O blog Devaneios Liberais deu prosseguimento ao nosso debate, como pode ser visto aqui, para quem se interessar em ler a resposta:

https://devaneiosliberais.wordpress.com/2017/03/06/contra-a-cpl-part-1-respostas-as-criticas/

Eu demorei para responder a crítica por algumas razões, dentre elas: problemas pessoais, faculdade, até sai do facebook por isso e também precisei adiantar algumas leituras (já que sempre tento manter um ritmo constante de leitura e aprimoramento intelectual). Porém, aproveitei para incluir, dentre as leituras feitas, obras do autor austríaco Friedrich Hayek, como ‘The Sensory Order’ e ‘The Market and Other Orders’, já visando uma preparação e aprimoramento maior dentro da terminologia que é usada pelo meu querido crítico hayekiano, José Hamilton.

A última crítica do blog aqui não foi escrita por mim. Na verdade, eu contribui com a menor parte (uns 3 parágrafos no final), pois estava sem tempo. Em sua maior parte, foi feita por outros 2 membros da CPL, tanto que fiz questão de assinar com três nomes no final. A partir de agora, serei eu mesmo que estarei respondendo, Rian Lobato. A partir disto, algumas coisas podem mudar por divergências naturais com os outros autores.

Dito isso, irei abordar as críticas pertinentes no texto dele. Eu gostaria de categorizar esse artigo em três partes:

1 – ‘A transformação’ ( junto com algumas notas explicativas para algumas outras questões pertinentes)

2 – A ciência a favor da TVT e contra a utilidade marginal

3 – Problemas menores  

Em primeiro lugar, antes de dissertar sobre o artigo em si, gostaria de ressaltar que eu notei que a intenção do post não era em ‘refutar’ a teoria do valor-trabalho. O autor tem a bagagem necessária, epistemologicamente falando, para saber que as teorias funcionam em conjunto e de forma estrutural, algo consenso no estudo da epistemologia, o que impossibilita uma ‘refutação’ em si; então gostaria de pedir que não se preocupasse com uma pretensa má interpretação dessa questão. Em outras palavras, o Hamilton tem consciência do critério “prático” das teorias, ele aceita que as teorias funcionam de uma forma estrutural e que, se não for autocontraditória, não é ‘refutável’ – porém, ele só aceita a que melhor prevê fenômenos é a melhor. É pragmático. Se, por acaso, ele achar que a TVT não consegue explicar os fenômenos com a mesma qualidade e consistência da utilidade marginal, a segunda hipótese é superior; em outras palavras, não há uma competição, mas uma negação direta uma da outra. Meu papel aqui é provar o contrário. E só pra esclarecer, estou considerando TVT em Marx mesmo, que é o que está em jogo. Dito isso, podemos avançar.

1 –  ‘A Transformação’ ( junto com algumas notas explicativas para algumas outras questões pertinentes)

Meu crítico começa diferenciando a questão da utilidade e demanda em si. De uma maneira geral, eu concordo com ele, mas eu gostaria de aproveitar esse momento para ressaltar uma coisa acerca do conceito de utilidade \ valor-de-uso para mim, e quando me refiro a isto: Se a teoria de Marx for entendida adequadamente, em toda a sua profundidade, seu conceito de utilidade pouco tem a ver com o mesmo conceito neoclássico. Enquanto para os autores dessa corrente, a utilidade se esgota em uma relação subjetiva entre indivíduo e objeto, na teoria marxista essa relação subjetiva deve ser entendida como mera aparência.

O estudo adequado dos esquemas da reprodução (livro I d’O Capital) permite entender que a utilidade, em sua essência, refere-se às necessidades do capital e não de cada indivíduo, pois o sujeito social, no capitalismo, sofre uma inversão (o ser humano é substituído pelo capital, no papel de sujeito econômico e social).

Assim, a utilidade para os neoclássicos está muito longe da utilidade para Marx. E isso é natural que ocorra, pois estamos frente a duas teorias: a primeira com uma perspectiva unidimensional da realidade, e a segunda, dialética. Observe-se que, para Marx, a afirmação de que a utilidade seja uma relação subjetiva entre indivíduo e objeto não constitui erro ou engano; ela é de fato correta, mas insuficiente, pois a aparência é uma das duas verdadeiras dimensões da realidade. O erro aconteceria se pensássemos que a utilidade é só isso; o engano está na concepção da unidimensionalidade do real. Eu só gostaria de esclarecer isso.

“ (…) No equilíbrio econômico, a técnica produtiva é dada, e quando se diz isso não se diz que só em equilíbrio conhecemos como produzir algo no sentido das leis físicas e químicas que determinam as possíveis maneiras de combinar os fatores produtivos para produzir algo, mas sim que a técnica produtiva mais barata é dada — a técnica produtiva que maximiza a eficiência econômica. Em equilíbrio, as quantidades a serem produzidas e o que deve ser produzido também é dado. Tudo isso segue do pressuposto de que os indivíduos têm conhecimento perfeito. Nesse caso, os preços dos produtos e os custos incorridos têm uma correlação, porém, sabendo que correlação não implica em casualidade, só em equilíbrio a teoria de valor-trabalho ganha alguma força, pois nesse caso o preço aparenta ser de fato determinado pelas técnicas produtivas, no caso a técnica produtiva mais labour saving se todas técnicas produtivas pudessem ser reduzidas a trabalho. Porém, em desequilíbrio, apesar de que a teoria de valor-trabalho pode explicar o porquê do preço de desequilíbrio, não consegue explicar de forma comportamental os preços de desequilíbrio, visto que em tal caso a técnica produtiva mais barata não é conhecida de fato, nem o quê, o quanto e onde e etc., produzir, logo podemos ver como as escolhas dos indivíduos nesse caso têm uma relação inversa à esperada pelo teórico do valor-trabalho. No desequilíbrio, são as expectativas dos indivíduos dos preços que determinam quais técnicas, quanto e etc, produzir, ou seja, podemos ver que são os preços que determinam a técnica escolhida e não o inverso. O mesmo é no equilíbrio; todavia, devido as características do mesmo, a confusão pode emergir”

É importante destrinchar o que o Hamilton quis dizer aqui. Desequilíbrio aqui não assume a ideia de um equilíbrio parcial de curto prazo; ele assume que a TVT só conseguiria explicar o assim chamado desequilíbrio de longo prazo (e os custos de curto prazo).

Junto com essa noção de desequilíbrio, ele assume uma visão epistêmica hayekiana. No contexto, o único caso que se está em equilíbrio é o indivíduo com suas preferências dado o que ele sabe. Ele está basicamente falando que em equilíbrio, há o conhecimento perfeito da quantidade de coisas que devem ser produzidas e do que deve ser produzido. Nesse caso, ele diz que a TVT seria válida nesse cenário pois há uma correlação mais direta entre o preço e o custo \ técnicas produzidas quando há conhecimento perfeito.

Mas ele está querendo também dizer que como o mercado nunca está, de fato, em equilíbrio, os agentes nunca sabem quando, onde e o que produzir e em que quantidade, portanto o menor custo não seria conhecido a priori (pela limitação epistêmica dada pela dispersão do conhecimento na sociedade). Ou seja, a TVT vai conseguir explicar desequilíbrios no longo prazo, pois no longo prazo os custos de produção importam pra explicar os preços. Mas não no curto prazo onde há a chamada incerteza knightiana (não que não importem no curto prazo, é que para ele, o que vai determinar os preços são variáveis comportamentais individuais).

Exatamente a mesma crítica podemos encontrar, de uma forma mais simplificada, no trabalho de Robert Murphy e sua crítica a TVT:

“O elemento tempo: A teoria do custo pode explicar apenas o preço “natural” (de longo prazo) de um bem; ela não é capaz de explicar as flutuações diárias do preço de mercado que caracterizam qualquer bem real” 

Fonte: https://c4ss.org/content/39786

 

Isso tudo está tremendamente errado, mas irei passar adiante apenas para poder abordar tudo isso de uma vez.

“Aqui cabe um ponto crucial da crítica feita. A ideia da confusão entre preço e valor. Como foi explicitamente dito no texto, o preço corrente de mercado (desequilíbrio) de fato é diferente do valor na teoria de valor-trabalho, todavia a teoria tem por fim explicar o preço que ocorreria sem as forças desequilibradoras, o preço natural de algo; todavia, se a teoria nunca estabelece em que condições devemos esperar que o preço natural ocorra, nem o processo de comportamentos que leva a tal preço de mercado para o preço natural, então ela é inútil como teoria para explicar qualquer preço, visto que apenas se supõe um conceito que não tem relação alguma com o preço — é apenas uma construção mental do teórico sem contrapartida no comportamento na realidade, um ente desnecessário na explicação do fenômeno.  Foi nesse sentido que tratei de preço o resto do artigo, ou seja, o preço natural, pressupondo estados de equilíbrio ao descrever a teoria de valor-trabalho. O exemplo citando Smith mostra claramente como a ideia de preço natural era a tratada. Na própria citação, Smith fala “é natural  que um castor  deva ser trocado por ou ter o valor de dois cervos”. Como sabemos, preço é uma relação de troca, e Smith fala claramente do preço natural, ou seja, o que é natural que ocorra nessas condições a troca, ao dizer que a teoria de valor-trabalho não explica preços como do fator terra, bens irreproduzíveis, salários e etc., estou falando dos preços de equilíbrio deles (…) Na verdade, elaborou-se da maneira mais sólida a teoria de valor-trabalho, como os preços sendo resultado institucional das condições produtivas, sem levar para o lado de como o trabalho tem valor por “despendido de suor e músculos humanos”. Tal abordagem foi feita para analisar a ideia dos preços de equilíbrio para isolar as limitações da teoria de valor-trabalho”

A crítica de Hamilton, para simplificar, gira em torno dessas proposições:

1 – O valor não tem influência no processo de formação do preço;

i.e. Ele quer castrar o valor como base do preço na TVT e fazer dela uma teoria dos preços independentemente do valor.

