumentando a ‘Escala Ótima’ (optimal scale), outros florescem sendo relativamente pequenos e flexíveis em tamanho. As enormes fábricas de automóveis de Henry Ford eram econômicas e lucrativas por algum tempo; Mas, mais tarde, na década de 1920, eles inevitavelmente levaram a perdas severas, porque esse investimento maciço se mostrou inflexível em atender às mudanças na natureza e forma da demanda do consumidor”

Chequem as imagens abaixo:

IMAGEM 1

IMAGEM 2

IMAGEM 3

IMAGEM 4

IMAGEM 5

IMAGEM 6


Como pode ser visto nas imagens, a produção automóvel dos EUA foi dominada pela Ford até 1927 e 1928, onde a Chevrolet substitui a Ford, apenas para ver a Ford emergir novamente em 1929. Nos anos seguintes, a Chevrolet e a Ford suplantam-se estocasticamente.

Outras empresas que começam a rivalizar com Ford e Chevrolet a partir dos anos 40, como Pontiac, Buick, Plymouth e Oldsmobile, não são pequenas empresas. Na verdade, elas não são empresas independentes: Pontiac, Buick, Plymouth e Oldsmobile são partes da General Motors, enquanto Mercury, outro grande concorrente, faz parte da própria Ford. Além disso, todas as empresas menores desaparecam nos anos 80, com a liberalização dos mercados de Reagan, enquanto outras são incorporadas nas grandes empresas ou se fundem entre si. Mesmo nesta ocasião, a Ford não foi derrotada, mas simplesmente perdeu quota de mercado para outras grandes empresas.

E então, Rothbard continua a falar besteiras:

“Enquanto as fábricas de automóveis são de grande porte, as fábricas de peças de automóveis e as empresas são tipicamente pequenas em tamanho. Além disso, as novas e as pequenas empresas normalmente superaram os grandes ‘Behemoths’ na introdução de invenções e inovações tecnológicas – a área que mais interessava a Marx “.

Rothbard opera sobre o falso truísmo de que as pequenas empresas são inerentemente inovadoras. Isso é falso: apenas uma fração de pequenas empresas chega sequer a patentear, enquanto 48% de todas as patentes de 1999 a 2008 foram patenteadas pelas principais 1,5% firmas gigantes.

Em 2011, havia 108.626 patentes de utilidade concedidas de origem dos EUA. Das 50 empresas dos EUA, todas as grandes corporações, foram responsáveis por mais de 30% deles. A realidade é que apenas uma fração minúscula, das 6 milhões de pequenas empresas dos EUA, patenteam ou inovam. É por isso que, embora representem metade de todos os empregos, as pequenas empresas representam apenas 19% dos fundos investidos em pesquisa e desenvolvimento.

Além disso, a maioria das empresas norte-americanas são locais. Entre elas estão, por exemplo, os 219.986 consultórios médicos, 166.366 oficinas de reparos automotivos, 151.031 lojas de alimentos e bebidas, 115.533 postos de gasolina, 111.028 escritórios de corretores, 93.121 empresas de paisagismo, 75.606 lares, 36.246 lojas de móveis, 28.336 Escritórios, 15.666 agências de viagens, 4.571 pistas de bowling, 2.463 salas de jogos, 858 redes de rádio e 26 sistemas de trens de cercas.  E não prosperarão, a menos que grandes empresas nos Estados Unidos prosperem. E se as pequenas empresas não conseguirem prosperar, a inovação deles também será prejudicada, uma vez que menos investimento pode ser poupado para pesquisa e desenvolvimento.

Além disso, é impossível encontrar uma importante inovação econômica em que o governo não tenha desempenhado um papel-chave no desenvolvimento. O próprio IPhone por exemplo, é uma prova disso, assistam o vídeo:
https://www.facebook.com/36129…/videos/752017738265432/…

Cheque aqui também:

Who invented the IPhone, Apple or the Government? – https://www.bloomberg.com/view/articles/2013-06-19/who-created-the-iphone-apple-or-the-government-

 

Assim, o papel das pequenas empresas na inovação é sombreado pela presença imponente de pesquisa e desenvolvimento governamentais e corporativos, muitas vezes interligados, ou mesmo pela tendência natural e crescente dessas ocorrerem nas grandes empresas, mesmo pela quantidade de capital que elas possuem para investir.

