Joan Robinson (1903-1983) foi uma economista originalmente pós-keynesiana de nacionalidade britânica, e tida como a maior economista do século XX. Robinson também é uma das economistas que mais me influenciam dentro da minha concepção econômica e modo de enxergar os fenômenos dentro dessa seara, e uma das figuras femininas que mais admiro (junto com Rosa Luxemburgo, Patricia Churchland e outras) e considero como um exemplo de profissional, economista e pessoa.

Seus trabalhos abrangem desde a concepção e introdução do conceito de “monopsônio“, as críticas mais devastadoras a economia neoclássica, e a expansão do trabalho de grandes economistas como John Maynard Keynes, Michal Kalecki, Piero Sraffa e Pierangelo Garegnani, tendo esses dois últimos, ficado do seu lado durante a polêmica Controvérsia de Cambridge ou Controvérsia do Capital, acontecimento esse temido pelos economistas neoclássicos.

Joan Robinson também foi por muito tempo, crítica e admiradora de Karl Marx ao mesmo tempo. Ela era uma pós-keynesiana por natureza, com influências dos grandes economistas neoricardianos como Sraffa. Encontramos trabalhos grandes de Joan Robinson sobre Marx, como em An Essay on Marxian Economics (1966), onde apesar de elogiar e demonstrar o valor de Marx, o critica em alguns pontos concernentes a sua Teoria do Valor-Trabalho.

No entanto, podemos traçar uma regressão no pensamento de Joan Robinson, anos mais tarde, quando ela começa a se tornar uma marxista (da vertente do assim chamado neomarxian economics), principalmente no seu trabalho “Open letter from a Keynesian to a Marxist” (1953), onde ela já estava no meio do caminho para a sua transformação, e em 1960 e 1970 quando ela lança vários trabalhos entusiastas e simpáticos a experiência socialista na China de Mao-Tsé Tung, como em “The Cultural Revolution in China” (1969). Robinson tinha uma simpatia e compaixão muito grande pela população mais pobre do Terceiro Mundo. Ela se tornou uma forte entusiasta do Regime Maoísta a partir desta época, tendo Robert Sollow inclusive mencionado em seu “The Last 50 Years in Growth Theory and The Next 10” (2007) que Joan Robinson, que sempre foi reconhecida por pessoas próximas e seus alunos como uma pessoa confiante de personalidade incisiva, ficava ‘vermelha de vergonha’ e desajeitada, ao mencionar o nome do ‘Presidente Mao-Tsé Tung’.

De seus vários trabalhos (dos quais eu tentei instigar um pouco a curiosidade de vocês ao citar outras curiosidades acerca da vida dela e do seu trabalho), eu gostaria de dividir aqui uma crítica interessante à Teoria da Utilidade Marginal, base da Economia Neoclássica. No seu “Economic Philosophy” (1962), Joan Robinson realiza uma crítica inusitada e surpreendente à economia marginalista. A crítica pode ser encontrada e explicada aqui, na qual traduzirei e colocarei algumas partes abaixo – bem como adicionarei algumas informações que julgo pertinentes e necessárias, e que não estão no artigo original:

O que Joan Robinson diz, é que a Utilidade Marginal é uma teoria ‘comunista’, ou ‘revolucionária de esquerda’. A razão pela qual ela faz essa afirmação é porque, se aplicarmos a Lei dos Rendimentos Decrescentes, logo fica claro que o igualitarismo radical – de fato, algum tipo de socialismo ou comunismo – é a melhor maneira de maximizar a utilidade da sociedade como um todo. Robinson aponta que inclusive, esse é possivelmente o motivo pelo qual tantos marginalistas eram socialistas – podemos encontrar exemplos como Leon Walras, que era forte adepto do movimento socialista francês; Alfred Marshall, como mostrou W.P.D. Bliss em seu “A Handbook of Socialism” e nas declarações de Sydney Webb que constam que o próprio Marshall se definia como um ‘socialista’, e que este era ligado também ao movimento dos Socialistas Fabianos (favor, não confundir com a teoria da conspiração de alguns alunos do Sr. Olavo de Carvalho que veem socialismo fabiano em absolutamente tudo); e Knut Wicksell, que também era identificado como um ‘socialista’ (ainda que mantivesse algumas concepções malthusianas). 