“(…) visto que apenas se supõe um conceito que não tem relação alguma com o preço (…)”

2 – A teoria tem como sua finalidade, explicar preços naturais, em equilíbrio;

“(…) todavia a teoria tem por fim explicar o preço que ocorreria sem as forças desequilibradoras, o preço natural de algo (…)”

3- Porém, a TVT não estabelece condições para determinar os preços naturais dentro do mercado, nem o porque e como o preço de mercado se tornaria preço natural, que é o que validaria a teoria;

“(…) a teoria nunca estabelece em que condições devemos esperar que o preço natural ocorra, nem o processo de comportamentos que leva a tal preço de mercado para o preço natural, então ela é inútil como teoria para explicar qualquer preço”

4 – A TVT não consegue explicar de forma comportamental as oscilações \ flutuações dos preços das mercadorias;

“ (…) não consegue explicar de forma comportamental os preços de desequilíbrio”

5 – A TVT não explica preços de bens irreproduzíveis nem sequer em equilíbrio;

“(…) ao dizer que a teoria de valor-trabalho não explica preços como do fator terra, bens irreproduzíveis, salários e etc., estou falando dos preços de equilíbrio deles (…)”

Darei uma resposta direta a todas essas questões, que partem de confusões do autor a respeito do que propõe a TVT, seus conceitos e o funcionamento dela:

1 – O valor existe, e tem sua importância em dois pontos: a) no processo de formação dos preços, b) como categoria de análise para investigação histórica-sociológica acerca do que faz um objeto ser uma mercadoria (ou o que é em si uma mercadoria, i.e., a forma que a riqueza toma forma em uma sociedade produtora de mercadorias).

Quanto a a), o valor define os preços de produção, quando se manifesta como valor-de-troca; os preços de produção, por sua vez, irão definir os preços de mercado. Esse processo irá ser melhor explicado daqui a pouco (a chamada ‘transformação’, que dei nome a esta parte do artigo).

Quanto a b), é assim: A metodologia marxista parte dos fatos, utiliza-se da abstração e depois nega [supera] a abstração, partindo de volta para o concreto como diz o professor Jose Paulo Netto:

b.1) Há uma necessidade histórica de analisar o capitalismo na época de produção “natural”, ou produção artesanal, onde todos eram consumidores e produtores, portanto havia um equilíbrio de mercado, dessa forma preço=valor de troca (não há exploração ignorando a exploração dos aprendizes etc). Então toda mercadoria é paga pelo seu valor pleno.

b.2) No desenvolvimento contraditório e desigual do sistema, a universalização da “liberdade” do processo de troca e produção cria um paradoxo: os trabalhadores que não são donos dos meios de produção.

b.3) Marx mesmo afirma que nesse estágio o preço só raramente equivale ao valor de troca de forma meramente acidental por causa das “anomalias burguesas” ou desequilíbrio de mercado. Essa aliás é um das suas discordâncias com Proudhon.

b.4) No momento em que é reconhecido o desequilíbrio de mercado e a defasagem entre preço e valor de troca, a troca de mercadorias não são feitas pelo seu equivalente e nenhuma mercadoria recebe o pagamento do seu valor pleno (aviso: o fato de, em última instância, o valor não corresponder aos preços, NÃO MUDA O FATO de que o valor foi determinante dentro do processo para o surgimento dos preços, o que como eu disse, será melhor explicado daqui a pouco).

b.5) A conclusão é de que a exploração é universalizada no capitalismo.

b.6) A partir do momento em que se analisa as relações materiais do ser social e se compreende seu conteúdo e forma é possível construir um edifício teórico que determina as leis que ditam a superestrutura da sociedade (leis, religião, arte, costumes, etc).

O valor também tem a necessidade de existir para entender como algo é mercadoria numa sociedade capitalista, isto é, a propriedade em si que um objeto toma, se transformando em mercadoria, e que o diferencia de um objeto que não é mercadoria; ou seja, o valor tem a necessidade de existir como uma propriedade qualitativa que representa a manifestação da mensuração da riqueza numa sociedade produtora de mercadorias.

Vemos que o valor portanto, tem uma utilidade histórica, qualitativa, sociológica e econômica (ou seja, ele é importante para a explicação dos preços; isso será melhor explicado em breve), ao contrário do que o caro Hamilton tenta inferir.

2 – A Teoria do Valor-Trabalho não tem por fim explicar o preço que ocorreria sem as forças desequilibradoras, i.e. o preço natural de algo. (*) Isso é um disparate total, que não corresponde a função da TVT. Muito pelo contrário, a TVT, para fins práticos, tem sempre a finalidade de trabalhar e explicar os preços em constante desequilíbrio, embora consiga explicar os preços em equilíbrio (como o próprio Hamilton sabe); mas não é essa a finalidade dela, e muito menos uma limitação: pelo contrário, é aqui que, fora da abstração que Marx faz em vários pontos (assumindo o equilíbrio) para entender certos fenômenos do capitalismo, está sua finalidade e análise prática.

Esse aqui foi o erro fatal de todo o artigo do meu crítico, fruto de sua confusão com as abstrações que Marx faz em O Capital, mesmo que ele avise sempre quando essas abstrações serão feitas; esse também foi um dos erros fatais de Böhm-Bawerk em suas críticas, mas este cometeu o erro achando que as mercadorias seriam vendidas no mercado pelo seu valor.

As trocas e os preços, para a TVT, ocorrem fora do “equilíbrio”, com preços de mercado gravitando em torno de uma média dada pelos preços de produção, como explicarei logo adiante detalhadamente (estou falando mais de uma vez, pois é importante ressaltar que todo o processo de transformação de: valor > preços de produção > preços de mercado serão explicados detalhadamente depois dessas respostas diretas).

Portanto, ao contrário do que o meu querido crítico inferiu, a TVT de nenhuma forma tem por fim explicar preços em equilíbrio, embora possa os fazer sem problemas, como Hamilton bem delimitou. A finalidade da TVT é justamente explica os preços de mercado, i.e., os preços efetivamente trocados dentro do mercado na sociedade capitalista.

(*) Em verdade, eu digo, a finalidade da TVT nem sequer é explicar os preços; a finalidade da TVT é, em primeiro lugar como já dizia o falecido e saudoso Reinaldo Carcanholo, entender o funcionamento do Capital e como ele age dentro do sistema capitalista. Mas como aqui estamos adotando uma postura e abordagem economicista, podemos fazer esse relativo ‘reducionismo’ em dizer que a TVT tem por finalidade explicar os preços de mercado, e não os ‘preços naturais’ como Hamilton afirmou.

3 – A TVT não estabelece condições para esperar os preços naturais dentro do mercado, pois os preços dentro do mercado nunca estão de fato (a não ser por pura coincidência) ‘naturais’, i.e. em equilíbrio; não há porque delimitar em que situações esperar isso, se isso não acontece em regra, a não ser por coincidência. A TVT não tenta explicar o processo de comportamentos que leva o preço de mercado para o preço natural, pois isso simplesmente não acontece. Ela nunca inferiu isso. A TVT não trabalha (como finalidade, dentro do mercado) com os preços naturais, em equilíbrio.

O erro desse ponto 2 e 3 nasce do pressuposto de que a TVT quer trabalhar com os preços naturais dentro do mercado, e que então, a única explicação possível seria os preços de mercado se transformarem em preços naturais por meio de X processo, quando na verdade a TVT explica as coisas de forma contrária:  valor –> preços de produção (ou os preços naturais) —> preços de mercado.

4 – A TVT consegue explicar as oscilações comportamentais do mercado, partindo do ponto de quando os preços de mercado são transformados a partir dos preços de produção (naturais) e começam a estar sujeitos a estrutura do mercado, o ‘estômago’ do mercado, como Marx se referia. Os preços de produção (naturais) que vão o determinar, por sua vez, precisam do valor-trabalho para serem explicados.

5 – A TVT consegue explicar tanto bens irreproduzíveis dentro de equilíbrio quanto fora de equilíbrio. Bens não produzíveis diretamente por trabalho humano tem seus preços definidos com base na expectativa de criação de valor na economia produtiva e sua realização nas taxas e massas de lucro. Por exemplo: mesmo uma terra virgem antes de qualquer trabalho para poder consumir sua utilidade, é comercializada com referência na especulação do que nela pode ser produzido e trabalhado, ela tem valor da renda que gera com o trabalho que nela poderá se empregar para produzir. Assim como ela só é vendida quando for, em primeiro lugar, trabalhada antes. Terra não cultivável pode facilmente ser explicada pelas teorias da renda da terra de ambos Ricardo e Marx.

Se está a se falar de coisas como obras de arte, há várias interpretações, mas basta unicamente se dizer que o preço destes podem ser explicados como instâncias de monopólios.

Para todas as críticas em questão, eu preciso demonstrar todo o processo pelo qual a TVT se transforma em preços de mercado. Ou seja, a transformação. O objetivo dessa explicação a seguir é:

  • Mostrar que o ‘valor’ existe e tem sim importância, já que é a partir dele que irá ser possibilitado o processo para o surgimento preços (mostrarei provas na próxima seção que o processo por meio do qual isso acontece está correto e explica os preços de forma excelente).
  • Mostrar que a teoria do valor-trabalho não se prende ao equilíbrio ou que tem a finalidade de explicar unicamente os preços naturais, isto é, ela não ‘para’ de agir nos preços de produção ou naturais, mas o final do processo leva até aos preços de mercado, que irão explicar de forma comportamental os preços em desequilíbrio, numa taxa de acerto perfeita (como já citado, provas disso serão mostradas na próxima seção); ou seja, nas palavras do Hamilton, irei explicar aqui: ‘o processo de comportamentos que leva até aos preços de mercado’.

Para isso, irei disponibilizar o link de um artigo aqui do meu blog, e peço para que não prossigam esse artigo aqui, sem antes olhar esse, que cumpre o que falei acima (*):

https://reflexoesparaoamanhecer.wordpress.com/2017/04/23/a-transformacao-do-valor-em-precos-de-producao/

(*) a razão de eu não colocar o conteúdo aqui é de que, iria ficar deveras extenso.

Irei presumir, a partir deste ponto, que você já leu o artigo acima. Ele é importante para explicar o que vem a seguir, pois mostra detalhadamente (de forma esmiuçada) como o valor vira preço de produção, isto é, a categoria ‘valor’ se relaciona com os ‘preços de produção’. A partir de agora, considerarei os valores já transformados devidamente em preços de produção.

Bem, como vimos, a partir da categoria ‘valor’, podemos encontrar os preços de produção ou os preços naturais. Porém, o que poucas pessoas sabem, é que a TVT não para por aqui (isto é, situações de equilíbrio, já que é o preço natural sem as ‘forças desequilibrantes’ do mercado, nas palavras do crítico).

De fato, havia-se um problema com a TVT em Smith, onde ele não sabia ao certo o que era que fazia esse processo. Porém, isto mudou com Marx, onde ele delimitou um processo extenso no Capítulo X de O Capital III. A ignorância de muitas pessoas quanto a existência ou a delimitação do processo que leva aos preços de mercado, é perfeitamente compreensível, como eu presumo que o próprio Hamilton não o leu  – cópias de O Capital III em português não podem ser facilmente adquiridas, e O Capítulo X é considerado por muitos como um dos, senão o mais, capítulo mais difíceis de toda as obras de Marx – não obstante, na minha opinião o mais brilhante.