Rothbard prossegue:

Se a lei de Marx sobre a concentração de capital não é de modo algum certa , então sua próxima tese, a” lei da centralização do capital “, está em uma forma ainda mais sombria.  Aqui Marx afirmou uma lei inevitável pela qual as empresas menores em cada indústria vão para ‘o ralo’, e são absorvidas em poucas empresas gigantes – em suma, uma tendência para a monopolização da indústria. Por essa razão, a competição “acaba sempre na ruína de muitos pequenos capitalistas, cujos capitais passam, em parte, às mãos de seus conquistadores e desaparecem parcialmente”. Basta dizer que não há provas, apesar das numerosas tentativas do Governo federal para dar um impulso artificial à centralização, que a indústria americana é mais centralizada agora do que era na virada do século XX “

Bem, então, podemos pegar Grã-Bretanha. As primeiras 100 empresas de manufatura eram responsáveis por 47% de toda a produção em 1948. Em 1968, isso tinha crescido para 69%. Hoje, estima-se que tenha crescido ainda mais para cerca de 85%. Isso também se aplica ao capital financeiro: no final de 1985 existiam 18.000 bancos nos Estados Unidos. Até 2007, este tinha sido reduzido para apenas 8.534, e desde então caiu ainda mais. Em 1990, as dez maiores instituições financeiras norte-americanas detinham apenas 10% dos ativos financeiros totais. Hoje eles possuem 50%. E há mais. Seis estúdios de cinema recebem 90% das receitas de filmes norte-americanos, a televisão e a internet de alta velocidade são um oligopólio de sete empresas: a Walt Disney Company, a CBS Corporation, a Viacom, a Comcast, a Hearst Corporation, a Time Warner e a News Corporation.

Quatro provedores de serviços sem fio (AT & T Mobility, Verizon Wireless, T-Mobile e Sprint Nextel) controlam 89% do mercado de serviços de telefonia celular. A população segurada da Califórnia de 20 milhões é a mais competitiva do país e 44% desse mercado é dominada por duas companhias de seguros, Anthem e Kaiser Permanente. A Anheuser-Busch e a Miller Coors controlam cerca de 80% da indústria de cerveja. O mercado de contabilidade é controlado pela PriceWaterhouseCoopers, KPMG, Deloitte Touc Deloitte Touche e Ernst & Young. Kraft Foods, PepsiCo e Nestlé, juntos conseguem um oligopólio no processamento de alimentos em todo o mundo. Boeing e Airbus têm um duopólio sobre o mercado de aviões. A General Electric, a Pratt e a Whitney e a Rolls-Royce possuem mais de 50% da participação no mercado de motores de aviões. Cinco bancos dominam o setor bancário do Reino Unido, quatro empresas (Tesco, Sainsbury, Asda e Morrisons) compartilham 74,4% do mercado de produtos alimentícios e seis empresas de serviços públicos (EDF Energy, Centrica, RWE npower, E.on, Scottish Power e Scottish and Southern Energy ) representam 99% do mercado retalhista da electricidade. Os exemplos são infinitos, tem haver um cinismo muito grande para negar.


10 empresas controlam quase tudo o que você consome: http://www.infomoney.com.br/…/empresas-que-controlam…

Se esses exemplos não forem suficientes, poderíamos passar para o quadro maior. Três teóricos de sistemas do “Swiss Federal Institute of Technology” de Zurique, tomaram uma base de dados com 37 milhões de empresas e investidores em todo o mundo, retiraram todas as 43.060 empresas multinacionais e os proprietários de ações, ligando-as para construir um modelo de controle de empresas por meio de redes de participação, com as receitas operacionais de cada empresa, para mapear a estrutura do poder econômico. O modelo revelou um núcleo de 1318 empresas com propriedades de interligação. Cada um dos 1318 tinha vínculos com duas ou mais empresas e, em média, estavam ligados a 20. Além disso, embora representassem 20% das receitas operacionais globais, os 1318 pareciam possuir coletivamente, por meio de suas ações, a maioria das ações mundiais Blue Chip (para saber o que é blue chip: http://www.mundotrade.com.br/acoes-blue-chips) e empresas de manufatura, ou seja a economia “real”, representando mais 60 por cento das receitas globais.


Quando a equipe desembaraçou a rede de propriedade, descobriu que grande parte dela era rastreada de volta a uma super entidade de 147 empresas ainda mais bem unidas (todas as suas propriedades eram detidas por outros membros da super entidade) que controlavam 40% da riqueza total da rede. “Com efeito, menos de 1 por cento das empresas foram capazes de controlar 40 por cento de toda a rede”, diz Glattfelder.