Esses dias, na minha leitura de “Markets in The Name of Socialism” (2011) de Johanna Bockman, na qual ela estava dissertando acerca de um dos meus economistas favoritos, Branko Horvat (que falarei sobre ele muito em breve aqui no blog), na qual ela menciona  que, ao contrário do que geralmente se pensa, os planejadores marxistas das experiências socialistas do século passado não se utilizavam do marxismo dentro da economia, por acharem que ele só seria válido como uma ‘uma critica do trabalho no capitalismo’ – eles usavam economia neoclássica, ao contrário do que se espalha. Isso fica explícito também no livro do Horvat e do Kardelj, por exemplo, onde eles comentam sobre isso, tendo o primeiro uma seção apenas para isso em Political Economy of Socialism. É comentado também que se julgava que os a técnica neoclássica era mais eficiente no planejamento, do que a própria economia marxista. Bockman disserta:

‘Surprisingly, socialist economists, like Branko Horvat discussed on page 99, and other Eastern European economists often did not use Marxist political economy in their work analyzing and building socialism because they understood Marxism as a critique of capitalism not a blueprint for socialism. Instead, they used the same economics that was and still is mainstream in the United States: neoclassical economics’

A mesma coisa podemos encontrar em Oskar Lange (também um dos maiores economistas, na minha opinião, que falarei mais em breve).  Lange fazia parte dos chamados ‘socialistas neoclássicos’, indivíduos que têm no arcabouço da Escola de Lausanne, o equilíbrio geral walrasiano, o seu fundamento teórico. Para Lange, como ele disserta no seu “Marxian Economics and Modern Economic Theory” (1935), a conciliação entre a economia política neoclássica e a economia marxista é possível pois a economia neoclássica, supostamente, seria capaz de apreender a operação cotidiana de uma economia (e.g. política monetária, política creditícia, tarifas, localização da produção, preços de monopólio, etc) de modo superior à teoria econômica marxista. Esta última, por seu turno, é capaz de explicar as tendências fundamentais do capitalismo de modo que a economia neoclássica é incapaz de fazê-lo.

Em seu livro, Joan Robinson inclusive cita Alfred Marshall:

“Next we must take account of the fact that a stronger incentive will be required to induce a person to pay a given price for anything if he is poor than if he is rich. A shilling is the measure of less pleasure, or satisfaction of any kind, to a rich man than to a poor one. A rich man in doubt whether to spend a shilling on a single cigar, is weighing against one another smaller pleasures than a poor man, who is doubting whether to spend a shilling on a supply of tobacco that will last him for a month. The clerk with £100 a-year will walk to business in a much heavier rain than the clerk with £300 a-year; for the cost of a ride by tram or omnibus measures a greater benefit to the poorer man than to the richer. If the poorer man spends the money, he will suffer more from the want of it afterwards than the richer would. The benefit that is measured in the poorer man’s mind by the cost is greater than that measured by it in the richer man’s mind. (pp52-53)”

Joan Robinson cita também que o próprio Wicksell, ele próprio um socialista, considerava que o marginalismo era um “progama demasiadamente revolucionário” (thoroughly revolutionary program).

Com isso, Joan Robinson responde totalmente a ideia pelo qual as suas crítica ao marginalismo na parte técnica, seria motivada politicamente; ou seja, a ideia de que ela combateria o marginalismo por ser contrário a sua visão política e por supostamente levar a conclusões “pró-capitalistas”, e não por simplesmente estar errado. Ao mostrar que, na sua opinião o marginalismo é uma doutrina mais a ‘esquerda’ do que parece, Joan Robinson mostra que a sua crítica técnica não é motivada por vícios políticos ou interesses pessoais, mas por simplesmente estar errado.