Sem mais delongas, qual o processo, nas palavras de Hamilton, de comportamentos que leva até aos preços de mercado?

Irei simplificar de uma forma que não fique muito confusa. Nós temos o valor, que se torna preço de produção pelo processo do link colocado acima; quando temos os preços de produção, esse é o ‘preço natural’ das coisas. Mas como já se sabe, o preço que achamos no mercado se chama “preço de mercado” ou “preço efetivo” (não há muito consenso sobre essa nomenclatura). É o preço compartamental do mercado, com as ‘forças desequilibradoras do mercado’ que Hamilton disse.

Ele é um preço que depende das estruturas do mercado e de oferta e demanda em cada mercado e gravita em torno do ‘preço de produção’; funciona como uma “média”, ou seja, uma ‘âncora’, (*) que é formado por: (1+p)*preço de custo,
Onde:
preço de custo é o desembolso (em valor) de capital constante + capital variável (c+v)
p = taxa média de lucro = somatório do mais-valor/(somatório do capital constante + somatório do capital variável),
p = M/(C+V).

(*) Aqui vai uma ilustração de como funciona essa ‘média’ ou ‘âncora’, onde os preços de mercado ficam gravitando em torno dos preços de produção:

preço

Ou seja, o preço ‘natural’ ou ‘preços de produção’ (que vem através do valor dispêndio no trabalho) que citei ali, vira então uma ‘média’ onde as forças do mercado e as estruturas de oferta e demanda vão ficar oscilando em torno e gerando preços diferentes em situações de desequilíbrio. Quando esse preço é gerado nessas situações, esse sim é o preço de mercado, explicado pela TVT.

Olhe na imagem acima como a linha vermelha, ou seja os preços de produção (preço natural) funciona como uma ‘média’ (lucro / prejuízo) onde a linha verde (preços de mercado) vai ficar oscilando para cima e para baixo, obedecendo às leis do mercado, ou as, nas palavras do Hamilton, ‘forças desequilibrantes do mercado’. O descolamento entre preço de mercado e preço de produção se da justamente por oferta e demanda – um preço referência dada certa tecnologia.

Além de O Capital III, Capítulo X, isso também é brevemente descrito por Marx em ‘O Salário, Preço e Lucro’:

“Até agora o preço de uma mercadoria no mercado coincide com o seu valor. Por outra parte, as oscilações dos preços do mercado que umas vezes excedem o valor, ou preço natural, e outras vezes ficam abaixo dele, dependem das flutuações da oferta e da procura, gravitando em torno do preço natural. Os preços do mercado se desviam constantemente dos valores. (…) Não posso agora esmiuçar este assunto. Basta dizer que se a oferta e a procura se equilibram, os preços das mercadorias no mercado corresponderão a seus preços naturais, isto é, a seus valores, os quais se determinam pelas respectivas quantidades de trabalho necessário para a sua produção”.

 

Portanto, como vimos, não há sentido em Hamilton implicar que a TVT não poderia explicar os preços, usando como pressuposto de que ela: 1) tem como finalidade apenas os preços naturais, como ele implicou; 2) ela supostamente não explicar o processo de comportamentos que leva os preços de mercado aos preços naturais; ela não o explica pois não é isso que ela descreve ou tem por finalidade, mas sim o processo valor -> preços de produção -> preços de mercado.

Para finalizar, é importante ressaltar que há sim alterações em diferentes tipos de marxistas, nesse processo de geração de preços de mercado (preços em desequilíbrio), tanto quanto os marginalistas tem divergências ou alterações entre si (austríacos e walrasianos por exemplo), mas nada que cause um problema muito grande.Vou citar apenas duas, para podemos prosseguir a próxima seção.

Por exemplo, os marxistas-sraffianos (famosos ‘Marx after Sraffa’) entendem que irá se gerar os preços de produção que por sua vez são determinados a partir a) do tamanho do produto, b) de uma variável distributiva exogenamente determinada (ex. salário real, preços administrados, taxa de juros) e c) dos coeficientes técnicos de produção (que determinam a produtividade e, portanto, o custo unitário de produção) e da tendência à movimentação dos capitais de um ramo a outro em busca da maior taxa de lucro, com tendência à formação de uma taxa geral. Assim, as modificações nos preços das mercadorias, refletem a luta pela apropriação do excedente.

Já para os marxistas que são kaleckianos, o preço de produção se simplificam na forma da soma dos custos médios da empresa e o preço médio das outras empresas. Ambas partes são multiplicados por dois coeficientes diferentes que representam o grau de monopólio que a empresa tem, quanto maior é o grau de monopólio, mais as empresas podem repassar o custo médio para os preços ou ignorar o preço médio do mercado.

 Particularmente, apesar de eu ser um marxista influenciado por tanto Sraffa quanto Kalecki, eu sigo o procedimento genérico para os preços de mercado, e é este que considero. Terminada essa seção, passemos para a próxima.

2 – A ciência a favor da TVT e contra a utilidade marginal

Meu objetivo aqui nessa seção é demonstrar que, o processo que demonstrei ali em cima é, não só correto, como tem forte apoio da ciência, demonstrando não só a veracidade da TVT e sua cientificidade comprovada, tal como a de seu processo explicado acima de transformação através de valor-trabalho -> preços de produção -> preços de mercado, e portanto, meus objetivos aqui nessa seção são:

  • Mostrando também a importância e existência da categoria ‘valor’ (enquanto categoria para explicar os preços e sua geração diretamente, pois meu crítico tem a intenção de que essa categoria ou não existe ou não teria importância para a explicação dos preços); ora, se como eu irei demonstrar abaixo, o processo de geração da TVT tem forte apoio cientifico e empírico, além de altíssima taxa de acerto nos preços, e esse processo depende do valor para acontecer, a conclusão óbvia é que o valor existe e tem relevência.
  • Confirmar que a TVT consegue explicar sim os preços em desequilíbrio (preços de mercado) de forma comportamental, i.e., que pode ser dito com segurança que a TVT, ao contrário do que infere o querido Hamilton e outros críticos como Robert Murphy, pode sim explicar as flutuações diárias no preço que caracterizam a realidade do mercado e das mercadorias sem o menor problema, e com uma ótima precisão.
  • O objetivo é portanto mostrar que a TVT está certa e é a única corretamente ou cientificamente provada, ao passo que a utilidade marginal apresenta uma série de inconsistências, algumas demonstradas por outras áreas da ciência e que irei mostrar, ou que no mínimo, ela não pode ser provada ou está sob bases muito frágeis, e portanto não é preferível escolhê-la.
  • A Física Confirma a TVT e Marx

Há 25 anos, dois matemáticos chamados respectivamente de Moshe Machover e Emanuel Farjoun, escreveram um livro intitulado chamado ‘Laws of Chaos’. Esse livro deu uma maneira radicalmente nova de ver como o capitalismo funcionava como um sistema caótico e desorganizado. Farjoun e Machover tiveram a idéia de ver que a física já havia desenvolvido teorias para descrever sistemas desorganizados e caóticos similares. Numa economia de mercado, centenas de milhares de empresas e indivíduos interagem, compram e vendem bens e serviços. Isto é semelhante a, na química, a um gás, onde um grande número de moléculas interagem, e ‘saltando’ uma na outra. A física fala de tais sistemas como tendo um “alto grau de liberdade”, o que significa que os movimentos de todas as moléculas individuais são “livres”
ou aleatórios. Hamilton pode se familiarizar com esse conceito e a noção de equilíbrio da ordem espontânea do mercado, mencionado nos trabalhos de Friedrich Hayek, ou como a alegoria a esta como a ‘mão invísivel do mercado’, em Adam Smith.

Mas, apesar das moléculas individuais serem livres para se mover, ainda podemos dizer coisas sobre elas no agregado. Podemos dizer qual será sua velocidade média (sua temperatura) e quais serão suas prováveis ​​distribuições no espaço. O ramo da física que estuda isso é a mecânica estatística ou a termodinâmica. Em vez de fazer declarações deterministas, ela trata de probabilidades e médias, mas ainda age com as leis fundamentais, as leis da termodinâmica, que foram ‘encontradas’ para governar o comportamento do nosso universo.
O fato curioso, é que quando aplicaram o método da mecânica estatística à economia capitalista, descobriram que as previsões que ele fazia coincidiam quase exatamente com a Teoria do Valor-Trabalho, tal como estabelecida no O Capital I. A mecânica estatística mostrou que os preços de venda dos bens variavam proporcionalmente ao seu conteúdo de trabalho, tal como Marx tinha assumido. Como o mercado é caótico, os preços individuais não seriam exatamente iguais aos valores do trabalho, mas se agrupariam muito próximos dos valores do trabalho, oscilando numa média dada por estes ao se converterem em preços.

É tarefa da ciência descobrir mecanismos causais. Depois de ter feito isso, podem se fazer previsões que podem ser testadas. Se duas teorias concorrentes fazem previsões diferentes sobre a realidade, podemos por observação determinar qual teoria é certa. Este é o método científico normal.
A teoria de Farjoun e Machover fez certas previsões que foram diretamente contra as previsões feitas por críticos de Marx, como Samuelson. Em particular, sua teoria prevê que as indústrias com alto índice de mão-de-obra serão mais rentáveis. A economia convencional prevê que não haverá tal diferença sistemática entre as taxas de lucro em diferentes indústrias. Quando testado, verificou-se que Farjoun e Machover tinham razão. Indústrias com alto índice de mão-de-obra são mais rentáveis. Mas isso é exatamente o que deveríamos esperar se a fonte de lucro fosse a exploração do trabalho e não o capital. Sua teoria fez previsões que não só se mostraram empiricamente, como acabaram por confirmar a teoria de Marx.

Outro avanço que citarei por curiosidade, foi o do físico Viktor Yakovenko, que mostrou em seu trabalho “The Statistical Mechanics of Money” que o dinheiro em uma economia de mercado desempenha o mesmo papel que a energia na física.
Assim como a energia é conservada em colisões entre moléculas, o dinheiro é conservado nos atos de compra e venda. Isso soa óbvio, mas o que não era óbvio era o que isso implica.

Yakovenko mostrou que as leis da termodinâmica implicam então que a distribuição do dinheiro as pessoas seguirão a mesma forma que a distribuição de energia entre as moléculas de um gás: a chamada distribuição de Gibbs-Boltzmann. Isso soa muito científico, mas o que realmente significa é que a a distribuição de dinheiro segundo Gibbs-Boltzmann, implica em dizer que algumas pessoas acabam com muito dinheiro e muitas pessoas acabam com muito pouco dinheiro. Diz que a distribuição do dinheiro será muito desigual, tal como vemos na sociedade capitalista.