A maioria eram instituições financeiras. O top 20 incluiu Barclays Bank, JPMorgan Chase & Co, e The Goldman Sachs Group.

Os resultados podem ser vistos aqui: http://arxiv.org/PS_cache/arxiv/pdf/1107/1107.5728v2.pdf

Rothbard continua:

“Assim, além dos pequenos inovadores que mencionamos, o suposto domínio das três grandes empresas automotivas nos EUA foi erradicado pelo crescimento da concorrência estrangeira (japonesa, alemã ocidental, etc.)”

O ponto de Rothbard aqui é LITERALMENTE auto-refutável para ele mesmo, que nega as teorias de Marx: todas as empresas que venceram a concorrência automotiva dos EUA produziram mais eficientemente do que as fábricas de automóveis dos Estados Unidos, ou seja, tiveram um menor tempo de trabalho socialmente necessário, o que lhes permitiu competir com a indústria automobilística americana. Isto decorre logicamente das premissas de Marx, que Rothbard tenta negar antes. Ou seja, ele está se auto-refutando.

Além disso, devemos mencionar quais as empresas que superaram a fabricação de automóveis dos EUA: a Volkswagen da Alemanha Ocidental, a Suzuki japonesa, a Nissan, a Honda e a Toyota, Renault, Daewoo e Hyundai, da Coreia do Sul. Nenhum desses concorrentes eram pequenos por qualquer definição, o que mais uma vez, refuta Rothbard, que diz que o que ganhou a concorrência foram empresas pequenas.

Então Rothbard cita Kautsky:

A produção capitalista tende a unir os meios de produção, que se tornaram o monopólio da classe capitalista, em cada vez menos mãos. Esta evolução finalmente torna todos os meios de produção de uma nação, ou mesmo de toda a economia mundial, em propriedade privada de um único indivíduo ou empresa, que os dispõe arbitrariamente. Toda a economia será arrastada para um empreendimento colossal, no qual tudo tem que servir a um mestre. Na sociedade capitalista, a propriedade privada nos meios de produção termina com todos, exceto uma pessoa sem propriedade. Isso leva à sua própria abolição, à falta de propriedade de todos e à escravidão de todos “

Ao menos uma critica Rothbard consegue acertar. Sim, Kautsky estava errado, ou pelo menos em parte. Embora não sendo uma impossibilidade teórica absoluta, a tendência de centralização e concentração é acompanhada por contra-tendências, de modo que a existência de um único capitalista que possui o mundo é impossível.

Rothbard, continuando a operar na falsa suposição de que Marx adere à Lei de Bronze dos Salários de Lassalle (que demonstrei anteriormente que é justamente o contrário, ele era totalmente contra) , citando Mises:

“se os salários dos trabalhadores já estão e sempre estão nos meios de subsistência, mantidos lá pela lei de bronze, como eles ficam pior? Eles estão no nível máximo de pobreza, por assim dizer, há muito tempo.

Como demonstramos, o pressuposto em si é falacioso e uma mentira, de modo que o argumento simplesmente não aborda Marx de forma alguma, haja visto que ele era totalmente contra a Lei de Bronze dos Salários de Lassalle.

Ao atacar a teoria da pauperização, ou empobrecimento da classe trabalhadora, Rothbard diz que:

“Foi evidente para todos que um dos fatos vitalmente significativos do século, desde o nascimento do marxismo, foi o o contínuo e espetacular crescimento dos salários reais e do padrão de vida da classe trabalhadora e da massa da população”

Posteriormente, Rothbard insulta os marxistas por “abandonarem” a ideia de empobrecimento absoluto, como se fosse isso que eles defendessem, afinal, ele não sabe que Lassalle foi quem elaborou isso, e que  foi justamente Marx quem rejeitou essa ideia.

Com essa afirmação, Rothbard mostra mais uma vez que ele não leu obras de Marx, mas sim se baseia em fontes de segunda mão. Ao analisar a condição da classe operária, Marx argumenta que Exército Industrial de Reserva (https://pt.wikipedia.org/…/Ex%C3%A9rcito_industrial_de…), em conjunto com os limites dados pelas considerações de rentabilidade, concorrência e mobilidade dos capitais, impede necessariamente que os trabalhadores aumentem os salários reais mais rapidamente do que a produtividade. Em outras palavras, os salários reais diminuem em relação à produtividade do trabalho, ou, em termos marxistas, a taxa de exploração aumenta.

