Link do meu artigo sobre a Ética Argumentativa Hoppeana:

https://reflexoesparaoamanhecer.wordpress.com/2017/03/22/a-etica-argumentativa-hoppeana-a-resposta/

Link do texto que estou efetuando a réplica:

http://foda-seoestado.com/defendendo-etica-hoppeana-resposta-nairus-lobatev/

http://criticidadevoraz.blogspot.com/2017/03/defendendo-etica-hoppeana-resposta.html

Minha réplica:

“Rian busca justificar a negação da premissa hoppeana e, para isso, utilizada de argumentação, com o que comprova a premissa”

R: O fato de eu escolher argumentar não comprova que o único modo de defender racionalmente uma posição ética é por argumentos. O interlocutor tentou nos acusar de incorrer numa contradição performática. Entretanto, o único modo de cairmos numa contradição seria a seguinte: teríamos aceitado que o único modo de defender racionalmente uma posição ética é por argumentos. Então, depois de aceitar isso, defenderíamos alguma posição ética qualquer. Na defesa, usaríamos imperativos ou proposições (não argumentos) e nos diríamos defendendo racionalmente nossa posição. E somente neste caso que incorreríamos em uma contradição performática. Nosso interlocutor não faz ideia do que nos imputou e precisamos explicar para ela em minúcias como seria o caso do que ele nos acusa.

“Além disso, eu desconheço a tese de que justificações prescindam de argumentos”

R: Começe pesquisando por tudo o que já foi escrito em epistemologia contemporânea. E vale aqui desenvolver, pois isso foi alvo de muita confusão: na premissa, justificar por argumentação e argumentar são equivalentes. Nós fizemos um disclaimer técnico quando falamos do conceito de justificação: uma coisa é a justificação, um conceito técnico da epistemologia; outra coisa é a argumentação. O termo “justificação” poderia ser abolido sem problema algum da premissa. O que dissemos é que, nos estudos de epistemologia contemporânea, justificação não tem a ver com argumentação em sentido estrito. A justificação é relativa à formação das crenças de um sujeito, e isso pode ocorrer por diversas maneiras, não necessariamente por argumentação. Para um material introdutório, cf. Roberto Audi (2004). Quisemos, por perfeccionismo técnico, mencionar essa questão técnica. Tanto a premissa quanto a nossa objeção permanecem as mesmas, apesar desse disclaimer.

“Mais à frente, ele diz que é possível defender algo sem uso de argumentação, como ocorre no uso de panfletos”

R: Você confundiu tudo. Eu disse ‘afirmações panfletárias’, não ‘panfletos impressos EM PAPEL’.

Ocorre aqui uma troca do conceito por trás do termo, porque Hoppe usa o termo “defender” no sentido de argumentar a favor e não no sentido de propagandear. Ademais, o processo que está em curso no exemplo dado pelo Rian não é um processo de argumentação, mas sim de persuasão, no qual vejo possibilidade de não se usarem textos proposicionais

R: Você simplesmente fez um argumento circular partindo de uma suposta “definição dos termos para Hoppe”: Toda posição ética, para ser racionalmente defensável precisa ser justificada por argumentos e toda posição ética para ser justificada por argumentos precisa ser racionalmente defendida. Ou seja, você disse uma tautologia vazia e não argumentou nada.
Em outras palavras, você diz que o Hoppe usa ‘defender’ no sentido de ‘argumentar’. Se isso é verdade, então o Hoppe diz que só se pode argumentar racionalmente se se argumentar. Uma tautologia, que não diz nada. Isso é chamado de ‘circulo in probando’. É fazer uma tautologia, algo que gira em círculos, partindo de uma re-definição com sinônimos para aparentar ser um argumento. Portanto, ao entender (muito mal) “defesa” como “argumentação”, você confunde os termos do Hoppe que estão muito bem distintos na premissa e ainda incorre em uma circularidade tautológica.

Vamos para a 2)

Os argumentos acerca da minha objeção a 2 proposição Hoppeana, demonstram que o crítico não entendeu que a agressão, embora obviamente indesejável, é possibilidade lógica; e se for possibilidade lógica, não dá pra tomar seu contrário (a não-agressão) como a priori argumentativo.