De fato, Yakovenko mostrou que a distribuição de riqueza nos EUA se encaixa muito bem na distribuição Gibbs-Boltzman. Há uma tendência de pensar que os ricos devem sua riqueza à inteligência ou ao esforço, mas a física nos diz que não. Dada uma economia de mercado, então as leis do acaso significam que um monte de dinheiro vai acabar nas mãos de algumas pessoas. Na verdade, quando olhamos para os EUA, descobrimos que a distribuição da riqueza é ainda mais desigual que seria de esperar da lei de Gibbs-Boltzmann. Se a lei de Gibbs Boltzman fossem literais, haveria milionários, mas não bilionários. Por que a disparidade? As equações originais de Yakovenkos representavam uma economia que se assemelha ao que Marx chamou de “produção simples de mercadorias”. Assumiu apenas compra e venda.

O trabalho mais recente de Yakovenko, mostrou que se você modificar essas equações para permitir tanto o ganho de juros sobre o dinheiro, ou a contratação de trabalho assalariado, então as equações prevem automaticamente uma polarização da população em dois grupos. A grande maioria da população, a classe trabalhadora e a pequena burguesia, seguem uma distribuição de renda de Gibbs-Boltzmann. Mas há uma segunda classe, aquelas cujas rendas derivam do capital, cujaa  riqueza com seguem uma lei diferente, o que é chamado poder-lei. Isto, diz Yakovenko, prova que Marx estava certo quando disse que a sociedade moderna tem a tendência, em um abiente livre, de se polarizar em duas classes distintas e opostas: capitalistas e proletários. Assim, a física moderna mostrou que Marx não só estava certo em sua análise básica, mas estava certo porque suas conclusões derivam das leis mais básicas da física, as leis da termodinâmica, tal como confirmou também a Teoria do Valor-Trabalho.

2.2 – O Teste de Cockshott e Cottrell

Em ‘The Scientific Status of the Labour Theory of Value’, Paul Cockshott e Allin Cotrell fazem um grande trabalho, ao estabelecer os critérios pelo qual se define a cientificidade de algo. Foram elaborados alguns critérios pelo qual isso se tornaria possível; a grande surpresa foi ver que a TVT se encaixa em todos.

Mas não só isso; eles fizeram uma correlação baseada na predição de preços através da TVT (tanto a marxista, quanto a sraffiana, quanto a chamada TSSI, sistema único temporal)  e os preços sectoriais de 47 setores da Indústria Americana.

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Como pode ser visto, todas as estimativas da TVT são altamente correlacionadas com o preço de mercado; o que nos leva a crer que a TVT, de uma forma geral, tem uma enorme precisão de acerto, praticamente perfeita, com as estimativas da TSSI desempenho marginalmente melhor do que as outras duas. Porém, é preciso lembrar que a TSSI não é nada mais que a TVT marxista em uma ótica temporal diferente, feita como uma das interpretações para não entrar no assim chamado ‘problema da transformação’. Tanto que a TSSI foi criada pelo grande marxista Andrew Kliman – vemos portanto que a TVT marxista está em vantagem, e pode explicar os preços de mercado de forma excelente, pelo processo que foi explicado na primeira seção.

Cada setor industrial é simplesmente contado como uma observação. Também calcularam a correlação entre os logs das variáveis – para um termo de erro multiplicativo na relação preço-valor. O ranking das correlações permaneceram inalteradas (valores trabalho em 0,980, preços TSSI 0,986, preços sraffianos em 0,980). E calcularam também as correlações ponderadas, os pesos fornecidos pelo predicador varíavel (por exemplo, a proporção de mão-de-obra social representada por cada setor no caso dos valores trabalho): neste caso, os preços de TSSI estão ainda à frente, com uma correlação de 0,989, mas os valores de trabalho (0,987) ainda estão na vantagem do que os sraffianos (0,985).

Vemos portanto, mais uma forte prova cientifica da veracidade da TVT.

Link da pesquisa para ser analisado os critérios com calma (fora outros detalhes que não posso colocar de forma completa aqui neste artigo):

http://users.wfu.edu/cottrell/eea97.pdf

2.3 – A Pesquisa de Shaikh

Se tudo isso, não for o bastante, um estudo aprofundado foi realizado por, talvez um dos economistas vivos que mais admiro no mundo inteiro, Anwar Shaikh, na linha e moldes do teste anterior, mas com algumas variações – foi feito em vários anos diferentes. O grau de precisão pelo qual a teoria do valor-trabalho consegue explicar completamente os preços de mercado está em mais de 92%. Algo no mínimo engraçado e em ótima estatística, para o que nosso crítico quis inferior.

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Link da pesquisa: https://drive.google.com/file/d/0BxvNb6ewL7kOdWhYSEI4OVJHTkk/view

Na verdade, há mais e mais evidências apontando uma altíssima compatibilidade de preços de mercado, e o que seria gerado trabalhando com o valor-trabalho, isso tanto em situações de equilíbrio quanto de desequilíbrio. Para poupar tempo, irei colocar sucintamente mais algumas evidências aqui:

– Evidência de alta compatibilidade dos preços e a TVT, no mercado do Reino Unido: https://drive.google.com/file/d/0BxvNb6ewL7kOdWhYSEI4OVJHTkk/view

https://weeklybolshevik.files.wordpress.com/2013/05/paul-cockshott-allin-cottrell-greg-michaelson-testing-the-labor-theory-of-value-with-input-output-tables.pdf

– Evidência de alta compatibilidade dos preços e a TVT, na Espanha (a compatibilidade chegou até mesmo a 999999.9% em algum ponto):

https://weeklybolshevik.files.wordpress.com/2013/05/diego-guerrero-input-output-and-dynamic-values-a-spanish-perspective.pdf

– Evidência de alta compatibilidade dos preços no mercado Sueco, e a TVT:

http://reality.gn.apc.org/econ/DZ_article1.pdf

– Evidência de alta compatibilidade da TVT com a taxa de lucro de 18 países diferentes:

https://weeklybolshevik.files.wordpress.com/2013/05/dave-zachariah-labour-value-and-equalization-of-profit-rates-a-multi-country-study.pdf

Como podemos ver, a Teoria do Valor-Trabalho tem uma taxa de acerto nos preços praticamente perfeita em qualquer situação, através da sua modulação, algo em torno de 95%; isso dá um forte valor cientifico para a teoria.

Isso já é um contraste enorme com a Teoria da Utilidade Marginal, que tem como base a idéia de que os preços evoluem para níveis em que as utilidades marginais por $ são equalizadas em diferentes produtos. Isso é uma proposição infalseável, ou seja, não há um ponto de falseabilidade aqui, já que percepções e utilidades subjetivas não podem ser observáveis.

Tenho certeza que Hamilton, como um bom estudioso de Popper, entende muitíssimo bem o que isso significa quando estamos falando de epistemologia ou validação de uma teoria (eu não sou fã desse conceito e tenho críticas, mas acho que vale a menção). Não é como a TVT, onde é plenamente possível fazer estudos correlativos na estrutura dos preços. Já a utilidade marginal, qualquer observador poderia simplesmente afirmar \ mentir em dizer que reflete a utilidade subjetiva, tornando essa parte infalseável.

Porém, há uma parte da utilidade marginal que pode ser falseável: a parte que se refere que os preços serão estabelecidos igualmente a produtividade marginal, pois pode ser mensurado ou testado. É falseável. Não só é falseável, como já foi falseada, como R.E Hall mostrou em “The Relation Between Price and Marginal Cost in US Industry”.

Nesta pesquisa, o grande estudioso R.E Hall descobre e demonstra que muitas indústrias americanas tem o custo marginal abaixo do preço, uma contradição gigante na teoria. É analisado também uma série de possíveis explicações em defesa da utilidade marginal frente a este fenômeno, e todas são descartadas e refutadas eficientemente como incapazes.

Link da pesquisa: http://web.stanford.edu/~rehall/Relation-Price-JPE-Oct-1988.pdf

Porém, na minha opinião, o marginalismo não sofre apenas de problemas técnicos (no que diz respeito ao que é chamado de ‘infraestrutura’, economia); o verdadeiro problema do marginalismo é sociológico, e na sua abordagem dentro desse campo, o que leva a sérios erros.

O marginalismo abstrai toda a sociedade da teoria econômica por causa de sua afirmação de que o capitalismo corresponde a uma racionalidade formal, e não a uma racionalidade substantiva. A racionalidade formal é um cálculo puramente técnico dos meios e dos fins, em oposição à racionalidade substantiva, que se orienta em torno de valores ou objetivos mais elevados. Por exemplo, em ‘Ação Humana’, o economista austríaco Ludwig Von Mises afirma que a base da economia é as relações quantitativas naturais entre os objetos, exemplo: apenas tantos insumos podem produzir tanta produção, etc.

Para o marginalismo, quaisquer restrições ou limites ao sistema são puramente técnicos, resultado da escassez natural em relação aos nossos desejos intemporais, não sociais, e o mercado é o melhor mecanismo para organizar esses desejos. Isto significa que o modelo marginalista falhará se puder ser provado que as instituições capitalistas têm um “significado substantivo necessário ao sujeitar os indivíduos à constrangimento social”, como Marx afirmava.

Em outras palavras, se os limites e constrangimentos de nossa sociedade não podem ser demonstrados por aspectos técnicos como a escassez, mas pelo resultado de instituições sociais com valores particulares orientados para os interesses de grupos diferentes de pessoas, o marginalismo não terá justificativa para sua racionalidade formal, para sua abstração da sociedade da economia, e todo o edifício do marginalismo cai.

Não basta apenas apontar essa abstração como prova da natureza ideológica do marginalismo.

Temos que provar que é uma abstração ilegítima. Os marginalistas começam a trabalhar com o indivíduo isolado fazendo escolhas no vácuo e erigindo todas as suas idéias básicas sobre algumas observações simples sobre essas escolhas. À medida que o modelo se torna cada vez mais complexo, somando mais pessoas, mais mercadorias, dinheiro, divisão do trabalho, propriedade privada, etc., afirma-se que todas as suas observações básicas mantêm-se.

A expansão do modelo é vista apenas como uma questão formal. Porém, quando passamos de uma troca individual para um sistema de troca, estamos lidando com fenômenos diferentes. Numa economia de mercado, a troca não é mais e troca por utilidade direta;  em outras palavras, não estamos medindo nossa utilidade real para a mercadoria que abriremos mão em comparação com a utilidade da mercadoria que compramos. O dinheiro intercede como um mediador.  Os valores de uso são trocados por valores socialmente determinados. Qualquer reivindicação da racionalidade formal do comportamento do indivíduo torna-se dependente da racionalidade do sistema como um todo.