A crescente disparidade entre a produtividade e os salários reais amplia o poder do capital e, portanto, amplia o abismo entre a posição do trabalhador e a do capitalista. O empobrecimento relativo dos trabalhadores é uma característica inerente ao sistema capitalista como um todo. Marx observa que os salários reais podem subir, desde que “não interfiram com o progresso da acumulação” e conclui que “a tendência da taxa de exploração do trabalho a subir” é apenas uma “forma específica pela qual a crescente produtividade do trabalho é expressa em capitalismo”. No capítulo 5 do “Trabalho Salarial e Capital”, Marx diz que os salários podem aumentar se o capital produtivo cresce, mas “embora os prazeres do trabalhador tenham aumentado, a gratificação social que eles proporcionam caiu em comparação com os prazeres aumentados do capitalista, que são inacessíveis ao trabalhador, em comparação com o estágio de desenvolvimento da sociedade em geral”. (https://www.marxists.org/portugues/marx/1849/04/05.htm)

O fato dos salários reais não poderem geralmente aumentar para além de um limite superior, de forma alguma impede os capitalistas de se esforçarem incessantemente para reduzir os salários reais tanto quanto possível e o limite objetivo para esta tendência seja o empobrecimento absoluto dos trabalhadores proporcionado pelas condições da disponibilidade de mão-de-obra assalariada. Onde o exército de reserva do trabalho é grande, os salários reais podem ser reduzidos mesmo abaixo da subsistência, porque os trabalhadores prontos se tornam disponíveis como existentes e são usados pelo capital.

Por outro lado, durante períodos de boom econômico, quando o exército de reserva se esmorecem em certas regiões, então dentro dos limites dos custos de importação de mão-de-obra ou de mobilidade de capital, os salários reais podem subir simplesmente devido à escassez de mão-de-obra imediatamente disponível . Mais importante ainda, as lutas trabalhistas refletidas na sindicalização e na legislação social podem, elas próprias, regular os termos em que o trabalho é colocado à disposição do capital e, exceto período de crise, e superar com êxito as tentativas capitalistas de baixar os salários reais. A pressão inerente ao empobrecimento absoluto do trabalho pode, portanto, ser compensada em condições adequadas.

Quanto ao abandono da ‘tese do empobrecimento absoluto’, os marxistas não podem abandonar uma ideia que lhes era alheia e contrária desde o início. De fato, nenhuma análise textual das obras de Marx (ou Engels) implica que o empobrecimento absoluto é uma lei do capitalismo:

“Mas assim como a melhoria de vestuário, alimentação, tratamento e um pecúlio maior não suprimem a relação de dependência e a exploração do escravo, tampouco suprimem as do assalariado. O aumento do preço do trabalho, que decorre da acumulação do capital, significa apenas que, na realidade, o tamanho do peso dos grilhões de ouro que o trabalhador forjou para si mesmo permitem torná-las menos constringentes” – Karl Marx, “O Capital”

“Se o dono da força de trabalho trabalha hoje, amanhã terá de repetir o mesmo processo nas mesmas condições de saúde e força. Portanto, seus meios de subsistência devem ser suficientes para mantê-lo em seu estado normal de indivíduo trabalhador. Suas necessidades naturais, tais como alimentos, roupas, combustível e habitação, variam de acordo com as condições climáticas e outras condições físicas de seu país. Por outro lado, o número e a extensão de suas chamadas necessidades vitais, assim como os modos de satisfazê-las, são elas próprias produto do desenvolvimento histórico e dependem, portanto, em grande parte, do grau de civilização de um país, mais particularmente das condições sob as quais e, consequentemente, nos hábitos e no grau de conforto em que se formou a classe dos trabalhadores livres. Em contradição, portanto, com o caso de outras mercadorias, entra na determinação do valor da força de trabalho um elemento histórico e moral. No entanto, em um dado país, em um determinado período, a quantidade média dos meios de subsistência necessários para o trabalhador é praticamente conhecida”- Karl Marx,” O Capital”

“A participação do trabalhador nas mais elevadas, até mesmo satisfações culturais, a agitação por seus próprios interesses, subscrições de jornais, assistir a palestras, educar seus filhos, desenvolver seus gostos etc., sua única parte da civilização que o distingue do escravo é economicamente possível alargando a esfera de seus prazeres em épocas em que o negócio é bom”- Karl Marx,” Grundrisse “