Ele só é um pouco prolixo pra confundir o que é condição ética de debate com o que é requisito formal de uma argumentação estrita. Posso ser tão prolixo quanto ele pra dizer isso, mas esse é o cerne. Ele confunde condição ética de debate com requisito lógico de argumentação. A partir daí, gera um non sequitur.

E mesmo que a gente aceitasse a segunda premissa, que a gente aceitasse que a ética é condição formal da argumentação, ainda assim a primeira premissa se manteria falsa. Ela não se altera por causa disso.

Simplesmente há um não entendimento acerca do que é possibilidade lógica. Se estamos falando das condições a priori para toda argumentação possível, então tem que ter em vista o que possibilita toda argumentação possível, e não simplesmente a argumentação em um DEBATE ARGUMENTATIVO. A argumentação não ocorre somente numa troca entre interlocutores. O sujeito pode buscar a verdade, mas impedir outro de buscá-la, de modo algum invalida sua própria argumentação. As condições formais de uma argumentação podem ser cumpridas, como possibilidades lógicas, concomitantemente à censura do opositor ou à agressão do mesmo. Do fato de que isso seja logicamente possível se prova que transformar a não-agressão em condição formal da argumentação é um erro; essa condição, ainda que desejável, sempre vai ser posterior à própria argumentação, e por ser posterior à argumentação é que não vai ser uma condição da sua possibilidade, e não sendo condição de sua possibilidade não vai ser a priori da argumentação.

Não importa insistir em algo que seja eticamente desejável se estamos tratando do meramente formal e argumentativo. A “dialogicidade” não é condição de argumentação.

“O argumento de Hoppe não visa a provar a existência da propriedade, porque esta é, de fato, um dado inextirpável da realidade social. O que Hoppe pretende é justificar o direito de propriedade privada, ou seja, o dever de respeitar a propriedade do sujeito que a apropriou originalmente ou por contrato, que é algo totalmente diferente da questão de se a propriedade existe. É inconcebível vida humana em sociedade sem a instituição da propriedade, uma vez que alguém precisa decidir sobre o uso dos recursos, e propriedade quer dizer uso exclusivo. Alguém, é claro, tem que decidir sobre como se utilizarão os recursos. Pode ser um soberano decidindo sobre todas as propriedades ou então um grupo decidindo sobre algumas propriedades, e assim por diante, com infinitas possibilidades. A tese austrolibertária é a de que a única posição sustentável quanto a esse problema da Filosofia Política é a de que apenas o proprietário original (e aquele que adquiriu a propriedade por meio de contrato) pode decidir sobre sua propriedade (a questão de como alguém passa a ser dono de algo não está em debate aqui).”

R: O ser na ontologia, ou o próprio ser ontologico, ao trazer questões inerentes a si mesmo, concebe-a como naturais e se não naturais não devem ser justificadas tal qual alienadas de suas funções.
Ocorre que a prioridade privada é tudo, menos inerente. A própria justificativa de Hoppe contradiz essa concepção.

Quando Hoppe afirma que a propriedade privada é uma associação natural do homem e não um produto do processo histórico dá relações materiais, ele está não mais do que assumindo essencialmente uma interdependência do homem com a prioridade privada. Por tanto, não haveria o que justifica-lá. Seria não mais do que ‘Rechtfertigend die nicht zu rechtfertigen’ (justificar o injustificável).

Para criar uma função ao menos concebível que não anule a idéia de inerência do homem ao fator “propriedade privada”, Hoppe cria uma construção do entendimento humano para um eterno embate ético onde a racionalidade permeia todo o senso e argumentação. Ou seja, ele subtraí toda a historicidade do ser para dizer que este tem uma relação histórica com a propriedade privada (isso aqui já é absurdo o bastante), e ainda sim, afirma que tal relação é constituinte da realidade-social de maneira inseparável.

Ou seja, para ele, o ser não possui construção histórica de pensamento, mas ainda sim possui noção histórica de propriedade; Pois para Hoppe, o entendimento é um ‘dogma’, e não um processo materialista e dialético. Hoppe sequer chega a compreender o conhecimento do ponto essencial-filosófico como faria Kant, por exemplo.