A existência do dinheiro, como já dissertava o Clarke, exige que renunciemos imediatamente aos princípios básicos da utilidade marginal. Nos modelos de troca simples colocados por marginalistas, ambos os atores podem avaliar plenamente os valores de uso dos itens que estão negociando. Mas quando estamos trocando coisas por dinheiro, não estamos apenas negociando duas commodities isoladamente. O dinheiro liga cada mercadoria a um ‘todo’ do mundo das mercadorias.

Agora, se fosse possível conhecer os valores futuros de todas as commodities, então seria possível generalizar o modelo de troca marginalista numa teoria de troca indireta. Mas não sabemos os valores futuros das coisas. Estes são inteiramente incertos. De fato, se os valores de todas as mercadorias fossem sempre conhecidos, não precisaríamos de dinheiro porque qualquer mercadoria poderia servir como dinheiro. Isso compromete todo o modelo marginalista.

Em outras palavras, o marginalismo só pode ter uma teoria de troca indireta (de mercadorias negociadas por dinheiro em vez de mercadorias trocadas entre si) se todas as partes têm informações perfeitas sobre os preços. Mas se fizermos essa suposição, não poderemos mais explicar a concorrência (ou o dinheiro). A existência do dinheiro é mal explicada pelos marginalistas pois o equivalente geral pressupõe ignorância e incerteza sobre o mercado. A função social do dinheiro como facilitador de trocas ou como um ativo líquido não elimina a incerteza do escambo,i.e, não se tem como ter certeza se as pessoas desejaram trocar dinheiro por determinada mercadoria no futuro. Ou seja, o dinheiro não possui liquidez tendendo ao infinito e portanto não há condições materiais para uma racionalidade perfeita. Ou seja, isso destrói completamente a suposta racionalidade do sistema.

Esse problema não é novo, e tentou ser solucionado por várias pessoas diferentes desde Leon Walras, os austríacos, Marshall e o próprio Keynes. Não vou entrar em todos eles, mas vou mencionar a tomada austríaca sobre esta questão: A segunda geração de austríacos como Mises estavam preocupados que a solução ‘desajeitada’ de  Walras para este problema deixa-se a porta aberta para os argumentos a favor de um planejador socialista, ou seja, uma pessoa que conheceria todos os preços e, portanto, eliminaria a necessidade de mercado. E de fato, isso se concretizou na obra de Oskar Lange e outros socialistas neoclássicos.

Por isso, rejeitaram a abordagem de equilíbrio geral que hoje associamos à economia neoclássica e desenvolveram uma teoria dos mercados como sistemas de informação dinâmicos. Em vez de indivíduos que exigem informações perfeitas, ao invés de mercados tendendo a um estado de perfeito equilíbrio como os marginalistas originais , os novos austríacos argumentaram que os indivíduos não têm informações perfeitas. Os preços são o que carregam a informação e o mercado é o lugar onde esta informação é “processada”, criando a mais eficiente câmara de informação. Isso conseguiu dar um jeito no problema da racionalidade que mencionei, mas o problema com este argumento é que a defesa do mercado agora depende meramente de fé e afirmações.Ao abandonar o rigor Walrasiano, resultou em que eles não tem um modo muito calculista ou racional para estabelecer a proposição fundamental da beneficiência empreendora e dos mercados, que se baseia no final das contas, muito mais em fé.

Só porque o mercado é uma expressão de preferências individuais não significa que é uma realização dessas preferências ou que é a melhor maneira de organizar os comportamentos individuais. E não há como provar isso sem esse rigor que foi abandonado. Em particular, eles não tem mais um jeito de conceber as propriedades formais do seu modelo, não tem mais um jeito de estabelecer o suposto caráter estabilizador. Ou seja, embora o modelo de trocas dinâmico austríaco seja infinitamente superior e mais realista ao genérico neoclássico, as conclusões que eles tiram a partir deste não tem uma fundação ou justificação racional.

É exatamente por isso que a defesa austríaca do mercado baseia-se mais nas críticas à burocracia e ao planejamento do Estado (o que poderá ser melhor trabalhado ou redarguido mais adiante no debate), e quando tentam sair disso, geralmente tem de apelar para proposições e ideias tão duvidosas e risíveis que, em alguns casos, nem sequer podem ser chamadas pejorativamente de pseudocientificas pois os próprios austríacos não conseguem ter a coragem de poder rotular como cientificas, para começar.

O que importa aqui é mencionar que o marginalismo sofre de constantes problemas de circularidades.

Dificuldades semelhantes enfrentam as teorias marginais do lucro e do salário. A defesa ideológica do lucro capitalista deve estabelecer que o lucro é um resultado natural de algum aspecto técnico da produção (a contribuição ao produto das máquinas ou da terra, as preferências subjetivas ao longo do tempo etc.) e não o resultado das relações sociais de dominação / exploração. Isto é impossível, porque o lucro é uma categoria de valor, e não de quantidades físicas de produtos, assim o lucro capitalista sempre pressupõe a existência de relações sociais capitalistas. No entanto, as várias teorias marginais do lucro sustentam que os salários, o aluguel e o lucro não são categorias qualitativamente diferentes baseadas em diferentes relações sociais com a produção.

Em vez disso, os marginalistas argumentarão, como fizeram os economistas clássicos, que os salários, o aluguel e o lucro são resultado de aspectos técnicos da produção. Mas não só o lucro é uma categoria de valor, e não uma categoria de quantidade física, o lucro também é determinado pela taxa geral de lucro que implica uma sociedade de produção capitalista, não produtores isolados.

A teoria da preferência temporal, geralmente associada a Bohm-Bawerk, tenta escavar o seu caminho para fora deste buraco, explicando o lucro não através dos aspectos físicos / técnicos da produção, mas através das diferenças na preferência temporal subjetiva entre aqueles que querem as coisas agora desejam salários) e aqueles que estão dispostos a esperar (capitalistas que esperam por seu lucro). Eu irei abordar na seção 3 um pouco de argumentos contrários a esta visão, me utilizando de Piero Sraffa, mas por enquanto deixo uma reflexão.

Mas aqui também não podemos realmente entender um período de tempo de produção sem recorrer às características muito mais sociais que a teoria da preferência temporal quer abstrair. Um período de produção depende da taxa de lucro e das taxas de salários, ambos fenômenos sociais que não podem ser reduzidos a preferências de tempo. Conceitos como “produtividade marginal do capital” e “produção indireta” (roundaboutness) não têm significado abstraído das relações sociais do capitalismo, uma vez que o objetivo da produção capitalista é produzir valor, não quantidades físicas. Não podemos medir a produtividade ou roundaboutness em termos de não-valor, porque sem valor não temos um padrão de unidade que todos esses diversos fatores (em inglês inputs \ outputs, o que entra e sai em X indústria por exemplo) por exemplo podem ser reduzidos.

Além disso, que razão temos para ser tão certos de que a preferência de tempo é sempre positiva e não negativa? Às vezes, em condições de incerteza, por exemplo, preferimos adiar a gratificação. Esta asserção absoluta de que preferimos os bens presentes sobre os bens do passado parece uma afirmação indefensável. Ainda mais, as estratégias de investimento capitalistas não têm nada a ver com retardar a gratificação ou medir os investimentos contra o consumo. Os capitalistas investem constantemente na produção em busca do lucro para o bem do lucro, compelidos pela competição e necessidade, não por suas preferências subjetivas. Porém, irei abordar isso melhor em breve.

Eu gostaria de trabalhar com várias críticas de autores diferentes aqui, mas creio que isso tomaria muito espaço e trabalho nesse simples artigo. Prefiro, portanto, escrever um artigo apenas sobre isso, ou quem sabe trabalhar com eles mais adiante no debate com o Hamilton, onde abordarei várias outras críticas mais técnicas de vários autores que me inspiram, como Sraffa, Joan Robinson, Clarke, etc. Por enquanto, eu gostaria apenas de finalizar esse artigo aqui deixando  a critica de um dos autores que mais me inspiram, Thorstein Veblen e seu discípulo Ezekiel Henry Downey.

A crítica de Veblen pode ser definida, primeiramente em suas próprias palavras, quanto ao fato de que a utilidade marginal é nitidamente limitada, por ser, do começo ao fim, uma doutrina do valor e, em termos de forma e método, é uma teoria da valoração. O sistema como um todo, portanto, se situa no interior do campo teórico da distribuição e não tem senão um impacto secundário em qualquer outro fenômeno econômico além da distribuição – tomando este termo no sentido aceito de distribuição pecuniária, ou distribuição em termos de apropriação. Ou seja, dentro deste espaço limitado, a teoria da utilidade marginal tem um caráter inteiramente estático. Não oferece uma teoria do movimento de coisa nenhuma, ocupando-se com o ajustamento dos valores a uma dada situação.

A utilidade marginal têm algo a dizer quanto ao impacto que mudanças econômicas dadas, aceitas como premissas, podem ter sobre a valoração econômica e, dessa forma, sobre a distribuição; mas quanto às causas da mudança ou ao desdobramento sequencial dos fenômenos da vida econômica, ela não diz nada; e nem pode fazê-lo, uma vez que sua teoria não é obtida em termos causais, mas em termos de teleologia.

Qualquer elemento da estrutura cultural, uma instituição ou qualquer fenômeno institucional, estiver envolvido nos fatos com os quais a teoria se ocupa, tal fato institucional é tomado como certo, negado ou dado por explicado. Se é a questão do preço, oferece-se uma explicação da maneira como as trocas ocorrem, de tal forma a deixar a moeda e o preço fora da explicação. Se é a questão do crédito, os efeitos da extensão do crédito sobre o movimento dos negócios são deixados de lado e faz-se uma explanação sobre como o tomador e o emprestador cooperam para facilitar suas respectivas correntes de rendimentos em bens consumíveis ou sensações de consumo.

 Isso acontece pois a utilidade marginal toma como seu ponto de partida comum a psicologia tradicional dos hedonistas do princípio do século 19, que é aceita como uma coisa óbvia ou de saber comum e é mantida de forma totalmente acrítica. O problema é que ela, a psicologia tradicional dos hedonistas (base da utilidade marginal) já é totalmente anti-científica e ultrapassada, psicologicamente falando.