A lei dos salários (…) não estabelece uma linha intransponível. Não é inexorável dentro de certos limites. Há, em todos os tempos (exceto na grande depressão), para cada comércio, uma certa latitude dentro da qual a taxa de salários podem ser modificados pelos resultados da luta entre as duas partes em conflito. Salários em todos os casos são fixados por um pechincha, e em um negócio que ele resiste mais tempo e melhor tem a maior chance de obter mais do que o seu devido. Se o trabalhador isolado tentar conduzir sua barganha com o capitalista, ele é facilmente derrotado e tem que se render à discrição, mas se todo um conjunto de operários formam uma organização poderosa, fazer entre si um fundo para permitir-lhes desafiar seus empregadores, se necessário , assim tornar-se capaz de tratar com esses empregadores como um poder, então, e só então, eles têm uma chance de obter mesmo que pequeno, e de acordo com a constituição econômica da sociedade atual, pode ser chamado um salário justo dia para um justo “Dia do trabalho” – Friedrich Engels,” O sistema de salários”

Pra finalizar, Rothbard afirma que:

” (…) Uma variante bizarra, mas popular Leninista, é que os trabalhadores no Ocidente se beneficiaram da exploração imperialista ocidental ou do investimento no Terceiro Mundo, de modo que, em certo sentido, os trabalhadores ocidentais se tornam ‘capitalistas’ em uma escala internacional. Em primeiro lugar, na transmutação do proletariado oprimido do Ocidente para a exploração dos “capitalistas” do Terceiro Mundo, o que aconteceu com o inevitável declínio da classe capitalista?”

Esta afirmação é simplesmente ridícula, nenhum teórico marxista jamais insinuou que os trabalhadores que se beneficiaram da exploração imperialista são “capitalistas”. De fato, os marxistas têm outro termo para esse fenômeno: a aristocracia trabalhista (labor aristocracy). A aristocracia operária, situada principalmente na Europa e na América do Norte, se beneficia da superexploração neocolonial dos países do Terceiro Mundo, exportando os problemas de conflito de classes para outros países por meio de salários mais elevados.

Em 2011, o PIB global foi de US $ 69.110.000.000.000. A população total foi estimada em meados do ano para ser 7.021.836.029. Vamos supor que metade das pessoas trabalham regularmente. Neste caso, cada trabalhador produz cerca de US $ 20.000 por ano. Este seria o valor do trabalho. Além disso, se assumirmos que cada trabalhador trabalha 40 horas por semana durante 50 semanas por ano, o valor do trabalho é de US $ 10 por hora. Usaremos este número de operação.

Vamos agora tomar o salário mínimo que normalmente se aplica para um mineiro de Botswana, algo como 0,58 $. A partir deste trabalho, 19,42 $ é renderizado como excedente. O capitalista do Terceiro Mundo, ao vender a mercadoria à primeira multinacional mundial por 2,00 $, mantém 1,42 $ desse superávit. O capitalista do primeiro mundo paga seu trabalhador de primeiro mundo 12,00 $ por uma hora de trabalho com a mercadoria, e em seguida, vende ela no mercado por 40 $. Ao fazê-lo, parte do excedente extraído do trabalhador do Terceiro Mundo vai para pagar ao Trabalhador de Primeiro Mundo, aproximadamente o valor do trabalho abstrato, e o restante excedente é mantido como lucro pelo Capitalista de Primeiro Mundo.

Esta é a troca desigual do famoso gráfico de Paul Baran:

 

ULTIMA IMAGEM

 


Rothbard continua:

“Em segundo lugar, a grotesqueria desta doutrina pode ser medida de fato, como P.T. Bauer demonstrou em muitos trabalhos que a maior parte do Terceiro Mundo, por mais pobre que seja, também vem se desenvolvendo rapidamente nas últimas décadas e o padrão de vida de suas massas trabalhadoras tem aumentado constantemente”


De fato, em números absolutos, salários, e PIB têm crescido no terceiro mundo, mas em escala global, a desigualdade (ou empobrecimento relativo) tem aumentado constantemente: os 200 mais ricos têm cerca de US $ 2,7 trilhões, o que é mais do que os mais pobres 3,5 bilhões de pessoas, que têm apenas US $ 2,2 trilhões combinado. Isso já foi tratado anteriormente.

As críticas de Rothbard, das quais se resumiram a espantalhos, acabam por aqui.

Anúncios