No fundo, pouco importa se é possível defender racionalmente uma posição ética sem justificação argumentativa. Existe uma falha em todo silogismo, que é a necessidade de provar as premissas com um outro silogismo até o infinito. Existe uma premissa implícita que é: É necessário defender racionalmente toda posição ética. Dessa forma, supostamente para Hoppe teríamos que argumentar e dessa forma seria inevitável a dedução da norma chamada propriedade privada. Então quer dizer que eu tenho que defender racionalmente se é certo ou não estupro? Não, é errado e acabou. É da nossa natureza dizer que é errado porque nos tornamos assim a partir do materialismo histórico dialético. É nossa relação espontânea achar errado determinadas coisas. Direitos são convenções e se nós tivéssemos que ficar “racionalmente defendendo” , ficaríamos num debate eterno e a sociedade seria um caos absoluto. É necessário para a mínima reprodução e coesão social e para a ligação superestrutural entre os mortos, os que estão vivos e os que ainda vão nascer que nós tomemos certas coisas como norma. Em outras palavras: há de se entender o que o Hoppe disse (a argumentação como requisito da defesa racional); argumentamos (sem incorrer de maneira alguma em contradição performática, como já demonstramos) que há outras possibilidades de defesa racional: qualquer defesa que não se valha de argumentação (seja por proposições, seja por imperativos) — mas que por trás disso tudo nós ainda deixamos o pressuposto de que uma defesa da ética precise ser racional, quando de modo algum precisa. Aceitamos esse pressuposto sem questioná-lo. Respondemos à premissa aceitando esse pressuposto, e ainda conseguimos responder. Questionamos, agora, o pressuposto que tínhamos aceitado. Hegel já havia refutado isso há anos:

“O cepticismo é uma confusão puramente casual – a vertigem de uma desordem que está sempre se reproduzindo.
é uma consciência sungular, de todo contingente, uma consciencia que é empirica, dirigda para o que não tem para ela realidade nenhuma: obedece àquilo que para ela não é nenhuma essência; faz e leva à efetividade o que para ela não tem verdade nenhuma. ” -Hegel

Continuando a réplica:

Em seguida, o crítico coloca uma frase de Ludwig Von Mises para combater a a noção monista. Ele basicamente diz que:

“A razão e a experiência nos mostram dois mundos diferentes: o mundo exterior dos fenômenos físicos, químicos e fisiológicos e o mundo interior do pensamento, do sentimento, do julgamento de valor e da ação propositada. Até onde sabemos hoje, nenhuma ponte liga esses dois mundo”

Isso é pura tautologia. Anti-cientifica por sinal. Há não só uma ponte, como estes são o mesmo em formas diferentes.

Explicando melhor: o próprio pensamento só é pensamento pois resulta de sinapses e conexões do sistema nervoso, e portanto, também é matéria. Não se pode falar de algo “imaterial”. Sendo mais rigoroso: falar em algo imaterial é o mesmo que falar em alma.

Engels já demonstrava isso no Anti-Dühring:

“Mas, se queremos, na realidade, saber o que são o pensamento e a consciência e de onde procedem, saberemos, então, que são produtos do cérebro humano e o próprio homem nada mais é de que um produto natural que se formou e se desenvolveu dentro de seu ambiente e com ele. Tiramos, então, a conclusão, lógica por si mesma, de que os produtos do cérebro humano, que não são, em última análise, mais que produtos naturais, não se contradizem, mas se harmonizam com a concatenação geral da natureza.”

As sinapses são afetadas pelos neurotransmissores e esses transmissores geram excitações que permitem o prosseguimento do impulso elétrico ou retardam-no. Cada neurônio não pode se comunicar com qualquer outro, mas sim com neurônios dentro de um sistema local que pode ser um córtex ou um núcleo, que, por sua vez, se comunicam com sistemas mais complexos e assim por diante até formar o todo complexo que chamamos de “mente”, com suas inúmeras ligações e vias de comunicação entre sistemas internos de neurônios. A configuração desses sistemas cerebrais também é uma coisa material em si, pois é gerada a partir dos processos do sistema nervoso e sua comunicação com os outros sistemas. O ponto é que isso não muda o fato de que tudo isso (incluindo seus produtos) são coisas materiais pertencentes ao mesmo mundo dos fenômenos físicos e fisiológicos, como Mises se refere. O “imaterial” só existe porque a apreensão disso também é feita pelas mesmas excitações e liberações e recepções de neurotransmissores nos neurônios, que são coisas materiais. Falar em um substrato ou em um produto imaterial é negar o caráter material da nossa existência (e de tudo que nos cerca).