O fundamento central e bem definido que é mantido dessa forma é o cálculo hedonista, como dito anteriormente. Sob a orientação desse fundamento central e de outras concepções psicológicas associadas e consoantes com ele, a conduta humana é concebida e interpretada como uma resposta racional às exigências da situação na qual os homens se encontram. Em relação à conduta econômica, ela é uma resposta racional e sem defeitos aos estímulos de prazeres e dores antecipados – sendo, normal e principalmente, respostas induzidas pelo prazer antecipado, pois os hedonistas do século dezenove e da escola da utilidade marginal são de temperamento otimista. A raça humana é (concebida como) previdente e clarividente em suas avaliações dos ganhos e perdas sensoriais futuros, embora possa haver alguma diferença (não apreciável) entre os homens a esse respeito. As atividades dos homens diferem (não apreciavelmente), portanto, quanto à agilidade de resposta e à precisão do ajustamento do custo de uma dor cansativa ao ganho sensorial futuro a ser percebido. Mas, em geral, nenhuma outra base ou linha de orientação de conduta além desse cálculo racionalista é adequadamente reconhecida pelos hedonistas econômicos.

Essa teoria pode levar em consideração a conduta apenas na medida em que seja conduta racional, guiada pela escolha deliberada e exaustivamente inteligente – a adaptação judiciosa aos requisitos da escolha principal [função objetivo].

As circunstâncias externas que condicionam a conduta são variáveis, é claro, e dessa forma elas têm um efeito variável sobre a conduta; mas esta variação é, de fato, concebida de modo a variar apenas quanto ao grau de pressão à qual o agente humano está sujeito pelo contato com tais circunstâncias externas. Os elementos culturais envolvidos nesse esquema teórico, elementos a respeito da natureza das instituições, das relações humanas governadas por usos e costumes de qualquer tipo ou conexão, não estão sujeitos à investigação, mas são tomados como dados, como preexistentes em sua forma final e típica, e configurando uma situação econômica normal e definida, sob a qual e em termos da qual o intercâmbio humano necessariamente se realiza. Esta situação cultural compõe-se de uns poucos artigos amplos e simples do mobiliário institucional, junto com suas implicações lógicas ou corolários; mas não inclui quaisquer consequências ou efeitos causados por esses elementos institucionais. Os elementos culturais assim tacitamente postulados como condições imutáveis precedentes à vida econômica são a propriedade e o livre contrato, bem como outros aspectos do esquema teórico do direito natural que estão implícitos em seu exercício.

Estes produtos culturais são concebidos, para os propósitos da teoria, como dados a priori em sua força plena. Eles são parte da natureza das coisas, de modo que não há necessidade de explicá-los nem de investigá-los quanto a como vieram a ser tais quais são, ou a respeito de como e por que mudaram e continuam mudando, ou que efeito tudo isso pode ter sobre as relações entre homens que vivem por e sob esta situação cultural.

Evidentemente a aceitação dessas premissas imutáveis, tacitamente, posto que de modo acrítico e como uma obviedade, pela economia hedonista, dá à ciência um caráter distintivo e contrasta-a com outras ciências, cujas premissas são de outro tipo. Como já indicado, as premissas em questão, no que são peculiares à economia hedonista, são:

(a) uma dada situação institucional, cujo aspecto substantivo é o direito natural à propriedade.

(b) o cálculo hedonista.

O caráter distintivo dado a este sistema teórico por tais postulados e pelo ponto de vista que resulta de sua aceitação pode ser sumariado ampla e concisamente dizendo que a teoria se restringe ao terreno da razão suficiente, ao invés de operar no terreno da causa eficiente. O contrário é verdadeiro na ciência moderna em geral (exceto na matemática), particularmente nas ciências relacionadas aos fenômenos da vida e do desenvolvimento. A diferença pode parecer trivial. É séria apenas em suas consequências. Os dois métodos de inferência – a partir da razão suficiente e a partir da causa eficiente – estão desconectados um do outro e não há transição de um para o outro; não há métodos para converter os procedimentos e resultados de um nos de outro. A consequência imediata é que a teoria econômica resultante tem um caráter teleológico – “dedutivo” ou “a priori” como se costuma chamá-la – ao invés de ser obtida em termos de causa e efeito. A relação que essa teoria busca entre os fatos com os quais se ocupa é o controle exercido pelos eventos futuros (percebidos) sobre a conduta presente. Os fenômenos correntes são tratados como condicionados pelas consequências futuras; e na teoria da utilidade marginal estrita eles podem ser tratados apenas no que se refere a seu controle do presente levando-se em consideração o futuro. Tal relação (lógica) de controle ou orientação entre o futuro e o presente envolve é claro um exercício de inteligência, um esforço de pensamento, e portanto um agente inteligente através de cuja presciência discriminadora o futuro percebido possa afetar o curso dos eventos presentes; a menos, de fato, que se fosse admitir alguma coisa na forma de elementos providenciais, a relação de razão suficiente opera na forma de discriminação interessada, a presciência de um agente que pensa sobre o futuro e orienta sua atividade presente com vistas a esse futuro. A relação de razão suficiente vai apenas do futuro (percebido) para o presente e é de caráter e força unicamente intelectuais, subjetivos, pessoais e teleológicos; enquanto a relação de causa e efeito corre apenas no sentido contrário e é de caráter e força unicamente objetivos, interpessoais e materialistas. O esquema de conhecimento moderno, em seu todo, se apóia, em sua base definitiva, sobre a relação de causa e efeito, sendo a relação de razão suficiente admitida apenas provisoriamente e como um elemento aproximativo na análise, sempre com a reserva inequívoca de que a análise deverá vir a ser baseada em termos de causa e efeito.

Lançadas essas bases, poderemos prosseguir com a crítica demolidora ao critério das preferências individuais dadas pelo discípulo do Veblen.

Para Downey, os fundamentos a partir da preferência individual da utilidade marginal são frágeis, pois no âmbito das preferências considera o homem um hedonista, que maximiza prazer e minimiza a dor, algo que não correspondem às descobertas da psicologia moderna. Seu individualismo metodológico não leva em conta o quadro institucional e a situação do mercado em que os homens tomam decisões econômicas.

No que diz respeito às insuficiências psicológicas da teoria, o autor considera que os homens não agem geralmente de acordo com critérios de maximização, mas como explicado acima, por razões de hábito, razões sociais e culturais, que, em suma são convencionais. Os homens não buscam a maximização da satisfação “em geral” ao longo do tempo, mas sim mais bens e objetos concretos. Isso não explica nada do fenômeno de formação de preços. Se você simultaneamente baixar o preço de suínos para U$ 8 em 10 de dezembro até US $ 6 em 14 de dezembro, é porque o preço marginal em que você está disposto a vender e o preço marginal em que você está disposto a comprar caíram simultaneamente?

A conclusão de Ezekiel Henry Downey é que a teoria não passa de um passatempo intelectual para as pessoas ‘limitadas’, e não ajuda a resolver ou explicar o problema dos preços, embora permita, tal como a escolástica medieval, apresentar toda uma série de terminologia abstrusa com hipóteses ad hocs e constantes erros de petições de princípio. A solução para Downey é outra teoria da ação e da escolha, a que ele chama de ‘valoração’. A idéia de “utilidade marginal” fica simplesmente descartada, ao se atacar o núcleo das preferências individuais da utilidade marginal.

Para mais aprofundamento, eu recomendo a leitura do artigo do Downey, “The Futility of Marginal Utility” publicada no Journal of Political Economy em 1910.

https://www.jstor.org/stable/pdf/1820794.pdf

3 – Problemas Menores

Nesse artigo, eu gostaria de responder algumas problemáticas menos pertinentes, mas que valem a pena serem respondidas:

“Como o próprio critico admite, se o produto não é produzível por trabalho humano, não existe nenhuma tendência do preço de mercado se igualar a seu valor (tal valor que proveria do trabalho despendido para poder se apropriar de tal bem). Logo, significa que o preço de equilíbrio desse bem não pode ser explicado pela teoria de valor-trabalho, e, se tal tipo de mercadoria é central nos processos produtivos, então até mesmo os preço dos bens produzíveis não teriam como ser 100% explicados pela teoria de valor-trabalho”

R: Bens não produzíveis diretamente por trabalho humano tem seus preços definidos com base na expectativa de criação de valor na economia produtiva e sua realização nas taxas e massas de lucro. Por exemplo: mesmo uma terra virgem antes de qualquer trabalho para poder consumir sua utilidade, é comercializada com referência na especulação do que nela pode ser produzido e trabalhado, ela tem valor da renda que gera com o trabalho que nela poderá se empregar para produzir. Assim como ela só é vendida quando for, em primeiro lugar, trabalhada antes.

Se está a se falar de coisas como obras de arte, há várias interpretações, mas basta unicamente se dizer que estes podem ser explicados como instância de monopólios.

Terra não cultivável pode facilmente ser explicada pelas teorias da renda da terra de ambos Ricardo e Marx.

“logo a teoria deve admitir que não pode explicar os preços monopolísticos”

R: Ela pode explicar de forma simples, mas exige uma formalização que Marx não chegou a desenvolver, introduzindo no modelo a existência de barreiras à mobilidade dos capitais. Marx não viveu a era plena dos monopólios, mas isso não tem problema, seus seguidores fizeram isso.

Dentre os marxistas que dissertam sobre preços de monopólios, encontramos Paul Sweezy, Paul A. Baran, Ernst Mandel, e Kalecki etc. Eu não vejo particularmente o menor problema nisto, pois como já disse antes, depois do valor ser devidamente transformado, o preço de produção em um produto pode ser simplificado \ dividido durante a transformação para preço de mercado na soma dos custos médios da empresa e o preço médio das outras empresas. Ambas partes são multiplicados por dois coeficientes diferentes que representam o grau de monopólio que a empresa tem, quanto maior é o grau de monopólio, mais as empresas podem repassar o custo médio para os preços ou ignorar o preço médio do mercado. Isso está muitissimo longe de ser uma ‘refutação’ a TVT, ou uma impossibilidade.

Há ainda a interpretação do Reinaldo Carcanholo frente a essa questão, mas que particulamente, eu não tendo a ser tão adepto, mas que se fazer necessário, poderei ‘invocar’ aqui.

“O resto do artigo trata de problemas filosóficos da teoria Marxista, porém não era apenas Marx que o foco da crítica. Smith, Ricardo e Mill também são criticados”

R: É importante frisar que eu não tenho interesse aqui em defender Smith, Ricardo ou Mill em sua totalidade, pois eles de fato cometeram vários erros, Smith por exemplo achava que o valor estava literalmente encarnado nas mercadorias, e era simplista em explicação dos mecanismos de mercado, soando até deveras metafísico ao assimilar todo o processo de conhecimento e interação dos indivíduos de uma ordem espontânea de mercado, a uma analogia de uma mão invisível com o teor teológico, de um Deus (o mesmo problema encontramos em Bastiat);

Já Ricardo deu a resposta certa, do jeito errado. Embora ele tenha feito um grande avanço, deixou uma série de problemas que só foram respondidos e consertados devidamente ou por Marx, Sraffa ou ironicamente por Walras

Portanto, voltando ao assunto, acredito que seria melhor se deixássemos de lado Smith, Ricardo e Mill, pois estes foram superados pelos os que estou realmente trabalhando aqui, no caso, Marx e Sraffa. É como se eu debatesse sobre o valor subjetivo me utilizando do Condillac, e não do Menger ou Jevons, por exemplo. Fica a sugestão.