Ela começa citando o que o termo ‘utilidade’ significa para os marginalistas, como ela cita Marshall:

“Utility is taken to be correlative to Desire or Want. (p48)”

Como ela salienta depois, a utilidade está ligada a satisfação. Se concordarmos que devemos ter agentes econômicos maximizar a utilidade, então assumimos que seus desejos estão levando a algum tipo de satisfação. Se não pensássemos implicitamente, o princípio da maximização da utilidade não seria socialmente desejável. Robinson levanta os exemplos de dependentes tóxicos e as crianças que não gostam da escola. É possível dizer que essas pessoas devem ser permitidas maximizar sua utilidade?Presumivelmente não.

Estes são pontos interessantes – embora eu tenha certeza de que os marginalistas poderiam os responder – mas esse não é o problema-chave com o marginalismo para Robinson. Para destacar este problema, ela novamente cita Marshall para deixar clara a posição marginalista:

There is however an implicit condition in [the law of diminishing utility] which should be made clear. It is that we do not suppose time to be allowed for any alteration in the character or tastes of the man himself. It is therefore no exception to the law that the more good music a man hears, the stronger his taste for it likely becomes; that avarice and ambition are insatiable; or that the virtue of cleanliness and the vice of drunkenness alike grow on what they feed upon. (p50) 

Podemos encontrar o mesmo no trabalho de Paul Samuelson, em ‘Economics”:

What is assumed is that consumers are fairly consistent in their tastes and actions – that they do not flail around in unpredictable ways, making themselves miserable by persistent errors of judgement or arithmetic. (p78) 

Robinson não deixa que os marginalistas se afastem deste erro bastante óbvio. Ela é rápida em apontar que esta condição, que é absolutamente essencial para que o marginalismo funcione, transforma a teoria em algo vazio:

We can observes the reaction of an individual to two different sets of prices only at two different times. How can we tell what part of the difference in his purchases is due to the difference in prices and what part to the change in his preferences that has taken place meanwhile? There is certainly no presumption that his character has not changed, for soap and whisky are not the only goods whose use affects tastes. Practically everything develops either an inertia of habit or a desire for change. (p51)

Esta é uma acusação condenatória da teoria marginalista. Isso significa que, em um sentido muito real, o ‘framework’ não pode ser aplicado ao material-empírico. Uma vez que assume necessariamente preferências fixas, não se pode lidar com as mudanças nessas preferências. E, devido a isso, não pode conceber, em contextos experimentais, de quanto a atividade do consumidor responde às flutuações dos preços, simplesmente porque não – e, na verdade, não pode – atribuir qualquer valor numérico às preferências que estão em constante fluxo. Robinson continua:

We have got one equation for two unknowns. Unless we can get some independent evidence about preferences the experiment is no good. But it was the experiment that we were supposed to rely on to observe the preferences. (p51)

Em outras palavras, a doutrina marginalista afirma que não podemos medir a utilidade diretamente. Nós sabemos da utilidade de uma pessoa apenas devido ao fato de que eles compram algo – isto é chamado de “revealed preferences” na literatura. Então, nós só conhecemos a causa – ou seja, a utilidade de uma compra – pelo efeito que ela produz – ou seja, a compra real que é feita pelo consumidor. Se considerarmos as preferências como sendo fixas, isso faz algum sentido. Mas se permitimos que as preferências flutuam, todo o edifício desmorona porque agora não podemos ter certeza de como as decisões do consumidor mudaram devido a mudanças de preços e até que ponto eles mudaram devido a uma mudança nas preferências.

Se isso fosse apontado para, por exemplo, Marshall ou Samuelson, eles teriam concedido o problema de minar a teoria da utilidade marginal, pois eles realmente entendiam a estrutura das teorias com as quais estavam lidando, segundo Robinson. Eles se convenceriam de que não podem integrar as preferências em mudança sem saber que, se o fizerem, toda a estrutura colapsa, porque torna-se impossível determinar qual mudança no comportamento do consumidor emana das preferências alteradas e que a mudança emana das mudanças de preços.

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