Recomendação de leitura: MACHADO, Angelo Barbosa Monteiro. Neuroanatomia funcional. 2. ed. Sao Paulo, SP: Atheneu, 2004.

Por fim, Spizona já havia respondido isso ao mostrar que se deve considerar a existência de uma única coisa, a substância, da qual tudo o mais são modo. Aliás, como Aristóteles demonstrou, uma substância não pode ser acidente de si mesma; isso, em termos simples, já é a impossibilidade fatal na autopropriedade.

Como o meu argumento provando ontologicamente e cabalmente o monismo, e a rejeição a toda forma de dualismo a partir deste, não foi respondido, segue-se que o meu maior ataque continua de pé.

“A propriedade realmente pressupõe a existência dessas categorias, mas a autopropriedade não caracteriza um paradoxo. Propriedade quer dizer controle exclusivo, e com efeito apenas o indivíduo pode controlar seu corpo, exclusivamente”

R: Não. Controle exclusivo implica em posse, kantianamente falando. Propriedade é normativo.
Em seguida, você (vamos ignorar por enquanto os argumentos neurocientificos que refutam isso) dá um exemplo de autocontrole, não de autopropriedade. Propriedade é normativo, lembre-se disso. Você cometeu o famoso erro de categoria, da qual Kant já se referia.

“O sujeito é um ser físico e espiritual, ou seja, é corpo e mente. Ele é proprietário de si mesmo, ele controla exclusivamente a si mesmo”

R: As duas primeiras coisas citadas dizem respeito a modos diferentes da mesma substância, não sujeitos diferentes desempenhando papéis diferentes. Em seguida, você continua dando um outro exemplo de autocontrole. Isso não é autopropriedade.

“Não há, aqui, problema algum, a meu entender.
Uma parte do organismo que seja retirada já não faz mais parte desse organismo e poderia sim ser objeto de comércio. Aqui também não enxergo dificuldades teóricas”

R: Como isso comprova a autopropriedade? Você acabou de admitir que não faz mais parte do organismo.

Na verdade, o que acontece a partir daí é só resultado do erro de categoria inferido anteriormente. O resto do texto do crítico gira em torno de fatos causados por esse erro enorme, fruto de um salto lógico.

Meu crítico fala que tem um problema em falar do dualismo da forma que enxergo, e que a autopropriedade estaria provada pois há uma impossibilidade de haver um controle simultaneamente sobre o mesmo corpo. Só que aí ele já tá falando de auto-controle, e tenta fazer uma ligação disso com propriedade, que é algo normativo. O auto-controle é um FATO, propriedade é uma NORMA.

Você insere um conceito normativo [propriedade] em uma análise factual [controle]. Só você pode controlar seu corpo (vamos ignorar, por enquanto, os argumentos neurocientíficos contra isso, como eu já disse), mas isso é simplesmente um fato.

Agora, se você quiser chamar o FATO de só você CONTROLAR exclusivamente seu corpo de propriedade, tudo bem. É uma opção sua e é algo completamente anti-lógico e anti-kantiano. Mas aí fica muito mais fácil de refutar: se propriedade é meramente o auto-controle exclusivo (sem legitimidade, i.e., o componente normativo), então você está me dando uma ética descritiva. No entanto, você quer estabelecer isso por meio da argumentação, que já é uma prática no campo do normativo necessariamente, então fica totalmente ilógico: pois não há ligação que une o campo descritivo do que tu tá chamado de propriedade com o campo normativo da argumentação, e toda a ética argumentativa vai pro ralo. Se você tentar dizer que propriedade, no entanto é descritivo (e não é, por fatores óbvios, mas vamos prosseguir), você está necessariamente confundindo com posse, e logo a ética vai pro ralo de qualquer jeito por relativismo.

O resto do texto, frente a isso, torna-se irrelevante de comentar, haja vista que o pressuposto está errado, e com ele, os argumentos posteriores frutos deste, também. Frente a isso, torna-se impossível prosseguir após essa incongruencia, e tenho por finalizado minha argumentação.

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