“De qualquer forma, podemos substituir a ideia de mais-valia por renda do capitalista, simples assim”

R: A mais-valia não é a renda em si, a mais-valia é o diferencial entre o valor geral total no trabalho, e o valor que é renumerado. Ou seja, são as horas de trabalho e consequentemente o valor que é gerado a mais nesse tempo (por isso o nome).

Ver a mais-valia como questão simplesmente de renda (implicitamente o lucro) é uma visão não exatamente errada, mas que invarialmente vai levar a erros no futuro, pois é simplista e confunde causa e efeito. A mais-valia não é a renda do capitalista que vem através do lucro, mas sim o que possibilita e causa o lucro / renda existir, após a realização na mercadoria.

Devemos ter cuidado com simplismos, da última vez que um sujeito chamada Bohm-Bawerk confundiu terminologia básica (achou que o valor em si era medido pelo tempo, e não a magnitude do valor), escreveu um livro e ficou com fama de ‘refutador’, tendo demorado apenas uns 20 anos até que Isaak Rubin tenha eficientemente o respondido apontando todos os erros. Da mesma forma como os austrolibertários tem a péssima tendência a vulgarizar ou praticar reducionismo com a terminologia hayekiana através de simplismos, faz-se necessário o mesmo cuidado aqui para não causar problemas.

“risco não é apenas risco de vida, risco significa entrar numa situação que se pode perder. Por exemplo: qual o risco de eu arranhar meu carro? Qual o risco de eu ter que pagar o jantar do meu irmão caloteiro?

R: Eu utilizei o exemplo da vida como epítome / extremo para fins de comparação, invalidando todas as outras circunstâncias de risco; pensei que isso ficaria literalmente na cara para quem lesse. Quer dizer, o que as pessoas tendem geralmente a valorizar ao máximo é a sua vida, certo?

Portanto, se nem sequer na circunstância de risco de vida do capitalista a hipótese do risco estaria válida para justificar a exploração capitalista sob o proletário (pois implicaria em que proletário morreria de certeza), qualquer outra hipótese de risco envolvendo outro bem jurídico ou patrimônio estaria também automaticamente inválida, pois se a vida (e o risco no exemplo que dei) que é o bem mais valorizado, ainda não consegue justificar, imagina os outros, que são bens menores. Ou por acaso você acha que o risco de ter o carro arranhado se sobrepõe ao risco de perder a vida? Óbvio que não.

Eu simplesmente peguei o maior bem jurídico possível (vida) e coloquei ele na hipótese do risco, e argumentei que mesmo que o capitalista corresse o risco de perder sua vida, a exploração ainda assim não estaria justificada, pois o proletário estaria em uma situação ainda pior. Se mesmo com a ‘vida’ essa hipótese não se torna válida, não é com o risco de ter o seu carro arranhado ou de pagar jantar para um irmão caloteiro que ela se tornará.

Acreditei que isso ficaria evidente, mas acho que houve apenas um problema de interpretação.

“O sacrifício de ter que deixar de consumir mais no presente continua sendo sacrifício, fazer meras exceções com base em seu gosto não é valido, ou seja, ou se assume que “dor e sacrifício” é um justificador ou não fica se fazendo ad hocs para agradar seus fins políticos. Todavia não adoto tal visão ética, apenas que se uma pessoa quiser adotá-la deve ser coerente e caso tenha exceções se deve explicar o por que de maneira não ad hoc”

R: São sacrifícios qualitativamente diferentes. Qualquer um poderia justo notar isso, mas acho que isso deve se pautar em uma critica mais técnica.

Nos arquivos do Sraffa que estão sendo transcritos ainda, ele possui uma palestra não dada que se chamava Advanced Theory of Value. O argumento de Sraffa diz, por exemplo, que é um absurdo você medir qualquer coisa por tempo de abstinência ou sacrifício. Abstinência ou sacrifício em relação ao que? Não entra em forma relativa se não por analogia.

Fora que para você abdicar de bens presentes você precisa conhecer os custos, por exemplo, o do Crusoé do próprio Böhm-Bawerk, em seu livro, e isso pressupõe o ‘trabalho’ primeiro. Ele só podia abdicar porque ele tinha noção de quantos peixes ele pescava e se ele trabalhasse com a rede ele saberia que pescaria mais peixes. Sraffa também comenta que tempo de espera não é igual a produtividade. Você tem inúmeros métodos de produção que levam tempo, mas não são tão produtivos.

Além disso, como ele argumenta, a teoria austríaca de custos é totalmente inútil para determinar valor, porque uma vez que o valor deriva de outro produto e você só vê a relação, esse valor teria que derivar de outro e infinitamente. Então para que voçê tenha preferencia você ja tem que ter todos os custos determinados, que dependem do trabalho.

Vale lembrar que não ha tempo em Sraffa, para ele é irrelevante. Você pode demonstrar como o trabalho vai gerando valor em relação ao lucro sem precisar usar o tempo. Só existe proporção de capital trabalho na mercadoria padrão para Sraffa, vale lembrar também.

‘Marx define mercadoria como algo que tem valor de uso e foi produzido pelo despendido de trabalho humano para troca’

R: Esse pressuposto não mais é necessariamente o seguido após O Capital III, e a noção de bens privatizaveis; porém, vamos esquecer isso momentaneamente.

‘Reforço novamente que se o valor não tem nenhuma conexão com o preço, é um conceito desnecessário e Ockam estará feliz em cortá-lo’

R: Dediquei a seção 1 inteira para mostrar que há conexão, e metade da seção 2 para mostrar que há fortes provas que o valor não só existe, como essa relação e processo tem forte compatibilidade com os preços no mercado.

“Além do mais, a preferencia temporal não é um julgamento de lucratividade per se, mas sim um julgamento da importância entre consumir X quantidade no presente, ou Y, sendo Y>X, após certo período de tempo T. É um julgamento de valor, no sentido de valor de uso, ou mais precisamente, de importância relativa entre quantidade Y em T ou X agora”

R: Creio que minha resposta algumas perguntas atrás, no qual me utilizei de Sraffa sobre a abstinência (a teoria de Nassau Sênior no caso, que não é nada mais que o ‘germe’ do qual a preferência temporal nasceu; o próprio Rothbard admite em ‘An Austrian Perspective on Economic Historic Thought’ que Bawerk basicamente apenas pegou a teoria do Nassau Sênior e fez algumas poucas alterações) já respondem sobre isso.

‘Custo do trabalho é os salários, isso ficou bem claro no texto, principalmente ao tratar da lei férrea dos salários, note o salários no final do lei férrea. O que foi afirmado é que os teóricos do valor-trabalho, para explicar os salários, apelam para a lei ferra. Segundo a crítica, foi a teoria de valor-trabalho, e não apenas a Marx, o que se foi demonstrado é como ela não pode explicar os salários, e especialmente Smith e Ricardo, sem algum fator exógeno ao sistema, ou seja, não se explica o preço do trabalhador dentro do sistema da teoria de valor-trabalho, enquanto a teoria marginalista explica, sendo mais um preço que a mesma explica e a teoria de valor-trabalho não’

R: O que se frisou foi que Marx não se utiliza da Lei Férrea dos Salários, na verdade, pode-se tranquilamente dizer que ele foi o autor que a ‘refutou’ na época. Como eu ressaltei antes, meu interesse não é defender Smith e nem Ricardo em sua totalidade, pois seriam causa perdida (longe de mim diminuir a grande importância desses grandes nomes, pois com certeza eu não chego nem aos pés dos que estão na ‘patreleira de cima’), eles realmente erraram em vários pontos, mas erros necessários para as melhoras e evoluções posteriores que seriam encontradas nos aportes superiores de Marx e Sraffa por exemplo, e que são erros totalmente naturais e compreensíveis dado à época que viveram.

Mas cabe-se aqui afirmar que Smith não necessariamente apelava para isso, ele tinha uma teoria da determinação dos salários pela correlação de forças sociopolíticas entre as classes. Marx e Sraffa também, mas eles foram mais técnicos. O elemento de luta de classes é parte fundamental no qual se calca a TVT, e na terminologia neo-ricardiana, é a luta pelo excedente; principalmente esta, pois Sraffa confirmou que a taxa de lucro é igual a taxa de lucro máxima vezes 1 menos os salarios. Basicamente se parte do excedentes for para o lucro o outro não pode ir por salarios e vice versa.

wage

Explicando melhor: o excedente produzido pelo trabalho é dividido entre salários ( w ) e lucro (r). Os capitalista divide o excedente para pagar os trabalhadores, porém nem tudo vai para eles. Todos os números aqui se dão por porcentagem, e o que acontece é o seguinte: esse processo não depende de uma análise social do capital, mas de uma análise física e objetiva do capital, como dito anteriormente. O excedente é representado pela linha em declive no meio, a linha horizontal ou eixo X, é o lucro do patrão, e a linha vertical ou eixo Y é o salário. Assim, enquanto mais você desce pela linha em declive (excedente), mais você ganha de lucro, e caso você chegue na linha X, implica em o trabalhador não ganhar nenhum salário e você chegar na taxa de lucro máxima. A taxa de lucro máxima é sempre 1 (pois está em porcentagem). Ilustrando um exemplo com a equação do desenho abaixo:
Se do excedente 50% for para o salários teríamos
r= 1(1-0,5)

r=0,5
Mas e se o patrão tomar todo o excedente para si? Ou seja, ter uma taxa de lucro máxima. Isso implica em r=R
1=1(1-w)

w=0
Ou seja, em resumo há uma pichada de corda do lado dos salário e do lado do lucro. Isso é algo objetivo e da estrutura física da produção.

Portanto, o que define a questão dos salários dentro da TVT é justamente a luta pela apropriação do excedente, porém cujo o valor total (incluindo-se o excedente da produção que terá luta para ser apropriado; o ‘bolo inteiro’) já é calculado dentro dos pressupostos da teoria do valor-trabalho, através do cálculo do trabalho dispêndio na produção e a transformação depois e etc e etc, como já é de praxe da TVT.

Já a utilidade marginal tem problemas muito sérios aqui pois ela depende da teoria da distribuição marginal, e a produtividade marginal não se iguala ao salário como mostraram os neo-ricardianos.

O argumento-chave desta teoria é que a distribuição de renda numa economia (capitalista) está determinada pela produtividade marginal dos fatores da produção, capital e trabalho. Os fatores da produção percebem como remuneração o que corresponda a sua contribuição à produção social. Cada trabalhador recebe como remuneração sua contribuição marginal ao produto, como salário.

Porém, Piero Sraffa, Joan Robinson e Pierangelo Garegnani demostraram que não havia maneira de medir o fator chamado capital de maneira independente da distribuição. Essa crítica demostrou que a teoria da produtividade dos fatores sofria de uma circularidade fundamental. Só é possível determinar a produtividade do capital conhecendo o preço dos bens de capital (porque isso é o que permite somar máquinas heterogêneas e edifícios de todo tipo), mas os preços não são independentes da distribuição de renda e, no caso do capital, o preço depende da taxa de lucro. Portanto, para conhecer a produtividade do capital é necessário conhecer a taxa de lucro, mas para isso é necessário conhecer: a própria produtividade do capital.

Os seguidores da teoria da produtividade marginal compraram a briga obviamente, mas Paul Samuelson, aceitou a derrota em um célebre artigo publicado em 1966. Esse reconhecimento devia ter sido suficiente para abandonar o enfoque marginalista. Mas a contribuição ideológica que realiza essa teoria é chave e os ‘poderes estabelecidos’ resistem em perdê-la.

Ou seja, distribuição da renda (salários) não é determinada da forma que a utilidade marginal precisa. A distribuição se define, como bem afirmou Sraffa há já 50 anos, depende de coisas como a força relativa das uniões de empresários e dos sindicatos dos trabalhadores, porém, essa luta pelo excedente (que em seu âmago é apenas uma manifestação da luta de classes marxista) tem primeiro o seu valor total definido com base na produção que é fácilmente explicada pela TVT, enquanto o fator político está abarcado tanto na teoria marxista e sraffiana que são os sistemas que comportam a TVT; enquanto isso, já se é comprovado que a pressuposição da utilidade marginal para isto, está errada. Também poderia me utilizar das críticas de Steve Keen aqui, mas deixemos isso para futuras contestações adiante no debate (caso houver, claro), para não tomar muito espaço.

Portanto, não há nenhuma dificuldade aqui para a TVT.

Pra finalizar, eu gostaria de me desculpar pela demora na entrega da resposta, pois estou realmente passando por problemas (tendo até saído do facebook), porém, consegui entregar uma resposta relativamente suscinta em defesa a TVT frente às críticas da utilidade marginal.

Gostaria de ter trabalhado com mais críticas, ainda mais complexas, e de autores diferentes, como por exemplo a noção do desequilibrio de curto prazo na Concorrência Imperfeita de Joan Robinson ou as outras falhas do marginalismo mostradas por Steve Keen, porém, isso iria prolongar muito o debate, iria dar muito mais trabalho e dificultar a linguagem acessível para os que estão lendo e tentando aprender algo aqui.

Talvez eu lance algum artigo paralelo ou uma série, no futuro, que comporte todas as críticas à utilidade marginal que eu gostaria de comportar, do que nesse simples artigo.
Dito nisso, creio que ficou evidente aqui que a utilidade marginal é ineficaz ou anti-científica, frente aos fenômenos econômicos; porém, isso não a descarta totalmente, ou invalida seu estudo, talvez possamos utilizar ela para afirmar que em questões de ação e escolha há uma seara ‘subjetiva’ (vamos definir assim pra não entrar numa discussão epistemológica), ou seja, a constatação de que o ato de escolher o que você vai comprar ou o que leva você a comprar X mercadoria, segue por uma lógica subjetiva.

Ppodemos ficar com essa parte do valor subjetivo (mesmo que já tenha teorias diferentes e interessantes que expliquem isso de outra forma como a ‘Função estética da mercadoria’ do Wolfgang Fritz Haug ou a ‘Teoria da Renda’ do Maurice Dobb), o que não afeta em absolutamente nada a TVT, pois ela não chega a adentrar nessa parte, e já entra muito mais numa discussão referente à indústria cultural e marketing.

É que falando bem simplificadamente, em campos da lógica e em filosofia da ciência, a ideia da necessidade de que uma teoria ou sistema seja absolutamente consistente para ter algum valor explicativo já foi descartada faz tempo, por causa da chamada lógica paraconsistente e toda a obra de Duhem e outros posteriores. Portanto, a noção de que se deva descartar completamente a teoria econômica, seja a utilidade marginal ou a de Marx simplesmente porque nela se encontram (supostamente) inconsistências ou contradições lógicas é, hoje, recusada, porque ajustes ad hoc são sempre possíveis.

De modo que é possível que, por exemplo, a teoria subjetiva do valor e a teoria do valor trabalho coexistam ou sejam aplicadas alternadamente a “regiões” ou níveis específicos do campo econômico. Por exemplo, a formação de preços das ações poderia ser, em teoria, explicada pela teoria neoclássica, enquanto que a teoria do valor trabalho poderia explicar melhor o preço das batatas. Uma analogia imperfeita aqui é com a relação da mecânica clássica com a quântica: são aplicadas em campos distintos. A prova concreta dessa possível harmonização é a própria obra de Oskar Lange e outros.

Portanto, fica aberto um ‘pragmatismo’ no que diz respeito a ação e escolha, porém, mesmo esta parte não está isenta de críticas, como Veblen demonstrou na seção 2, por se pautar em critérios que já foram descartados e são ultrapassados na psicologia (cálculo dos hedonistas do século 19); como ficará frente a isso, essa parte já podemos postergar para outra discussão, pois não prejudica de nenhuma forma a TVT, que explica os fenômenos econômicos e as ‘leis do capitalismo’, sua formação; ela não se o ocupa da determinação do valor de uso pelas preferências de consumo sobre certas opções de oferta de um tipo de mercadoria na concorrência de um nicho, ela estuda a concorrência apenas pelo valor de troca, a partir de quem consegue vender mais barato porque é mais produtivo e de vários outros fenômenos na totalidade econômico, ou colorarios referentes a isso;

no que diz respeito a 2 questão, pode-se dizer que frente a este artigo escrito aqui, a TVT está em plena vantagem, mesmo que as forças ideológicas do establishment tentem evitar isso, tal como tentaram justamente com a criação da própria utilidade marginal na época da Revolução Marginalista.

Para finalizar, deixo a critica de Robert Kurz sobre a utilidade marginal para reflexão:

 

<<The Marxian analysis of the capitalist deep structure, with its immanent fetishism, reveals the negative character of the labor-substance and its value-form. This crucial point has been ignored bashfully by the Marxism of the labor movement, and has been dismissed by the official economic science as “philosophical nonsense”. In the context of the rejection of the Marxian Theory, academic science even discarded the doctrine of the beourgeois classical economists, who regarded the expended amount of labor as the content of economic value. The dominant consciousness kept only the ethically repressive meaning and moral of the positive term of labor and thereby protected itself through ignorance against the discovery of their own irrational constitution, which lurks in the Marxian term of fetishism. Economics became the superficial theory of marginal utility, or the theory of subjective value. Within this theory – the foundation of today’s mainstream economics – the term of value is entirely dissolved into the appearance of price and, in turn, price is reduced to the purely subjective utility-calculations made by market participants (whose existence and constitution are assumed a priori). This post-classical theory does not really intend to and is not able to explain anything. Rather, its purpose is to bring the calculations of the market subjects into a systematic and computable form. Within the social sciences, mathematics appears on the scene at the point when the critical impulse has been lost and when one tries to bring the description of the social context, which lacks a theoretical explanation, back under control.

However, the proposition that price can be reduced to subjective calculations of utility and that it has nothing to do with some sort of an objective substance of value, is plausible only in unusual situations, outside the implicitly assumed social relations. For example, in the famous idea of the “glass of water in the desert,” whose marginal utility would rise to infinity. But examples of that sort are silly since they are not part of the ordinary performance of social-economic actions and can therefore not be considered to be the subject of economics. Within the real society of a commodity-producing system the explanatory power of the marginal utility calculations of use-values is practically zero. This is because, although market participants evidently weigh their subjective utility against the respective money price, they do not do this independent of social conditions; rather, they do this under objectified conditions, which are forced upon them and (a priori) influence their calculation in an unconscious manner. The theory of subjective value (price) confuses cause and effect here. Normally a certain good is disposable on a larger scale because the respective productivity has increased, i.e., the objective value of the single commodity (the expended amount of labor per good) has decreased through the diminution of its labor-substance. The subjective calculation of utility thus only follows, at best, the development of social productivity regarding the expenditure of labor.

However, the perception of smaller or greater utility in relationship to the level of human needs in no way regulates the production of goods. For instance, assume a growing mass of unemployed and recipients of welfare, people who are not able to buy certain desired and necessary goods: an increase in their subjective calculation of utility concerning these goods by no means causes a rise in prices of these goods; they are on the contrary more likely to fall, because demand decreased as a result of missing purchasing power, in spite of an increased social need. It is pure cynicism to attribute this fall in prices (consider a deflationary shock, for example) to a decline in marginal utility of the goods, due to a saturation of the corresponding needs. On the other hand, a lack of demand will not lead to any arbitrary decrease in prices below the objective labor-substance (according to the level of productivity), rather, it will precipitate a shut-down in production regardless of the unsatisfaction of (even vital) needs and an abundant capacity of production.

The theory of marginal utility, or the theory of subjective value, together with their various extensions in the twentieth century, wholly ignore that the capitalist order of society is not determined by the subjects of circulation, but by the irrational end-in-itself of production. The capitalist inversion of means and end, which Marx analysed, enforces firstly, that humans can in no way appear on the demand side of the goods markets without having previously sold their own skin in the labor market in the name of the systemic end-in-itself. Secondly, and following from this, the goods market is not at all the place where the calculations of use-value-utility made by independently producing subjects meet. Rather, the market, apparently being the place of the “freedom” of buying and selling, represents nothing but the sphere of the “realization of surplus-value,” i.e., the reconversion of the expended quota of labor into the form of money capital. The goods market is in this respect only a pass-through for the ceaseless pulsating capitalist end-in-itself, and is far from being constituted by a sum of subjective calculations of utility. The exact opposite is the case: these calculations of utility are bound to the realm of the pre-existing capitalistic law of the system. The term of utility itself is determined by that, not by the sense of well-being and the satisfaction of needs of the market participants.>>

 

– Rian Lobato

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